‘O RDP não é o que fazemos, e sim o que somos’, entrevista com Boka (baterista do Ratos de Porão)

 

Boka esmurrando as peles da bateria.

Antes de desembarcar na Capital para tocar nos 14 anos do projeto Segunda Maluca, dia 11 de novembro, batemos um papo com o monstro que comanda a bateria na lenda do hardcore nacional.

Por Homero Pivotto Jr.

Não, não seria exagero dizer que atrás do kit de bateria do Ratos de Porão existe um monstro no controle das baquetas. Isso porque o titular do posto, o jovem senhor Maurício Alves Fernandez, mais conhecido como Boka, promove uma bateção de tambor tão insana e intensa que parece mais um polvo com oito longas extensões de seu corpo do que um ser humano normal, com apenas dois braços e duas pernas. Não fosse suficiente, ele ainda comanda com mão de ferro o selo independente Pecúlio Discos, que segue firme há mais de 15 anos, mesmo com a derrocada na venda dos formatos físicos de música.

No RDP desde o começo dos 90, quando foi aceito a contragosto por conta do visual surfista, Boka é o baterista mais duradouro na banda. Depois de estrear com louvor no espetacular RDP ao Vivo, o santista já gravou ao menos outros dez registros com a lenda do hardcore brasileiro. No momento, ele e os comparsas João Gordo (voz), Jão (guitarra) e Juninho (que assumiu as quatro cordas do conjunto em 2004)estão em estúdio ajustando as composições que entrarão no novo disco do Ratos, ainda sem previsão de lançamento.

Em meio aos ensaios e aos compromissos pessoas de cada integrante, o Ratos continua espalhando o terror ao vivo. Após uma recente passagem por Sapiranga, cidade da região metropolitana de Porto Alegre que sedia anualmente o festival Morrostock, o quarteto já tem nova passagem agenda pelo Rio Grande do Sul. Será dia 11 de novembro, às 22h, no Opinião (José do Patrocínio, 834), durante a comemoração de 14 anos do projeto Segunda Maluca – que ocorre uma vez por mês na tradicional casa de shows da Capital gaúcha. A banda encarrega de abrir a noite é a santa-mariense Tijolo Seis Furos (TSF).

Antes de desembarcar por aqui outra vez, Boka conversou com a equipe da rádio Putz Grila sobre sua trajetória no RDP, a indústria da música e o gosto pela barulheira. O bate-papo, feito por e-mail, pode ser conferido abaixo.

 

O Ratos de Porão não chega a ser um sucesso unânime no gosto popular, mas é um grupo que tem história e reconhecimento. Eis que surge a dúvida: pode-se dizer que o RDP ainda é uma banda que vende discos, levando-se em conta a atual conjuntura da indústria musical?

 Boka – Com certeza vendemos menos discos, como qualquer um. Ninguém vende o mesmo que vendia há 20 anos, mas ainda temos muita gente interessada na banda. Acho que, guardadas as devidas proporções, ainda vendemos discos sim

Pelo fato de ter raízes no movimento punk e partilhar de ideias teoricamente anti-sistema, o RDP ficou incomodado, em algum momento, por conseguir atingir um público maior que seus congêneres ou por ter tido oportunidades diferenciadas (como gravar no exterior, fazer turnês gringas, ter assinado com gravadoras fortes no mercado…)?

 Boka – Acho que se pode ter um mínimo de coerência na vida num geral, e estar inserido no sistema capitalista de qualquer jeito. Todos têm que trabalhar. Muitas vezes posso fazer arte totalmente anti-tudo e ter um trabalho numa multinacional para pagar as contas, correto? O importante é que sempre fizemos a música que queríamos e não a que gostariam que fizéssemos. Nosso som é sempre sincero e honesto.  Nossa música retrata diferentes fases e gostos musicais dos integrantes: mais metal, às vezes, ou mais punk.

