A Linguagem do Blues: Back Door Man

A Linguagem do Blues: Back Door Man

Buenas! Hoje conseguimos a autorização de Debra Devi, escritora e música norte-americana, para traduzir e publicar aqui no site da rádio os verbetes que ele escreveu sobre a linguagem específica do blues. A autora escreve com propriedade, sabe muito bem do que está falando: blues, puro e simples. As sessões originais encontram-se em uma coluna no site American Blues Scene, mas também viraram livro:  ‘The Language of the Blues: From Alcorub to Zuzu’, publicado em 2006 pela Billboard Books (Dá pra comprar ele pela Amazon, pra quem estiver interessado). De lá pra  cá, o livro já ganhou o prêmio ASCAP Deems Taylor Award for Outstanding Book on Music.  Segundo Bonnie Raitt, lenda viva do blues norte-americano, trata-se de “Um grande recurso – tão fascinante quanto informativo. A paixão de Debra pelo blues brilha através da obra”. Bem, vamos ao que interessa: hoje vamos postar o verbete da Linguagem do Blues que trata dos “back door men”, esses ricardões do blues.

 O “back door man” é o amante secreto de uma mulher casada. Ele está correndo pela porta dos fundos enquanto o homem da casa está virando sua chave na fechadura da porta da frente.

De acordo com Clarence Major, autor de Juba to Jive: A Dictionary of African-American Slang, “A porta dos fundos como uma entrada/saída para negros trabalhando na casa de brancos durante e após a escravidão talvez tenha legado à ideia da porta dos fundos uma grande presença na psiquê dos afro-americanos.”

O conceito do ‘back door man’ como um amante pode, também, derivar do fenômeno pós-escravidão dos ‘sweet back papas’. Eram homens que se esquivavam de uma vida de trabalho manual exaustivo – o destino de muitos homens afro-americanos à época – ao se tornarem músicos e viverem às custas de mulhers.

“Esses músicos de blues de cidade grande…” disse Big Bill Broonzy a William Ferris, em Blues from the Delta, “Eles viviam como reis porque muitos deles tinham mulheres que cozinhavam na casa de algum branco rico, e eles moravam na casa dos empregados atrás da casa desse homem branco.”

A letra cantada por David “Honeyboy” Edwards ao musicologista Alan Lomax numa tarde abafada em Friars Point, Mississippi, em 1942, conta a história. “Aqui está meu brinde”, disse Edwards:

Minhas costas são de osso de baleia
Minha barriga é feita de bronze
Eu guardo minhas coisas boas para as mulheres trabalhadoras
E o resto pode beijar meu traseiro

David “Honeyboy” Edwards

Willie Dixon imortalizou o ‘back door man’ em uma música que ele escreveu para Howlin’ Wolf, que levou “Back Door Man” para casa com a convicção que ele havia conseguido, de acordo com o amigo pessoal e guitarrista de longa data de Wolf, Hubert Sumlin.

“Wolf adorava aquela música,” disse Sumlin em nossa entrevista, “porque ele era um deles! Sabe do que estou falando? Alguém que está com uma mulher casada. A canção consiste nele sendo pego na casa dessa gente, na casa desse homem louco. Hey, o cara tinha sumido! E assim ele foi pego e, como ele diz na música, ‘Se você me ver saindo pela janela, eu não tenho nada a perder’.”

Hubert Sumlin & Howling Wolf

Mas e o que dizer sobre o cover lascivo que Jim Morrison fez de “Back Door Man”, que, segundo rumores, tinha mais a ver com a preferência por sexo anal ao invés de mulheres casadas? Estariam Dixon e Wolf dando um sinal para isso?

“Não, não tem nada disso,” Sumlin respondeu calmamente. “Eu imagino que algumas pessoas de fato pensem isso, mas se você ouvir a música toda com atenção, você vai perceber que é tem mais ali do que isso. Ela fala sobre estar no fundo do poço, correndo de uma situação ruim. Ele fez tudo isso, o Wolf. Ele foi pego naquela casa e teve que fugir”.

De acordo com Major, “Na cultura negra, isso [a porta dos fundos] raramente se refere ao ânus, ao contrário da cultura popular americana”. Em virtude de ser um branco cantando para um público branco, entretanto, Morrison deu à “Back Door Man” uma guinada sexual – que provavelmente deu ao poeta e provocateur Morrison uma dose extra de satisfação.

 

Você pode acessar a versão original <aqui>!

Tradução por Ismael Calvi Silveira.

Rádio Putzgrila

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