Vapors of Morphine: Entrevista com o vocalista, Jeremy Lyons

Conheci o Morphine, banda norte americana de rock experimental, enquanto conversava com um amigo sobre bandas de rock com formação inusitada. O Morphine contava, originalmente, com o vocalista e baixista Mark Sandman, o saxofonista Dana Colley e o baterista Billy Conway. O som da banda combinou elementos do jazz e do blues com arranjos tradicionais do rock, originando sua própria musicalidade, em várias apresentações do grupo, o baixo de Mark Sandman contava com apenas duas cordas. Porém, infelizmente, durante um show da banda em 1999, Sandman teve um ataque fulminante do coração, na cidade italiana de Palestina, falecendo no palco aos 46 anos de idade.

Em 2009, os integrantes remanescentes do grupo juntaram-se ao guitarrista e vocalista, Jeremy Lyons e formaram o Vapors of Morphine, que apesar das diferenças, dá continuidade ao projeto, mantendo suas características alternativas e experimentais.

Ai eis que esses dias um outro amigo, ouvinte aqui da Putzgrila, o Rafael Barletta (valeu, Rafa!), responde uma postagem minha no Facebook, marcando o Vapors e gerando o contato entre Jeremy Lyons e esta aqui que vos escreve. Ah, a internet… Aproveitei a oportunidade e bati um papo (via Facebook mesmo) com Jeremy, sobre a formação dele como músico e o futuro do Vapors Of Morphine.

Ana Beise: Oficialmente, você começou a tocar com Morphine em 2009. Antes disso, costumava tocar nas ruas, com uma banda diferente. Aqui no Brasil, faz pouco que tornou-se popular para os músicos atuarem em espaços públicos como esse. Você poderia falar um pouco sobre essa experiência? Como você conheceu Morphine e como o convite para substituir Mark Sandman aconteceu?
Jeremy Lyons: Eu vivi em Nova Orleans de 1992-2005. Eu toquei nas ruas com a Big Mess Blues Band (e outros grupos, e sozinho) de 1992-1997. Nós tocávamos blues acústico e outros estilos. Tábuas de lavar e baixo feito de maquina de lavar, e guitarras de ressonância… em qualquer lugar entre 3 e 15 pessoas tocando no mesmo lugar juntos. Então eu parei com as ruas e foquei no meu trio Jeremy Lyions & the Deltabilly Boys. Guitarra, contrabaixo e bateria. Nós misturamos Blues, Rockabilly, surf music e swing. Aquele grupo tocava em clubes e bares de Nova Orleans e em alguns festivais e fizemos algumas turnês. Mas tocar nas ruas era ótimo! Eu aprendi com músicos mais velhos e vivia disso. Nós éramos totalmente acústicos. Nada de amplificadores. Tocar a céu aberto no meio de um lugar como Nova Orleans – realmente uma experiência de tirar o fôlego. Eu sentia que eu era parte de alguma coisa maior que eu mesmo. Parte da história.
Eu ainda sinto saudades. E Nova Orleans. Uma das minhas amigas mais próximas daquela época era Lissa Driscoll, também conhecida como Washboard Lissa ou Ragtime Annie. Ela era o coração e a alma da cena. Ela faleceu de câncer na garganta. Eu acho que ela foi o 7º ou 8º membro da banda a morrer. Então existem um monte de ótimas memórias, mas um monte de tristeza também.
Em agosto de 2005 minha esposa, minha filha e eu evacuamos para a casa da minha avó em Baton Rouge, cerca de 90 milhas de Nova Orleans, e em terreno elevado. Nova Orleans estava alagada e nós nos mudamos para Cambridge, Massachussets, onde tínhamos alguns amigos e família. Eu fui criado no estado de Nova York, não muito longe de Massachussets.
A cidade natal que adotei estava debaixo d’água, e eu agora estava vivendo em um lugar onde eu não queria estar, mas pelo bem da minha filha mais nova eu senti que tinha que ficar ali. Através de amigos em comum eu conheci Dana, Jerome e Billy, do Morphine. Honestamente, eu conhecia a banda, mas não estava familiarizado com a música deles. Naquela época, Dana e Billy ainda estavam tocando na Twinemen, que eu gostava.
Jerome tocava em alguns shows comigo na tentativa de recriar os Deltabilly Boys em Massachussets. Então, uma noite nos tivemos um “freela” e eu não consegui achar um baixista, então eu pedi pra Dana se ele conseguia trazer o sax dele e o pedal de oitava e ele completou. Foi um estouro. Primeiro tocamos coisas como trance-like blues. Delta blues e hill country blues. Isso eu acho que foi em 2007. Dana estava numa banda com Monique Ortiz chamada AKACOD e só tocava comigo uma vez ou outra, mas eu sabia que ele, Jerome e eu tínhamos algo especial. Então eu esperei. Eventualmente AKACOD meio que terminou. Em 2009, pediram pro Dana trazer o grupo de volta para o festival da Palestrina, na Italia, onde Mark Sandman morreu. Depois que Les Claypool recusou, e talvez algumas outras pessoas, eu peguei o trabalho – uma chance de ir a Italia se eu aprendesse algumas musicas. Mas eu tinha um amigo que me fez o segundo baixo e nós tínhamos um freela semanal na taverna Atwood, então nós podíamos essencialmente ensaiar na frente do público. E foi a partir daí.
Eu deveria dizer que nunca foi nossa intenção que eu fosse visto como substituto do Sandman. Vapors of Morphine e Morphine são duas bandas diferentes, embora estejam obviamente conectadas. Eu não tento cantar como Mark, e eu sempre toco um pouco de guitarra assim como um baixo de duas cordas. Me sinto honrado de de fazer parte da banda e trazer para o palco músicas muito amadas e que foram negligenciadas pelo inconveniente fato de que alguém morreu antes da hora.  Ainda, eu passei a maior parte da minha carreira tocando músicas de outras pessoas e minha bagagem no blues me dá uma melhor base para o trabalho do que se eu fosse um típico guitarrista ou baixista de rock.

