WHO THE FUCK IS CENA BETO?

texto Tiago Mardito


Para começo de conversa, já exista uma cena antes de qualquer rótulo fosse pensado. O que não havia definitivamente era um visível link estético ou ideológico entre seus membros, mas todos já admiravam o trabalho uns dos outros, iam para as apresentações uns dos outros, participavam dos shows e discos uns dos outros e chegavam até compartilhar integrantes com as bandas uns dos outros também. Não é assim que basicamente se alimenta uma cena musical? Pois é, da maneira mais natural possível, a coisa já começava a tomar corpo.
                Se bem que era um grupo razoavelmente heterogêneo de pessoas, tanto em relação à musicalidade, como em termos de personalidade – a rima não foi intencional, acreditem. Havia um performático songwriter e o guitar hero da turma (Juvenil Silva); um
dos melhores letristas, também compositor, que Recife pode ter gerado nos últimos anos (Graxa); um roqueiro desbocado sempre a procura do beat para fazer a moçada cair na pista (Jean Nicholas); o introspectivo músico-produtor de onde você pode esperar a mais diversificada gama de sons e estéticas possíveis (DMingus); um compositor que transita entre a Vanguarda Paulista e o Canterbury Scene (Matheus Mota); um inclassificável e radical grupo que assombra platéias com seus shows não menos que impactantes (Ex-exus); uma banda fortemente influenciada pela psicodelia tupiniquim dos idos 60-70 (Dunas do Barato);  enfim um seleto grupo de figuras pitorescas.
Mas onde está Beto em toda essa história? O nome propriamente dito surgiu algum tempo depois, em um momento em que todos estavam começando a tentar organizar toda essa movimentação. Esse bando de malucos descritos no parágrafo acima resolveu se reunir no bar Derbilhar, que fica no bairro do Derby, em Recife. Em um primeiro instante, o ambiente estava especialmente caótico, com muita idéias e comentários fortuitos sendo disparados para todos os lados. Havia pessoas ali que mal se conheciam tentando entrar em uma sintonia que, de certa forma, já pairava ali no ar e só precisava de um empurrãozinho para se fazer concreta.
Chega o momento em que a seguinte questão é colocada em pauta: que nome vai se dar para essa bagaça toda? É mesmo necessário definir esse agrupamento de músicos? A conversa toma agora um rumo mais eufórico: uns defendem raivosamente a definição de um nome a essa tal cena musical, outros negam veementemente qualquer tipo rotulação e alguns simplesmente caem na risada. Foi aí que, em um estalo, Graxa, o cronista do mítico bairro do Jiquiá, aonde a idos anos aportou um Graf Zeppelin e onde ainda se encontra a primeira torre para aquele tipo de dirigível em toda a América do Sul, de repente levanta sua voz em meio aquele tumulto e fala: “Bicho, precisa mesmo disso? Não tem que ter nome para essa Cena? Então chama logo de Beto. Olha aí que beleza…Cena Beto”. As gargalhadas agora eram gerais, mas foi daí que uma piada interna tomou grandes proporções. 
Pois é, minha gente! Sinto muito decepcioná-los, mas foi assim que surgiu o nome. Nada de histórias mirabolantes de quem parece ter uma equipe de experts em assessoria de imprensa ou roteiristas de histórias cinematográficas ao seu dispor – e olha que, cá para nós, muitos por aí tiveram e tem alguém que se presta a esse serviço todo. Deixemos um pouco os manifestos pomposos e nomenclaturas marqueteiras de lado nesse momento. De que vale tanta algazarra se, no fundo, o sujeito só está se importando em fazer o seu na maciota, sem se preocupar muito com o seu companheiro em volta? Pois, a Cena Beto possui esse suporte interno de sobra, tanto que sai pelo ladrão. E não foi preciso nenhuma barra ser forçada, pois todos nesse grupo genuinamente apreciam e apoiam o trabalho do outro. É uma Não-Cena que não faz cena e é mais Cena do que muita Cena, captou a mensagem?
De lá pra cá, a única coisa que posso dizer agora é que muitos discos foram lançados, outros tantos shows foram feitos, alguns bons eventos foram realizados e, acreditem, na imensa maioria de todos esses casos, foram os próprios músicos que fizeram as coisas rolar, sem auxílio de verba pública ou mão grande de figurão algum – sim, às vezes isso é possível também.
E não que fica só por aí, pois os compositores German Ra, Ênio Ohomemborba e Hugo Coutinho, e a íntérprete-mor e musa da Cena, Aninha Martins, ainda nem lançaram seus primeiros trabalhos, fora os próximos discos da turma citada nos parágrafos acima que ainda hão de chegar, cada vez mais e mais.  Sem esquecer o auxílio de Cláudio N e Grilowsky, músicos que militavam há tempos em outras trincheiras, mas que foram devidamente convocados e aceitos de pelos betosos.
Então é isso, meus amigos: a Cena Beto é a vontade de potência prevalecendo sobre as inúmeras dificuldades e a crocodilagem alheia, ou seja, não anula o desejo de seus integrantes verem seus parceiros alcançando sua parcela de reconhecimento; é um verdadeiro coletivismo que não se ampara em um ideário político-cultural que beneficia um grupo pequeno; é todo mundo junto, misturado, muito às vezes se fudendo junto também, mas, na hora de levantar do baque, meu amigo, segure a onda, porque vem todo mundo de vez virado com a porra de volta! E podem ter certeza, ainda tem muita lenha, ou melhor, filme, como diria uma música de Jean Nicholas, para queimar!

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