A urgência que não perde o pique – entrevista Rodrigo Lima (Dead Fish)

Quer uma prova de que o rock rejuvenesce? Ou de que, pelo menos, te faz envelhecer uma maneira menos penosa? Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish, é um bom exemplo. Com mais de quatro décadas, o capixaba é o típico ‘tio jovem’. Pelo menos no palco, onde ainda mantém um pique invejável. Coisa de guri novo (como se costuma dizer aqui pelo Rio Grande do Sul). Deve ter aprendido com aquela turminha sapeca do punk rock norte-americano de nomes como Jello Biafra (ex-Dead Kennedys), Greg Grafin (Bad Religion), Milo Aukerman (Descendents) e Kevin Seconds – que, em 1984, lançou uma bela canção chamada ‘Young Till I Die’.

Dos 41 anos nesse mundão desvairado sem fronteira, o rapaz dedica pelo menos 23 deles ao hardcore. Mais precisamente à banda que o deu visibilidade: o Dead Fish. Hoje nome consagrado do estilo, tanto entre a ala mais melódica quanto entre a mais encapetada, a banda – composta também por Alyand (baixo), Marcão (bateria) e Rick (guitarra) – conseguiu sobreviver às provações impostas pelo tempo. Entre elas: trocas de formação, mudanças geográficas, underground e sucesso massivo momentâneo. Mais importante que as superações, talvez tenha sido reinventar-se e fazer o melhor com o que se tem disponível. Coisa que só a experiência permite.

No próximo sábado, 19 de julho, o grupo capixaba estará mais uma vez em Porto Alegre para mostrar o expertise jovial que faz dos seus shows verdadeiras celebrações de loucura coletiva. O baile em ritmo acelerado vai rolar no Opinião (Rua José do Patrocínio, 834), às 20h. Assuntamos com Rodrigão sobre suas lembranças da capital gaúcha, a história do DF e o aniversário de 10 anos do já clássico Zero e Um.

O Dead Fish tem uma relação antiga com Porto Alegre: tocou aqui, ainda nos 90, ao lado da No Rest (um dos grandes nomes do hardcore independente no RS), abriu para o Bad Religion no Gigantinho, agitou o Opinião lotado e pisou no palco do lendário Garagem Hermética. Isso, além de ter amigos por esses lados. Quais as boas lembranças que vocês têm da capital gaúcha e o que gostam de fazer quando estão por aqui?
Rodrigo Lima – Já temos gerações de amigos aí pelo Rio Grande do Sul, alguns já sumiram e outros estão aparecendo até hoje nos shows. Sinto falta de algumas pessoas, principalmente da rapeize que era da No Rest. Na última vez que estive aí, encontrei a Aline e fiquei bem feliz de ter conversado, mesmo que pouco, com ela. Temos uma história genial sobre um gremista maluco que apareceu no nosso show com o Casualties em Hannover na Alemanha. Esse gremista é nosso amigo até hoje. Fora que o melhor chef vegan do Brasil está em Porto Alegre, o Allan Chaves, que também é um superprofessor e amigo.

Tirando as primeiras tours que fizemos no meio dos anos noventa, sempre passamos por aí correndo. É uma pena, porque gosto muito de Porto Alegre, principalmente das pessoas. O povo está sempre se falando, às vezes até brigando. Gosto da estrutura da cidade, não é super-higiênica – no sentido de querer parecer um presépio –, a comida não é ridiculamente cara como aqui em SP, tem parques legais, uma longa história com o skate… Definitivamente, estar em Porto Alegre nos faz bem.

Em 2014, completa-se 10 anos de um disco divisor de águas na carreira do DF: o Zero e Um. Esse trabalho marcou a entrada da banda num esquema mais show business, já que saiu por uma gravadora maior. Como foi, pra vocês, essa transição? Há como traçar um paralelo de como a coisa funcionava antes e como passou a funcionar depois desse álbum?
Rodrigo Lima – Sim, foi um divisor em tudo da banda. Deixamos o Espírito Santo para estarmos numa cidade do “eixo” e fazermos as coisas num formato bem diferente do que fazíamos. Foi um enorme aprendizado.

O paralelo que posso traçar é que, em dez anos, fizemos três álbuns pela Deckdisc e que durante todo esse tempo muitas coisas boas e algumas ruins aconteceram, só que com uma velocidade muito alta. Quando dei por mim, uma década tinha passado e, definitivamente, tenho uma bagagem extraordinária para compartilhar. Talvez se eu tivesse ficado no ES na última década não tivesse aprendido metade. Enfim, foi um ciclo importante.