AB:  Que tipo de música você gosta de ouvir? O que influencia você? Você se lembra do seu primeiro contato com um instrumento musical?
JL: Atualmente tenho ouvido Brian Eno, Rihanna ‘ANTI, Wu Tang Clan, Dr. Dre e um CD de Piedmont Blues. E um guitarrista da África Ocidental. Eu também tenho ouvido Skip James, tentando descobrir algumas de suas músicas, e Mississippi John Hurt. Ambos são influências enormes em minha profissão. Sou influenciado por muitos mestres do Blues: Muddy Waters, Fred McDowell, Elizabeth Cotten, Howlin Wolf, etc. Também país clássico: Johnny Cash, Hank Williams, etc; jazz antigo dos anos 20 e 30 … Early rock & roll – Elvis, Little Richard, por exemplo. Primeiros heróis de guitarra como Link Wray e Dick Dale. E eu tenho que admitir, claro, a influência do rock dos anos 60 como os Beatles e Stones, Hendrix … E adoro o punk rock e, claro, o hip hop.
Minha mãe tocava o piano e cantava em casa. Tivemos uma caixa de instrumentos com os quais eu poderia jogar – um autoharp, tambores de brinquedo diferentes e coisas caseiras. Meu pai fez aulas de guitarra clássica quando eu era muito pequeno e seu velho violão estava em um armário e eu costumava tirá-lo e simplesmente bater nas cordas, sem saber nenhum acorde, mas tentando fazê-lo soar como um trem de carga. Quando eu tinha cerca de 14 anos eu decidi que queria tocar baixo. Mas desde que toquei violão, não larguei mais essa vida.

AB: Podemos esperar novas músicas do Vapors Of Morphine? No que a banda tem trabalhado ultimamente?
JL: Sim. Na verdade, entramos em estúdio na próxima semana para gravar. Temos três novas músicas originais e veremos o que podemos realizar. Nós também temos um novo produtor e estamos trabalhando em novos shows e, espero, turnês no Reino Unido, Europa e América do Sul. Duas das novas músicas são muito do estilo da Morphine. O terceiro é uma espécie de reggae DUB.

AB: Você conhecia a existência de Porto Alegre? Vocês tem bastante fãs por aqui.
JL: Não, não conhecia, sabemos que temos bastante fãs no Brasil e seria ótimo podemos fazer uma viagem maior pelo país em vez de apenas um show em São Paulo.

AB: Algum recado final para nossos ouvintes?
JL: Sim! O Vapors Of Morphine valoriza muito nossos amigos no Brasil e sempre é grato por sua generosidade. Sinto-me conectado ao seu país, porque a mãe da minha filha é metade brasileira, visito regularmente o país.

 

Entrevista por Ana Beise
Tradução: Lisiane Freitas

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