O rato da guitarra: entrevista com Jão,do Ratos de Porão

Jão, guitarrista do Ratos de Porão, durante o show no Opinião, em Porto Alegre

João Gordo é o homem de frente do Ratos de Porão. Tanto pelo carisma quanto pela exposição que tem na mídia, o vocalista tornou-se uma espécie de símbolo do grupo. Mas o RDPeido – como a própria banda denomina-se – não pode ser resumido apenas a um de seus integrantes. O grupo tem outros personagens tão – ou mais – importantes para sua trajetória de mais de 30 anos. Um deles é o guitarrista João Carlos Molina Esteves, 45 anos, o Jão, único integrante da formação original. Durante a passagem do quarteto hardcore por Porto Alegre, na segunda-feira, 17 de setembro, o Programa Let’s Start… conversou com Jão antes do show. Simpático e divertido, o cara falou sobre seu jeito de tocar, outros projetos e, com alguns pitacos de João Gordo, sobre a influência da famosa maconha da lata na composição do clássico Brasil (1988)

Texto: Homero Pivotto Jr.

Foto: Giovani Paim

Apesar de tocar guitarra bem pra caramba, acredito que tu não possas ser considerado – nem queira ser – um guitarrista virtuoso. Porém, parece ter desenvolvido uma maneira peculiar de tocar, uma identidade própria. É como uma marca registrada. Foi um processo de aprimoramento teu, de tanto praticar, ou algo que acabou aparecendo naturalmente?

Jão – Cara, o fato de eu ser autodidata, foi um lance que contribuiu para eu criar um estilo próprio. Eu comecei a tocar antes de apreender, então é um processo meio diferente. Pô, lógico que, com o tempo, também estudei um pouco de música. De forma fragmentada, mas estudei. O lance do estilo acho que é influência dos guitarristas e bandas que eu gosto, misturado com um ponto de vista próprio sobre o instrumento. É uma série de fatores que contribuiu para eu ter um estilo peculiar. Uma é que eu não saí formado de uma escola de música tal, né?

Quem foram os caras que te influenciaram a tocar guitarra? Não bandas, mas guitarristas.

Jão – Guitarrista que eu gosto, que me deu vontade de aprender a tocar guitarra, é, tipo, uns Angus Young. O rock 70’s é algo que, realmente, a guitarra se sobrepõe, é um estilo que eu sempre curti. Lógico que o Ratos veio de outra história, veio do punk, do hardcore, do crossover. Então, é outra praia. Mas acho que o Angus Young foi o cara que eu vi alguma vez quando era moleque e tive vontade de tocar guitarra.

E no meio do punk/hardcore, quem são os guitarristas que se diferenciam?

Jão – No punk tem muita gente legal, como o Dr. Know, do Bad Brains. O Olga, do Toy Dolls, apesar de não ser uma influência no que eu toco, é um puta guitarrista. Tem bastante gente aí, meu, no hardcore, no crossover, que fazem uma parada legal. Tem o thrash metal também, de onde veio muito da minha influência, principalmente da fase anos 80. Apesar de ter sempre a veia hardcore/punk, o que me ajudou a definir meu estilo foi essa influência metal.

Tu tens divulgado via redes sócias teu trabalho como professor de guitarra. Isso é algo que tu faz há tempos?

Jão – Eu dou aula faz uns 10 anos. Mas eu trampava, basicamente, em ONGs. Tem uma dessas organizações chamada Meninos do Morumbi, em São Paulo, onde eu trabalhei muitos anos. Aí, resolvi alastrar isso, para ter uns alunos particulares. Fiz um lance (parceria) com uma escola de música de São Paulo para ter um lugar fixo onde dar aulas.

Essa prática de dar aula é algo mais voltado a quem quer tocar sons mais pesados? O que tu ensina aos alunos?

Jão – Tem o princípio da guitarra, que é o mesmo para você tocar qualquer coisa, desde hardcore até sertanejo. Se o cara sabe esse básico, eu direciono para o rock pesado em geral. Acho que essa é mais minha praia. Se ele já sabe muito eu mando para alguma escola estudar outra coisa. (risos).

Além de professor, músico (integrantes do RDP e do Periferia S/A), tu tens outra atividade?

Jão – Hoje, basicamente, eu vivo da música. Claro que, nesses 30 anos de RDP, tive uns trampos normais, dependendo da época, da banda… Aparece filho, casamento, você precisa correr atrás de alguma forma. Mas, hoje,tudo que eu faço é relacionado com música: dou aula, discoteco à noite pra ganhar uns trocos, toco com o Ratos… Vou empurrando com a barriga, como bom brasileiro.

Vocês estão com 30 anos de banda…

Jão – Completamos 31 em novembro!

Lembra do primeiro ensaio? Do primeiro momento com o RDP constituído?

Jão – Puta, eu lembro sim, das três primeiras músicas que a gente fez (‘Porquê’, ‘Corrupção’ e ‘Eucaristia’). Aí, o lance virou banda mesmo. O Betinho, que foi o cara que montou comigo o Ratos, já tinha uma batera, e meu pai me deu uma guitarra de presente. Pô, quando a gente montou num quartinho a guitarra e a batera, eu mostrei pro Beto uns sons, começou a virar banda de verdade, com músicas pra tocar. Antes a banda até já existia, mas não tinha instrumento, nem sons próprios. Então, quando concretizou isso aí, foi foda! Tinha até nome (risos)!