E o retorno para um esquema mais ‘do it yourself’, foi uma necessidade ou rolou naturalmente?
Rodrigo Lima – Como disse, a gente vai aprendendo. Demora, mas aprende. As coisas simplesmente fluíram no decorrer desses anos. Fomos todos aprendendo como seguir e acertar mais do que errar. Sempre digo que talvez o Dead Fish seja a banda que mais errou no cenário brazuca. Mas, também foi a que mais acertou, a que mais aceitou o risco e tocou para frente. Fora que as tecnologias mudaram, tudo ficou muito mais simples, de gravar a divulgar um álbum ou um single. Enfim, acho que com essa bagagem toda vimos que não precisávamos mais fazer algumas coisas que fizemos no passado. Somos uma banda mediana bastante consolidada, podemos evitar algumas besteiras que fizemos e podemos focar nos acertos. Conseguimos achar uma equipe muito comprometida com o que queremos fazer da banda, e daí seguimos.

Das lições aprendidas: o que há de bom e de ruim em se estar num esquema maior?
Rodrigo Lima – Eu sinto sempre falta de rádios para as bandas independentes, rádios universitárias ou comerciais mesmo. Todo mundo pode me chamar de velho e dizer que hoje existe Facebook, rádio de Internet e bla blá blá. Mas, eu sinto falta de mostrar para o moleque lá da periferia do Rio de Janeiro ou de Manaus a minha banda e outras mil, e isso não se dá por um filtro da Internet. Ainda vejo a rádio como algo pra democratizar mesmo, criar segmentos e nichos que se sustentem. Para isso, a rádio é essencial. Essa é a parte boa de se ter uma divulgação mais “mainstream”.

A parte ruim é sempre o lobby, sorriso maroto aqui, promessa acolá, jabazinho ali. Isso é chato, tornou a indústria cultural brasileira um PB (preto e branco) chatíssimo, com discussões irrelevantes e gente com peso que não merecia nem fazer barulho na vizinhança. Porém, enfim… Se a gente for ver é assim em quase todos os segmentos brasileiros, não só o cultural.

O Dead Fish está fazendo alguns shows para comemorar o aniversário de lançamento do Zero e Um. Em Porto Alegre, a apresentação faz parte dessas comemorações, com repertório focado nas faixas do disco? Ou o lance deve ser mais um apanhado por toda a discografia?
Rodrigo Lima – Não, faremos o álbum. Se não estou enganado esta é a perna da tour que fecha as comemorações do álbum, acho demais que seja aí no sul, onde fizemos um grande barulho naquele tempo.

A pergunta mais clichê numa entrevista com banda (mas que todo mundo quer saber por que é uma curiosidade quase unânime): o que vocês andam ouvindo? Se possível, citem três exemplos de cada uma dessas categorias – hardcore nacional, hardcore gringo e fora do hc.
Rodrigo Lima – Eu quase não tenho ouvido hardcore ultimamente, estou gravando o disco novo e gosto de ouvir outros estilos quando estou em estúdio. Mas, já que falou de punk e hardcore, gosto de bandas como o Plastic Fire, do Rio, dos Renegades of Punk, de Sergipe, e a Rótulo, também de Sergipe. Esses dias peguei a discografia do Paura para ouvir de novo e estou ouvindo o novo do Ratos de Porão. Dos gringos, tenho ouvido o Atlas Losing Grip, Hero Dishonest e Descendents. Fora o hardcore, tenho escutado bastante Superchunck, Bruce Springsteen, Artic Monkeys, Ultraje a Rigor e Frank Sinatra.

Recentemente, a banda liberou um vídeo divertido do você (Rodrigo) agradecendo aos fãs pelo apoio no crowdfunding para o próximo disco. Nele, há menções de obrigado aos admiradores do DF, com aquele seu ar debochado, para, em seguida, tirar uma onda dizendo ‘se você paga de humilde os fãs votam até no Hitler’. Algum motivo especial para o sarcasmo? A receptividade do projeto foi realmente boa para que seja possível custear o álbum vindouro? Quando devem rolar as gravações e o lançamento?
Rodrigo Lima – Não é interessante que fãs do Dead Fish levem a banda tão a sério. Temos problemas com idolatria, preferimos um bom camarada que tenha senso crítico. Talvez por isso a gente goste tanto de provocar as pessoas que acompanham a banda, achamos importante. Faz as pessoas pensarem e ainda nos libera pra não sermos “exemplos” de porra nenhuma, apenas gente.

A receptividade foi muito acima da média, estamos felizes demais com isso, por isso tantos agradecimentos. Já estamos no meio das gravações e o lançamento deve ficar pra setembro, talvez no fim do mês.

http://youtu.be/XPzPObqIETo

Pra fechar: qual urgência em estar vivo, nos dias de hoje?
Rodrigo Lima – Depois dos quarenta? Comida vegetariana, vinis e livros hahahaha.

Por Homero Pivotto Jr.

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One Thought to “A urgência que não perde o pique – entrevista Rodrigo Lima (Dead Fish)”

  1. Renata Caballero

    ADOREI O PAPO DESSA ENTREVISTA, VENHO ACOMPANHANDO A BANDA HÁ ALGUM TEMPO, E ME SURPREENDENDO COM A CLAREZA E PERCEPÇÃO DO DEAD FISH, E ESSA ENTREVISTA COLABOROU MUITO PARAR ISSO, PARABÉNS PELO TRABALHO!

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