Resenha: Willie Nelson – Let’s Face The Music And Dance

Ano passado, Willie Nelson me surpreendeu. Demorei um pouco para, enfim, ouvir Heroes e me apaixonar completamente pelo novo trabalho do velho Willie. Já sabia que ele vinha fazendo bons trabalhos nos anos 2000, mas, por algum motivo que desconheço, eu não estava tão certo de que Heroes seria uma audição tão deliciosa quanto foi. O fato é que Willie já havia anunciado a gravação de um novo álbum ainda no final do ano passado e eu fiquei, é claro, ansioso pra caramba. Let’s Face The Music And Dance foi finalmente lançado no dia 16 de abril deste ano e agora pude ouvi-lo por inteiro e com muita atenção. Então, vamos ao que interessa.

Ainda sob o efeito viciante que Heroes produziu em mim, fui com uma tremenda sede ao pote. Assim que pus minhas mãos em Let’s Face The Music And Dance, coloquei-me a ouvi-lo com uma certa ansiedade – quase como um viciado que absorve sua dose diária. Assim que começou a rodar o som, percebi que havia algo de errado. Conforme as canções foram sendo tocadas, essa sensação aumentou. “Em algum ponto, Willie me enganou”, pensei num primeiro momento – depois reconheci que o erro era meu. Na minha ânsia por ouvir uma repetição de Heroes, deixei de averiguar qual seria o real tom de Let’s Face Music.

O próprio título já sugere qual é a proposta: “Let’s Face The Music And Dance” é um standard do Great American Songbook (a “coleção” dos grandes temas do jazz/pop clássico). Composta por Irving Berlin, ela já foi gravada por gente como Tonny Bennett, Shirley Bassey, Nat King Cole, Ella Fitzgerald e Frank Sinatra, entre outros (aliás, é digno de nota que Shirley Bassey [62] e Nat King Cole [64] já gravaram discos com esse nome). De qualquer forma, a faixa de abertura é Let’s Face.. e apresenta uma proposta intimista, pop/jazzística, com alguns sotaques country em seus fraseados, sutil e voltada para a voz de Willie.

A sequência da seleção é “Is The Better Part Over” – única composição original de Nelson -, uma canção suave que data do disco A Horse Called Music, de 89. Ela soa um tanto nostálgica, talvez uma referência ao vindouro aniversário de 80 anos de Willie (30/04). “You’ll Never Know” (mais um standard) e “Vous Et Moi” (de Django Reinhardt) seguram o nível geral, ainda que não sejam lá o ponto mais alto deste álbum.

“Walkin’ My Baby Back Home” também não compromete e pavimenta o caminho para o surgimento de “Matchbox”, uma boa interpretação da música de Carl Perkins. As canções de amor se espalham por toda a extensão do trabalho, e vemos isso em “I Can’t Give You Anything But Love”, “I’ll Keep On Loving You” e “I Wish I Din’t Love You So”, canções que aparecem na sequência de “Twilight Time”.

O ponto alto do disco começa quase em seu final, quando entra em cena “South Of The Border”, um standard do country pelo qual eu, particularmente, sou apaixonado desde que o ouvi pela primeira vez na voz inigualável de Patsy Cline. “South Of The Border” é, junto com as canções que vem à sua frente e “Is The Better Part Over”, o que há de mais country no set – e talvez seja por isso que eu esteja nomeando justamente esta parte como o ponto alto da gravação.

“Nuages”, mais uma canção de Reinhardt, mantém a levada country, construindo o clima para a belíssima “Marie (The Dawn Is Breaking)” (outra de Irving Berlin) e para o final deste lançamento, com a canção “Shame On You” (Spade Cooley), apresentada num andamento animado, contrastando com os vocais arrastados do nosso querido Willie Nelson.

De uma forma geral, há uma grande homogeneidade em Let’s Face The Music And Dance. Não sei dizer, ao certo, se isso é uma coisa boa ou ruim. A maior parte das interpretações me pareceram um pouco “previsíveis”, talvez. Houve poucos momentos em que fiquei realmente excitado com o disco, embora estas ocasiões tenham se mostrado experiências realmente proveitosas. O resultado final foi um set muito bonito, ainda que por vezes meio monótono, que denota um certo ar sublime na voz de Nelson, tornando-a algo que transcende o próprio tempo e espaço, encaixando-o junto com Leon Russell na categoria de “master of space and time” (mestre do tempo-espaço).

Acredito que Let’s Face… seja o resultado daquilo que pode vir a ser uma nova fase na carreira de Willie Nelson. Pensando bem, o álbum me soou como uma retrospectiva de algumas canções que provavelmente embalaram a vida do cantor em vários momentos. Let’s Face The Music And Dance, neste sentido, se apresenta de uma forma similar ao novo álbum de Eric Clapton, “Old Sock”, no qual o britânico explorou muito o jazz e o reggae. A diferença principal entre os dois acabou ficando no resultado final: enquanto o Slowhand pôde nos convencer positivamente de que pode fazer algo novo de si mesmo, Willie se atrelou a algumas fórmulas e não mostrou tanta inovação – e talvez este nem tenha sido seu propósito. De qualquer forma, a audição do novo tento de Willie Nelson ainda é válida, desde que, é claro, mantenhamos nossa cabeça aberta para a diferença demonstrada ali.

Por Ismael Calvi Silveira.

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