São mais de três décadas de estrada, cerca 30 discos – entre registros de estúdio, regravações, ao vivos e participações em coletânea – e uma coleção de clássicos do cancioneiro hardcore latino-americano. Mesmo com todo esse tempo em atividade, o RDP não amoleceu. Pelo contrário, continua gravando músicas pesadíssimas e mandando uma brasa forte no palco. O que faz com que o Ratos ainda tenha essa gana, seja nos álbuns que registra ou em suas apresentações?

Boka – Creio que é simplesmente porque a gente ama isso, é uma parte muita grande de nossa identidade como indivíduos. O RDP não é o que fazemos, e sim o que somos.  Nada pode mudar isso.

O último lançamento do Ratos foi o split com os espanhóis do Looking For Na Anwear (2010). No entanto, a banda anunciou que está trabalhando em um novo disco. A quantas anda esse material? As novas composições remetem àa alguma fase anterior da banda?

Boka – Houve uma certa dificuldade nos últimos anos para a banda reunir-se. Temos bastante material escrito já, só estamos resolvendo a melhor maneira de entrarmos num estúdio para registrar isso. Hoje é tudo mais complicados, não temos apoio financeiro de ninguém. Então, estamos resolvendo como será a gravação ainda.  (NR – quando a entrevista foi feita, a banda ainda não havia começado os ensaios para o novo trabalho).

Como funciona o processo de composição do RDP, já que todos os integrantes têm outros projetos dentro e fora da música? Reunir o povo todo é complicado?

 Boka – Em parte, já respondi na pergunta anterior. Mas, neste disco novo, as composições ficaram um pouco mais divididas, não escrevemos enquanto estávamos juntos, fizemos duplas.

Existe previsão de lançamento para o novo registro ser lançado? Ele já tem um título?

Boka – Já tem título, mas não vou divulgar ainda. Torço para que saia antes do final do ano.

Internamente, vocês chegam a conversar sobre a hora de parar ou isso ainda está fora de cogitação? Caso sim, quais seriam os planos? A banda segue cada dia mais suja e agressiva ou está perto do bico do corvo?

Boka – A gente não conversa sobre isso, mas temos consciência de que um dia não vamos mais estar juntos como banda. Isso vai doer, obviamente, mas a vida segue!

Em comparação com os anos anteriores, parece que vocês estão tocando mais em 2013. Procede essa constatação ou é apenas impressão? Qual a média de shows que a banda faz por ano?

Boka –  Acho que tocamos menos nos últimos três anos por culpa do trabalho do Gordo. Agora, estamos com mais tempo pra isso, já que ele não esta gravando na TV.

O RDP recém passou pelo Rio Grande do Sulm durante o Morrostock, no começo de outubro, e já tem retorno marcado para o dia 11 de novembro, no Opinião. As apresentações devem ser diferentes?

Boka – Vamos tentar fazer shows distintos.

A crise da indústria musical afetou o RDP? Ou, por fazer parte de um circuito mais alternativo, a bancarrota do show businesse não os atingiu tanto?

 Boka – Acho que vivemos à margem da indústria, então, como disse, pode ser que vendamos menos e que não tenhamos hoje uma gravadora adiantando grana para podermos gravar.  Porém, seguimos com o que temos e não ficamos choramingando por ae.

Tu és o dono da Peculio Discos, um selo/distrô que segue firme há um bom tempo. Ainda é um bom negócio vender discos no Brasil? O revival do vinil ajudou a manter o fluxo de vendas? E o CD ainda tem espaço na prateleira dos aficionados por música?

Boka – Sim, continuo vendendo ambos, mas os LPs hoje têm um público maior do que tinham antes simplesmente porque o pessoal da nova geração esta apreciando também. Há muitos bons relançamentos, isso também ajuda. Mas não existe espaço para as bandas novas, muito pouco, basicamente vendo discos clássicos ou bandas clássicas.

Pra fechar: na tua opinião, qual feito/acontecimento sintetiza a história da banda? Se tivesse de escolher um acontecimento com o RDP para ficar marcado na memória, qual seria?

Boka – Cara, acho que as gravações, porque a gente vê a materialização de uma ideia, um registro que sempre deixa um legado. Particularmente, lembro de cada uma e é um processo que me fascina. Acho q é isso.

http://youtu.be/BzaOuWqDoKA

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