Os Maiores Momentos da História do Rock and Roll #01

Os Maiores Momentos da História do Rock and Roll #01

Desde que o refrão “one, two, three o’clock, four o’clock, rock”, de “Rock Around the Clock”, começou a ressoar nas rádios norte-americanas em 1955, a presença do rock and roll tem mudado a existência de gente nos quatro cantos do planeta. A partir destas seis décadas do surgimento do gênero, selecionamos 60 momentos que fizeram o rock avançar e se transmutar. É natural que cada um tenha os seus acontecimentos preferidos ou então a própria definição do que é o rock, mas a graça é justamente essa: o estilo sempre se mostrou mutante, adaptável e inquieto, ponto de partida de polêmicas e divergências.

É bom lembrar que as raízes do rock vieram do blues, do country e do rhythm and blues, que, por sua vez, desaguaram no soul, no funk e na disco music. Além de mostrarmos os caminhos que levaram a essas quebras e fusões, falamos também do punk, da música eletrônica e do rock alternativo. Afinal, atitude pesa muito nessa equação.

O rock sempre foi sinônimo de rebeldia. As provocações sexuais de Madonna são tão válidas quanto o rebolado de Elvis Presley na década de 1950. Assim, o que une Bill Haley e Amy Winehouse, artistas que aparentemente estão distantes milhões de anos-luz um do outro? Ambos fazem parte da vibrante história do rock and roll, essa semente para ícones de universos variados e com peso imensurável na trajetória de milhões de pessoas que, tantas vezes, dedicam a vida a ele, o gênero mais emblemático – e controverso – da música.

Aglutinando tendências da canção norte-americana, o rock and roll surgiu em meio a mudanças musicais e sociais

A pergunta “quando exatamente surgiu o rock?” vai ecoar eternamente. Não existe uma resposta simples e direta, já que o rock nasceu como parte de um processo revolucionário, tanto no aspecto musical quanto no comportamental. O estilo foi batizado na década de 1950 e virou a música da juventude – isso é fato, mas as raízes já se mostravam presentes em décadas anteriores.

É possível achar elementos que formariam o rock em todos os estratos da música de raiz norte-americana dos anos 1930. Naquela década, o jazz e as canções que vinham da Broadway e de Hollywood eram o que chegava às paradas. Paralelamente, pesquisadores e folcloristas, como John A. Lomax e o filho dele, Alan, já vasculhavam a rica música que vinha dos confins dos Estados Unidos, especialmente do sul do país. Gravações de country, gospel, folk e blues não vendiam tanto quanto a música popular baseada no jazz, mas sua poderosa presença já era notada.

O jazz, por sua vez, atingiu o apogeu nas décadas de 1930 e 1940 com o swing. Porém, o auge não foi duradouro: após o fim da Segunda Guerra, as big bands entraram em decadência. Já não era mais economicamente viável manter na estrada orquestras com 40 ou 50 músicos.

Além disso, o estilo também passava por alterações. O caminho estava aberto para o surgimento do bebop, nome dado ao tipo de jazz feito à base de improviso. Esse subgênero desestimulava a dança: era um som cerebral que agradava aos próprios músicos e aos intelectuais. A grande massa, principalmente os adolescentes, virou as costas para o bebop.

Nesse vácuo criado entre o final da década de 1940 e o começo dos anos 1950, veio, então, o pop. Era a música popular comercial não atrelada a qualquer tipo de raiz. O produtor Mitch Miller foi o grande mentor do estilo e revelou Guy Mitchell, Tony Bennett e Rosemary Clooney, entre outros. Em meio a tantos talentos, dois artistas produzidos por Miller já indicavam um momento de transição. A voz potente de Frankie Laine pontuava canções de cunho proletário e temas de faroeste, enquanto Johnnie Ray fazia a ponte entre Frank Sinatra e Elvis Presley. Surdo de um ouvido e com um estilo exagerado, Ray causava histeria ao cantar baladas lacrimosas, como “Cry”. O mais importante é que ele também colocava em seu repertório canções de artistas negros.

Consumida pela classe média branca, a sonoridade criada por Mitch Miller nas gravadoras Mercury e Columbia foi muito popular e aqueceu o mercado, mas o formato e a mensagem que continha pouco interessavam à juventude. A música negra novamente veio socorrer. O processo de mudança já ocorria há algum tempo – na Chicago dos anos 1930, bluesmen oriundos do sul, como Big Bill Broonzy e Tampa Red, satisfaziam o público urbano que frequentava os bares e clubes, mas os ouvintes começaram a clamar por um ritmo mais dançante. Enquanto isso, para não serem soterrados pelo barulho dos locais onde costumavam tocar, os músicos amplificaram o som que faziam. As guitarras elétricas já eram uma força no blues e no jazz: músicos como Charlie Christian e T-Bone Walker, donos de um estilo fluido e expressivo, seriam grande influência para Chuck Berry, por exemplo. Era a vez do jump blues e do boogie-woogie, vertentes aceleradas e agitadas do blues que vinham para anunciar o que aconteceria nos salões de dança. Esse tipo de blues amplificado, com som mais alto e marcante, ganhou uma nova denominação: rhythm and blues. O termo foi cunhado pelo jornalista (e mais tarde produtor) Jerry Wexler.

