O Rock na Minha Vida #11 com Maurício Cossio

O Rock na Minha Vida #11 com Maurício Cossio

“O Rock na minha vida” surge para fazer um resgate da memória, de momentos que marcaram a vida de um amante do rock. Quem não se lembra do primeiro disco de rock que ouviu, do primeiro álbum que escutou inteiro, da primeira discografia, do primeiro “air guitar”, do disco que mudou sua percepção sobre o rock…? São algumas lembranças imortalizadas pelo estilo que amamos, o ROCK!

Quem sou eu?
Lembranças são coisas estranhas. Nunca sabemos se são verdadeiras ou invenções que gostaríamos de acreditar. Vou contar uma dessas coisas que acredito serem algo que fez parte da minha vida. A essa altura do campeonato nem importa se aconteceu ou não; o importante é a história. O desafio da Putzgrila é divertido e estranho… no fim das contas tenho que descobrir o exato momento em que decidi dedicar minha vida ao Rock’n’Roll. Se não fosse essa brincadeira talvez nunca teria pensado sobre isso.
Provavelmente uma das primeiras lembranças que tenho é meu pai me ensinando como botar um vinil pra rodar no velho Gradiente. Ele puxou da estante aquele disco vermelho. Me mostrou os quatro caras da capa e disse:
“Agora tu vai ver o que é música”.
Pegou o bolachão, encaixou no prato (aparelho que temos até hoje), e o ruído da agulha anunciou o que estava por vir. Quando ouvi os primeiros acordes de “Love me do”… nossa, pela primeira vez algo fazia sentido na minha vida. Ficamos os dois, em silêncio, ouvindo aquelas sequências de acordes que nos fazem sair da realidade. Como é que pode. É tão simples e ao mesmo tempo tão impossível… Eu nem sabia nada disso, só ouvia. Ouvimos o primeiro lado todo assim.
Eu, com minhas mãos de criança virei e coloquei o lado B. Peguei a capa e abri. Aquela foto enigmática dizia muito e nada ao mesmo tempo. Quem são essas pessoas? Por que elas estão ali? Quem são os Beatles? Minha mente viajava a mil por hora até que…
“I feel fine”.
Guitarra.
Putz, é isso. Guitarra. Como é que pode. Uma coisa tão básica que me faz tremer, sair do meu corpo, viajar no tempo, querer ser um deles….
Acaba o disco. Quase um desespero. O velho quase rindo me olha com uma cara de “fica tranquilo, tem mais”. Puxa o outro disco e “Help”. Putzgrila, não acaba nunca? Não, claro que não. Isso te acompanha pra sempre. Sem querer o cara descobre que é isso: “vou dedicar minha vida ao Rock’n’Roll”. Foda-se. Se tudo der errado, como sempre dá, ele está lá. O disco vermelho dos Beatles te faz lembrar quem tu é. “Tu é Beatles, guri”.
Depois de ouvir um milhão de vezes esse disco, olhando aquela foto misteriosa que tem no meio, decidi: vou comprar um disco. Em Caxias, a rádio que todo mundo ouvia era a Studio 93. Descobri um negócio chamado fita k7 e um botão que dizia “rec”. Tudo o que eu queria era fita virgem.
Nessa época mamãe dava dinheiro pra comprar o lanche na escola. Cruzeiros, cruzados, qualquer coisa do gênero. Passei seis meses sem comer no recreio. Quando achei que tinha dinheiro o suficiente me enchi de coragem e falei pra mamãe: “vou comprar um disco”. Hoje tento imaginar a reação daquela jovem senhorita, ouvindo aquela criança de 9 anos de idade, já com toda certeza que me acompanha até hoje.
“Beleza, vai lá”.
Nem deve ter sido isso que ela falou. Caxias naquela época permitia que mães quase irresponsáveis deixassem seus filhos de 9 anos saírem sozinho pelas ruas do centro. Meu foco era a estante de discos da Hermes Macedo. Ficava quase na calçada, se oferecendo. Cheguei lá e comecei a passar os discos. Na ponta dos pés, mal e mal conseguia ver as capas. Na real nem sabia o que estava fazendo. Só queria ser um cara que compra discos. Passei, passei, até que consegui ler alguma coisa: “ENGENHEIROS”.
Lembram da rádio Studio 93? Tocava Engenheiros direto. Vou levar esse.
A mina da loja tava me olhando e quando parei ela perguntou: “posso te ajudar?”.
“É esse que eu quero”.
Custava, sei lá, 10 mil cruzeiros. Eu tinha 9. Mostrei pra ela o dinheiro todo amarrotado. Hoje tento imaginar a cena: uma criancinha querendo comprar o “Alívio Imediato”, com a grana do lanche. Acho que ela entendeu tudo.
“Me dá o dinheiro aqui. Quer que eu coloque na sacola?”.
CLARO QUE NÃO!!!
Eu queria que todo mundo visse que eu tinha comprado um disco. Dos Engenheiros! Ouvi até gastar. Quer dizer, ainda ouço, e acho que nunca vai gastar. Minha banda é RAMONES, mas Engenheiros é minha história. Meu segundo disco foi o “Brain Drain”. E assim fui alternando: um dos Engenheiros, um dos Ramones. Só quando não tinha mais o que comprar deles fui pra outros. AC/DC, The Doors, Iron Maiden (todo mundo curtia Iron, as camisetas eram como se fossem as do Ramones hoje em dia, tipo marca “comprei uma camiseta da Iron Maiden”…)
Enfim, fui me criando assim. Mas uma coisa é certa: EU SOU BEATLES. Até porque se eu disser que sou Rolling Stones é capaz do meu pai voltar só pra me dar um tapa na cara e me olhar brabo: “TU É BEATLES, GURI”.

Rádio Putzgrila

A Putzgrila é um veículo de rock consolidado na internet, com mais de 13 anos de programação ao vivo, transmissões de festivais, notícias, lançamentos e cobertura de shows nacionais e internacionais.

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