Perguntinha clichê: naquele momento, tu pensavas que três décadas pra frente estaria tocando ainda? Que a banda pautaria praticamente toda a tua vida?

Jão – Não, nem fodendo! Nosso objetivo máximo quando montamos a banda era tocar naqueles encontros punks que rolavam em São Paulo.

Durante todos esses anos, muitas coisas mudaram na cena punk, e no próprio cenário musical em geral. O que tu achas que melhorou e o que piorou?

Jão – Hoje, a facilidade é maior, pra você tocar, pra ter um instrumento… pra conhecer som vai no Youtube e acha. Mas, também, acho que a concorrência é maior, os estilos são mais diversificados – e até a falta de estilo! Desde a chegada do CD, o mercado fonográfico deu uma mexida. A indústria deu um tiro no pé. Teve ainda o lance das vendas, o próprio formato. O CD foi algo que não supriu a necessidade. Acho que , atualmente, é foda você ter uma banda independente, fazer mil cópias de um CD e conseguir vender. Ainda mais se o moleque tá lançando o primeiro trabalho da banda dele. Mas tem as possibilidades que a tecnologia trouxe também, como comprar um instrumento razoável. Isso é positivo. A parte negativa é a parte do mercado fonográfico. O CD é um troço falido e ainda não apareceu outra mídia pra substituí-lo. Então, a gente continua no bom e velho vinil, que é mais artístico, que destaca a arte da capa.

E o Periferia S/A (banda que conta com a formação original do RDP: Jão (guitarra/vocal), Jabá (baixo) e Betinho (bateria)?

Jão – A gente andava parado há quase três anos. Aí, voltamos sem o Betinho, porque ele resolveu se aposentar. O cara não curte sair por aí tocar. A gente tá com uns lances gravados que devem sair em breve. Em princípio, faremos um compacto 7 polegadas em vinil com meia dúzia de músicas novas. A versão em CD vai ter essas músicas e mais um show ai vivo em São Paulo.

E o álbum novo do Ratos de Porão?

Jão – Estamos no processo, já tem bastante músicas compostas. A ideia é gravar no começo do ano que vem.  A gente pensava em gravar até o fim deste ano, que é apocalíptico, mas ainda não estamos prontos pra entrar no estúdio. Então, vamos ensaiar mais, fazer mais uns sons pra completar o repertório

E o documentário Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão, a banda curtiu?

Jão – É um apanhado bacana dos 30 anos. Achei legal o resultado final, tem uma cara do produtor (Fernando Rick, da Black Vomit Filmes). Ele usou um direcionamento meio tragicômico que ficou interessante.

Se tu não fosses roqueiro, acredita que estaria fazendo o que da vida?

Jão – É difícil dizer. Provavelmente, estaria pintando carro que nem meu pai, bebendo uma pinga na esquina, torcendo pro Corinthians, batendo na ‘muié’…

Qual é o teu disco preferido do RDP?

Jão – Eu gosto bastante do Brasil. Foi um desafio par gente na época, gravar ele fora do país com produtor gringo (Harris Johns) que fazia umas paradas legais e trabalhou com o Voivod.

João Gordo entra na conversa – Isso foi na época ‘da lata’, que a gente pirou.

Jão – É! Foi em 1988, mais ou menos, que começou a aparecer esse fumo aí (da lata).

João Gordo – A gente pirou, cara, era cannabis índica!

Jão – A gente ficava fumando e fazendo som! Por isso que o Brasil é um disco com 18 músicas, temático…

João Gordo – Foi uma época de muita (pausa), como se diz… criatividade e maconha boa.

Agora, um ping-pong estilo Maria Gabriela! Responde aí, Jão!

Melhor disco de todos os tempos: puta, não dá pra falar um disco só!

Melhor disco de hardcore da história: ah meu, não é possível falar um só… sei lá, o Hear Nothing, See Nothing, Say Nothing, do Discharge, é legal.

Melhor show que assistiu: o AC/DC no estádio do Pacamebu (1996).

Uma música inspiradora: música não sei, mas acho que banda pode ser o Bad Brains.

Melhor show que já fez:  teve vários.

Uma boa banda atual: não sou um cara bom pra banda nova. As que eu gosto começaram há um monte de anos.

Uma banda que acha uma merda: tem um monte! Acho que do emo tem várias com louvor.

Artista que admirava e se decepcionou: um cara que eu gostava e perdeu o brilho foi o Chico Anysio quando casou com a Zélia Cardoso de Mello.

Artista que gostava e passou a gostar ainda mais: eu sempre fui fã do Ramones. desde o dia que conheci até hoje. Então, ver de perto o Joey Ramone quando tocamos com eles foi foda!

Ser punk hoje em dia é…: difícil nesse mundo capitalista desgraçado! (risos)

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2 Thoughts to “O rato da guitarra: entrevista com Jão,do Ratos de Porão”

  1. […] – O Rato da Guitarra: entrevista com Jão, do Ratos de Porão – Entrevista de Homero Pivotto […]

  2. fernando

    Jão é um dinossauro. O cara criou um estilo própio de tocar.
    Foda

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