Punk rockers do Inocentes compensam espera de três décadas em Porto Alegre



Sem ingenuidade, o Inocentes fez sua estreia em Porto Alegre no último 14 de abril, quebrando a rotina modorrenta das segundas-feiras. O quarteto, com mais de 30 anos nas costelas – nada franzinas da lida calejada, desde os primórdios do movimento punk até a passagem por grandes gravadoras –, calou a boca dos que esperavam uma apresentação pragmática, sem energia e saudosista.

O show, que rolou no Opinião, dentro do tradicional Projeto Segunda Maluca, foi sim baseado em canções importantes de outrora. Contudo, passou longe de ser uma simples volta ao passado que sustenta a banda como um dos nomes seminais do estilo no Brasil. Foi um debut que fez valer a espera, com direito a performance vigorosa, clássicos e um pequeno desfile de belos covers.

Anselmo Monstro (baixo), Clemente Nascimento (voz e guitarra), Nonô (bateria) e Ronaldo Passos (guitarra) já não cozinham na primeira fervura. São tiozinhos joviais cheios de disposição que trabalham para manter relevante o conjunto musical do qual fazem parte. Sim, trabalham, porque eles não seriam inocentes – com o perdão do trocaralho do cadilho – de achar que estão longe de casa no começo da semana apenas para animar uma festa com roqueiros desequilibrados. Só que, além de mostrar serviço de um jeito competente, os caras ainda se divertem. Aí, a atuação fica leve, descontraída. Ainda assim, não deixa de ser acelerada, enérgica e empolgante.

Quem abriu a noite foi a Pupilas Dilatadas, prata da casa que também tem história para contar. Surgida em 1984, o trio porto-alegrense hoje formado por Felipe Messa (voz e guitarra), Rogério Bittencourt (bateria) e Leonardo Duprates (baixo) fez um set rápido, mas suficiente para mostrar sua importância no cenário local. Temas de registros já lançados (como as faixas ‘Porões & Garagens’ e ‘Obsessão’) dividiram espaço com novas composições que devem estar em um disco a ser lançado em breve (entre elas, ‘Noite HC’).

O Inocentes veio na sequência e deixou claro que o entrosamento do grupo, há cerca de 20 anos com formação estabilizada, é uma de suas virtudes. Enquanto Clemente cantava com versatilidade para oscilar entre momentos raivosos e outros com vocal mais limpo, a banda o acompanhava com maestria. Na cozinha, um time de chefs altamente capacitados fez o cardápio ser refinado: Anselmo mandando brasa nas quatro cordas e Nonô castigando a bateria com pauladas fortes e precisas – mesmo quando ficava em pé, numa postura meio rockabilly. Com a outra guitarra, Ronaldo demonstrava manjar das palhetadas indo bem além dos três acordes, sem exageros. Para complementar a atuação, uma dose de teatralidade, dancinhas sincronizadas, instrumentos para o alto e escapulidas do baterista de seu posto (marcando o tempo das músicas só com as baquetas ou batucando no brinquedo dos amiguinhos).

O repertório foi, basicamente, de hinos: ‘Rotina’, ‘A Cidade Não Para’, ‘Garotos do Subúrbio’, ‘Medo de Morrer’, ‘Intolerância’, ‘Expresso Oriente’, ‘Miséria e Fome’, ‘Não Acordem a Cidade’, ‘Cala a Boca’, ‘Pátria Amada’ e ‘Pânico em SP’. Isso sem falar nas incendiárias releituras de ‘Desequilíbrio’ (Hino Mortal) e ‘Franzino Costela (Sex Noise). No bis, mais covers. Dessa vez, uma bateria de perólas: ‘Should I Stay or Should I Go (The Clash), ‘I Fought the Law (Sonny Curtis, popularizada pelo Clash), ‘Blitzkrieg Bop (Ramones) e Ace of Spades (Motörhead).

Mesmo que boa parte dos punk rockers locais estivessem em seus aposentos – já que na casa de shows o público para assistir aos paulistas ficou aquém do esperado –, os que compareceram ao evento mostraram que a cidade não para quando atrações desse quilate passam por estes pagos.

Related posts

Leave a Comment

dezesseis + 14 =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.