Em Chicago, a Chess Records revelou gigantes do estilo, a exemplo de Muddy Waters, Bo Diddley, Willie Dixon e Little Walter. Já em Nova York, a Atlantic Records tinha gente como Big Joe Turner, Ray Charles, The Clovers, The Drifters, LaVern Baker e Ruth Brown. Vendo o público crescer, Ahmet Ertegu?n, dono da gravadora nova-iorquina, recrutou Jerry Leiber e Mike Stoller, dois jovens produtores e compositores brancos que trabalhavam exclusivamente com os ritmos da música negra. Leiber e Stoller estavam por dentro dos jargões e gírias da juventude começaram a criar canções que falavam a mesma língua dos adolescentes da época.

Mais ao sul, na cidade de Nova Orleans, berço do jazz, o R&B se transformava pelas mãos e vozes de Fats Domino, Lloyd Price, Larry Williams e Little Richard. Outros luminares, como Billy Ward and The Dominoes, Big Mama Thornton, Hank Ballard, Little Willie John, Roy Brown, Etta James, Louis Jordan & His Timpany Five e Wynonie Harris, também foram cruciais em trazer diferentes elementos para a formação do rock.

As mudanças, no entanto, não ocorriam apenas no blues – a música country também passava por períodos de reformulação. O agitado honky tonk, que era executado em botecos de beira de estrada, antecipava o rockabilly. Hank Williams, que viria a se tornar figura suprema da música country, gravou, em 1947, “Move It on Over”, cuja estrutura rítmica e melódica mais tarde seria usada em “Rock Around the Clock”. Williams, com seu estilo de vida destrutivo, também foi um precursor dos excessos dos astros do rock.

Eterno apaixonado pela música negra, foi o dj Alan Freed que vislumbrou o enorme potencial comercial do rhythm and blues. Em 1951, ele batizou o programa de rádio que apresentava em Cleveland de Moondog Rock and Roll Party e, assim, o ritmo ganhou o nome oficial. O termo “rock and roll” não era novo – já tinha sido usado em várias canções em décadas anteriores e também era uma gíria para sexo –, mas Freed, ao reforçar a nomenclatura e promover os artistas emergentes de R&B, foi o verdadeiro pai da denominação “rock and roll”.

Como Freed, que tocava música negra também para o público branco, outra figura crucial na integração desses dois universos foi o produtor Sam Phillips. Ele conhecia profundamente o country e o blues e, em 1952, fundou a Sun Records, em Memphis, no Tennessee. A Sun Records gravava artistas negros e licenciava as matrizes para selos de outras partes do país. Por lá passaram B.B. King, Howlin’ Wolf e Rufus Thomas. Ainda em Memphis, em 1951, o cantor e saxofonista Jackie Brenston, acompanhado por Ike Turner e sua banda, The Kings of Rhythm (embora no selo tenha o nome saído Delta Cats), gravou “Rocket ‘88’”. Foi um marco: esta é considerada a primeira canção autêntica de rock, antes do hit “Rock Around the Clock”.

Ainda que Memphis, a cidade escolhida por Sam Phillips para a Sun Records, abrigasse como nenhum outro lugar a efervescência e a mistura musical dos Estados Unidos, o país vivia uma ampla situação de segregação racial. Pelo menos isso não ocorreu tão acentuadamente na música. Assim, jovens músicos fanáticos por R&B passaram a procurar a Sun – Elvis Presley foi um deles. O futuro Rei era o “branco com voz e sentimento de negro”, o tipo de artista que Phillips sempre desejou encontrar. A febre não demorou a se espalhar: Elvis foi seguido por outros futuros ícones, como Johnny Cash, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Roy Orbison e Conway Twitty, que avançaram a revolução da Sun.

A música se modificava e florescia a cada nova gravação, a cada novo show nos clubes, mas apenas isso não seria suficiente para gerar uma transformação cultural de fato. Havia também uma inquietude social nos Estados Unidos. O país vivia tempos de prosperidade econômica, mas ninguém disfarçava o sentimento de aguda paranoia causado pela Guerra Fria. Hollywood reportava isso por meio de filmes estrelados por iconoclastas, como Marlon Brando (O Selvagem) e James Dean (Vidas Amargas e Juventude Transviada). Em meio a esses jovens sem ligação com os “bons costumes”, uma nova classe ganhava consideração: o adolescente. Foi inevitável que os “rebeldes sem causa”, como eram chamados os jovens da época, adotassem o rock and roll como a música de seu dia a dia.

A revolução estava plantada. Firmando a chegada de tempos de rebeldia, em 19 de março de 1955, estreou Sementes da Violência, de Richard Brooks, cujo enredo tratava de temas como delinquência juvenil e conflito de gerações. Quando “Rock Around the Clock”, com Bill Haley & His Comets, começou a ecoar na abertura do filme, foi iniciada uma mudança sem volta: o mundo ouviu o poder do rock and roll

Fonte: Revista Rolling Stone

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