Entrevista com Billy Bond: para além de Rompan Todo

Entrevista com Billy Bond: para além de Rompan Todo

Eventualmente me dá uma coceira que faz olhar alguns ídolos da tão amada cena Rock do Rio conhecido como “o dos pássaros pintados”, ou “o dos caracóis”, ou como a coroa espanhola finalmente veio a chamar de “da Prata”. E é bonito pensar que ela sempre vai refletir alguma coisa para além daquelas águas salobras. O Billy Bond causa essa espécie de fascínio entre ser um personagem de grande importância dentro daquele rolê e, ao mesmo tempo, estar por trás e além da cena. Um Roquero del Trabajo! Produtor de discos célebres de Pappo’s Blues, Sui Generis, Serú Girán, Claudio Gabis y la Pesada, Jorge Pinchevsky (o violinista do rocanrol), além dos da sua banda Billy Bond y la Pesada del Rock And Roll e muitos mais, pois, acreditem-me, a lista é enorme. Assina produção também no Brasil; a sua banda brasileira “Joelho de Porco”, “Ney Matogrosso” … Em suma, um aglutinador de grandes artistas.

Billy Bond: “yo soy un trabajador del rock”.

Antes de ser pego pela milícia do golpe militar argentino, escapou pro Brasil com seu passaporte italiano, onde não tem nada escrito que remeta a Billy Bond, mas a Giuliano Canterini, garotinho nascido na Itália, de uma família escapada da guerra e que viveu em diversos bairros de Buenos Aires pois seu pai trabalhava de porteiro e a cada tanto ia pra um edifício em outra parte da cidade.

Começa sua carreira como cantor com o nome de Billy Bond. Forma então, junto com Willy Verdaguer (sim… do “Secos & Molhados” que tanto amamos) duas bandas: The Bobby Cats e Los Guantes Negros. Foi um dos sócios das 4 diferentes encarnações do já mítico bar La Cueva, reduto através do qual vários dos grandes nomes do Rock argentino viriam a se conhecer (nem que seja do lado de fora da bodega).

Foto interna do “Billy Bond y La Pesada del Rock And Roll Vol. 1”

“Naqueles tempos o ofício de produtor musical ainda não era entendido como hoje”: o cara que ajuda as bandas a garantir um som de qualidade nas gravações. E é esse um dos motivos de seu nome não figurar nas contracapas de vários dos discos que ele produziu entre o fim dos 60 e os primeiros anos da década de 1970, segundo Bond para um repórter argentino. Em outra entrevista, Billy esclarece que vários discos que produziu vinham com a assinatura do fundador do seminal selo Mandioca, Jorge Álvarez, pois ele fazia a produção, digamos, do estúdio pra fora, um produtor que estava ligado mais com o mercado e com a venda e distribuição dos discos – enquanto Billy Bond estava no lado de dentro dos estúdios ajudando os músicos a extrair o seu melhor com bandas que gravavam com ele pelos estúdios, principalmente no mítico estúdio Phonalex.

Depois tem o Billy Bond que trouxe grandes nomes da música internacional para shows que foram marcos na história do rock brazuca, entre eles, Van Halen e Queen. Também o Billy Bond dos espetáculos musicais (aliás, as maiores produções desse ramo no Brasil são dele), que ultimamente busca fazer uma ligação desse ofício com o Rock argentino; fazendo um espetáculo remontando a cena rock portenha de ontem e de hoje. Como ele mesmo diz: “uma espécie de Rompan Todo by Billy Bond”.

Billy Bond: “Yo vivo de lo que soy, no de lo que fuí. Hay que vivir para adelante”

Uma questão importante de salientarmos é que, enquanto a galera aqui nos pampas gaúchos estava discutindo se o rock feito no Rio Grande do Sul tem mais de 100 ou mais de 1000 grandes discos, o resto da américa latina estava em polvorosa, discutindo o documentário da Netflix Rompan Todo (Quebra Tudo em português). Um documentário que gerou grandes polêmicas sobre o critério um pouco duvidoso, de acordo com os mais fervorosos amantes do Rock Nacional argentino. Várias bandas e pessoas que foram peça chave no Rock Argentino não figuraram ali. Por exemplo, pensemos em bandas importantes que se dividiram em outros grandes grupos, como Almendra, não quiseram gastar tempo de filme explicando que a banda se divide e os músicos montam Aquelarre, Color Humano e, a mais conhecida, Pescado Rabioso. A mesma coisa com Sumo (que ganha uns 20 minutos de documentário) se dividiria em Divididos e Las Pelotas. Além disso, dá a impressão de que alguns músicos aparecem no documentário saídos do meio do nada, tipo Santiago Morotizado da banda El Mató a un Policía Morotizado, além dos uruguaios Roberto Musso da El Cuarteto de Nos e Sebastián Teysera de La Vela Puerca sem nenhuma preocupação cronológica (que era o que parecia pautar os primeiros capítulos). Isso que não mencionei Patrício Rey y Los Redonditos de Ricota, que nos dá a sensação de que entraram meio que na marra. E, mais pro fim do documentário, há o aparecimento de bandas altamente suspeitas em termos de Rock como os mexicanos Maná, a banda Wet Picnic (que, além de cantar em inglês, é uma banda praticamente desconhecida, cujo mérito, ao que parece, é ter sido uma das bandas de Gustavo Santaolalla – produtor do documentário). Mas, apesar de todas as críticas feitas pelo grande público argentino, a parte mais revolucionária do Rock latino-americano, capitaneada principalmente por Billy Bond parece ter sido a mais cuidadosa e menos perdida, o que viria a ser boa parte do segundo capítulo do documentário.

Billy Bond no Luna Park (o dia do histórico “¡Rompan Todo!”)

Trago essa dimensão do documentário pra salientar que, através dele, gente de vários países da américa-latina tem entrado em contato com Billy Bond pra conhece-lo, entrevista-lo e saber mais sobre sua história.

Billy confessa para nós em que está trabalhando. Além do espetáculo poderíamos chamar de Rompan Todo by Billy Bond, uma biografia em que vai contar em maiores detalhes toda sua trajetória de músico, produtor musical, produtor de shows, produtor de teatro e de grandes espetáculos musicais que sairá pela Editora Planeta.

Enfim… Parece-me que saberemos mais deste inquieto septuagenário (76 añitos) com o passar dos meses.

Outra coisa que saliento aqui. Creio que deva me considerar como um desses curiosos aí que andam vasculhando a produção do Billy, pois boa parte do texto que vocês estão lendo agora foi escrito semanas antes de eu ter o prazer de entrevistá-lo. Para mim foi um enorme prazer ter feito essa entrevista no domingo passado e poder saber mais sobre esses assuntos todos. Ele me respondeu às 7 da manhã e às 11 da matina no mesmo domingo saí abrindo o microfone. Vocês vão perceber ao assistir o vídeo.

Espero que essa conversa seja uma inspiração para todo mundo que queira entender a dimensão do que é esse boom do Rock Argentino, assim como para quem gostaria de entender que uma cena rock consiste não só de público, mas de parceria entre os músicos e muito, muito amor pela música.

Grande Billy Bond!

Entrevista concedida à Rádio Putzgrila no domingo 27/06/2021
Juann Acosta

Juann Acosta

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