Resenha: Eric Clapton – Old Sock (2013)

É impressionante: Eric Clapton conseguiu me surpreender novamente! Sempre esperamos um determinado padrão (tanto de qualidade quanto de estilo) do velho Slowhand, mas às vezes ele consegue se mostrar capaz de fugir um pouco das obviedades. Em Old Sock, seu 22º álbum solo em estúdio, o veterano do blues rock britânico mostrou que além de bom gosto para escolher quais músicas regravar, ainda há em suas mãos o sopro criativo para algumas tentativas enquanto compositor.

Abrindo com uma versão puxada para o reggae de Further On Down The Road, de Taj Mahal, Eric Clapton já define o clima que há de se seguir. As músicas escolhidas tem uma levada suave e casual, bem descompromissada, como as recordações de um senhor de 67 anos; afinal, este é um dos propósitos de Old Sock: tirar as “velhas meias” do armário e mostrar ao mundo quais foram os sons que tocaram Clapton. Há de se destacar a participação da banda, um time de altíssimo respeito: Steve Gadd na batera, Willie Weeks no baixo e Chris Stainton no teclado.

O baile segue com uma parceria tradicional: J.J. Cale entra em ação e ajuda o Slowhand a enfrentar Angel, um belíssima canção que enternesse até o coração mais duro. Depois, desacelerando mais o passo, caímos num jazz cativante composto por Jerome Kern, “The Folks Who Live On The Hill”, cuja interpretação mais marcante é a da grande Peggy Lee. Com a idade, Clapton vem se aventurando cada vez mais no jazz – há de se lembrar que, em 2011, nosso veterano gravou “Play The Blues” junto do trompetista Wynton Marsalis.

Quando pensamos que tudo se encaminhará, a partir de agora, em um ritmo mais brando, há a reviravolta com Gotta Get Over, uma das duas composições originais do disco, na qual aparece a bela voz de Chakan Khan para acompanhar os backing vocals; mas logo voltamos às baladas com a linda versão de “Till Your Well Runs Dry”, reggae de Peter Tosh dotado de uma sensibilidade incrível. Com “All Of Me”, de autoria da dupla Gerald Marks e Seymour Simons, retornamos ao jazz com uma canção que já foi gravada até mesmo pela banda punk NOFX – é importante reparar em uma participação mais que especial na música: Paul McCartney empresta sua voz e seu baixo para auxiliar o amigo Slowhand.

Já em “Born To Lose”, vemos a primeira aparição de uma temática country – para mim, bastante algo até inusitado na carreira de Clapton, que se arriscou, mais ou menos, por essas praias nos idos dos anos 70, em No Reason To Cry (76). O que se segue à “Born To Lose” é, na minha opinião, o ponto mais alto do disco: uma versão que arrasa corações de “Still Got The Blues”, do companheiro de blues Gary Moore, acompanhada pelo competentíssimo Hammond de Steve Winwood. Não há palavras para descrever a beleza desta interpretação – acredito que esta será a versão definitiva, absoluta, para a tristemente bela canção de Moore; uma homenagem justa ao cantor e guitarrista que nos deixou em 2011.

Daqui pra frente, o tom de classe se mantém, ainda que seja difícil alcançar novamente o clímax de “Still Got The Blues”. Em “Goodnight Irene”, tema tradicionalíssimo de Leadbelly, Clapton não desaponta, tanto pela seleção da música, quanto pela execução. Em “Your One and Only Man”, canção composta por Otis Redding, Eric se esforça para fazer juz aos vocais da lenda do soul, mas transforma a canção em uma balada reggae, tirando-lhe a antiga explosividade emocional, para dotá-la de um tipo de beleza mais suave.

“Every Little Thing” é a outra composição original do álbum e é, acredito, a melhor das duas. Há, aqui, uma certa exultação da vida e uma bonita união entre o blues e o reggae, sem nunca estabelecer um limite claro entre um e outro. As backing vocals e o coral de crianças que encerra a canção, além de belos toques do slide, definem o tom desta faixa. E, para encerrar, um standard de jazz composto pelo lendário George Gershwin: “Love Is Here To Stay”, acompanhada por Jim Keltner na bateria, é a balada final que define nosso sentimento por Eric Clapton e pela boa música. É um amor que não se vai, que persiste e resiste às dificuldades para poder brilhar em momentos como na audição de Old Sock. Como bem cantou Eric: “every little thing you do is beautiful”.

Caso vocês queiram conferir, o disco saiu, na íntegra, para a audição por streaming no blog Speakeasy, do Wall Street Journal. Ouça aqui!

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One Thought to “Resenha: Eric Clapton – Old Sock (2013)”

  1. Jéssica Beleza

    Excelente resenha!! Eu não sabia das participações, demais, agora gostei ainda mais do CD :) E minha preferida do CD foi Still Got the blues!! Qdo acabou o CD tive que voltar nela umas duas vezes, Clapton se superando…:)

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