Morre Ginger Baker, aos 80 anos.

Foto reprodução da capa do álbum Why?, de 2014.

Texto: Rafael Cony

Existe uma piada no meio musical que diz que “baterista não é músico, e sim o melhor amigo do músico”. Claro, é uma piada. Gozação, tiração de onda entre músicos. E bateristas também.

Brincadeiras à parte, na madrugada deste domingo, 6 de outubro “voltou ao seu planeta de origem” — como costumo dizer quando apresento no Vitrola Virtual homenagens aos nossos mestres e professores musicais que já não estão entre nós — o músico, compositor, produtor “e até” baterista Ginger Baker.

Peter Edward Baker, que ganhou o apelido de “Ginger” ainda na infância graças ao seu cabelo ruivo, viu nas baquetas e tambores uma fuga para sua inquietude juvenil aos 15 anos, em 1954. O rock’n’roll e o blues ainda não tinham feito suas primeiras travessias oceânicas — invadindo a Inglaterra com o som de bluesmen como Bo Diddley, Muddy Waters, Howlin’ Wolf e rockers como Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis e Elvis Presley no par de anos seguintes — e o que fazia a cabeça do adolescente Ginger era o jazz. Autodidata, Ginger Baker teve também algumas lições com o renomado baterista britânico de jazz Phillip Seamen, o que rendeu um estilo bastante peculiar de tocar, tornando-o um dos mais icônicos bateristas daquela turma dos anos 60, com performances e um estilo selvagem ao lado De Keith Moon (The Who), John Bonhan (Led Zeppelin) e Mitch Mitchell (The Jimi Hendrix Experience), os mais inventivos e influentes bateristas da turma que ficou reconhecida como a rapaziada da “primeira invasão britânica”, quando a Inglaterra apresentou ao mundo um rock que bebia na fonte dos pioneiros americanos com um sotaque europeu. Quanta barulheira esses caras devem estar fazendo juntos hoje!

Ginger Baker e Keith Moon foram os pioneiros em usar uma bateria de dois bumbos pra tocar rock’n’roll. Tiveram a ideia praticamente juntos após assistirem um show de Duke Ellington em 1966, no qual o baterista Sam Woodyard tocava com bumbo duplo.

Com passagens pelo The Graham Bond Organization — grupo de jazz e rhythm’n’blues no qual conheceu o baixista Jack Bruce — e Blues Incorporated — banda capitaneada pelo Alexis Corner por onde passou “a nata” do blues britânico no início dos anos 60 —, foi ao lado de Eric Clapton e Jack Bruce, com o Cream e sua fusão de blues, rock psicodélico e hard rock que seu legado começou a ser reconhecido, influenciando bateristas tanto contemporâneos quanto músicos de gerações posteriores e de estilos distintos: de Neil Peart (Rush) a Peter Criss (Kiss), Dave Lombardo (Slayer) a Nick Mason (Pink Floyd), de Tommy Aldridge (Thin Lizzy, Ozzy Osborn, etc) a Terry Bozzio (Frank Zappa).

O Cream é considerado o primeiro “Super Grupo” da história. O Creme, A Nata, o “crème de la crème” do rock britânico com quatro álbuns lançados entre 1966 e 68, quando a banda acabou um tanto muito pelas desavenças entre Bruce e Baker, que mesmo com suas rusgas tocaram juntos em outros projetos no decorrer dos anos e se reuniram novamente em 2005, quando o power trio gravou as apresentações da reunião em quatro consertos no Royall Albert Hall.

Em 1969 lançou um álbum homônimo com o Blind Faith, outro super grupo novamente com Eric Clapton, Ric Greech e Stevie Winwood. Em 1970 foram dois álbuns com a psicodelia progressiva do Ginger Baker Airforce e, ainda no começo da década, percebendo o potencial da música africana, uma mudança para a Nigéria com o objetivo de construir um estúdio para registrar a produção local, além de receber músicos como Paul McCartney e seus Wings, dentre outros. Existe um registro audiovisual desse momento na trajetória de Ginger Baker, dirigido pelo documentarista Tony Palmer e intitulado “Ginger Baker in Africa” que mostra a saga em atravessar por terra o Deserto do Saara até se estabelecer na Nigéria com seu estúdio. Trabalhou também com o multi instrumentista nigeriano Fela Kuti, um dos pioneiros do Afrobeat, e formou ainda outro grupo: o Baker Gurvitz Army. Sua trajetória, carreira e obra trazem ainda colaborações com Hawkwind nos anos 80 (banda surgida no final da década de 60, revelando o futuro baixista e vocalista do Motorhead, Lemmy Killmister), Stratavarious, Public Image Ltd (ao lado do então ex-vocalista dos Sex Pistols, John Lydon), Andy Summers (The Police) e Master of Reality, dentre outros inúmeros projetos e álbuns solo mostrando suas facetas e estilos.

Na noite do sábado dia 5, cheguei cedo depois de um show da Só Creedence — banda tributo ao Creedence Clearwater Revival na qual toco, no final da tarde no “Caí no Asfalto”, encontro de motos na cidade de São Sebastião do Caí — e coloquei o Fresh Cream pra escutar. Disco de estréia do Cream, de 1966. Li um pouco, bebi um café com leite e canela e fiquei curtindo o disco. Ouvi duas vezes. Dormi, acordei ainda de madrugada, perto das 5 da matina pra ouvir uma entrevista que gravamos pro Bom Domingo, programa do brother de rock e rádio Fernando Zanuzo na Rádio Gaúcha, e — Putz! — li a notícia sobre Ginger Baker.

No grupo do WhatsApp da Rádio Putzgrila (me recuso a escrever daquele jeito com dois Z’s, afinal “ZZ” pra mim é aquele outro power trio, dos texanos barbudos chamado ZZ Top) a rapaziada sugeriu que eu escrevesse um resenha sobre o Ginger Baker.

Mas escrever o que? Tá tudo on line, é só pesquisar.

Vejo o rádio, e suas ramificações como site e redes sociais nas quais podemos publicar alguns textos, com um papel de informar, difundir, apresentar e perpetuar a cultura musical. No caso da Putz, a cultura do rock’n’roll, suas vertentes e influências, então pensei em traçar esse breve panorama de sua trajetória, pontuando também algumas canções que valem ser ouvidas pra sacar um pouco mais sobre a obra e a música do baterista Ginger Baker, lembrando que a historinha do baterista ser o melhor amigo do músico é só uma piada, daquelas que contamos nos velórios dos amigos.

Ao mestre Ginger Baker, nossa gratidão pelos ensinamentos musicais.

Pra sacar um pouco mais sobre o Ginger Baker, alguns “veneninhos sonoros”:

01 – Doxy (The Graham Bond Organization)
Um tema de jazz instrumental composto por Sonny Rollins e gravado pelo GBO em 1963.
02 – Wade in the Water (The Graham Bond Organization)
Outro tema instrumental com forte influência de jazz. 1965
03 – Hoochie Coochie man (The Graham Bond Organization)
O lado mais blueseiro dos TGBO numa versão de 1965 pra um clássico do blues composto por Willie Dixon
04 – Up Town (Alexis Korner’s Blues Incorporated)

Quanto ao Cream, algumas canções em ordem cronológica que devem ser ouvidas. Quase uma coletânea do power trio de Ginger Baker, Eric Clapton e Jack Bruce. Discoteca básica pros apreciadores de rock’n’roll.
05 – I Feel Free
06 – Sleepy Time Time
07 – Sweet Wine
08 – Spoonful
09 – I’m so glad
10 – Strange Brew
11 – Sunshine Of Your Love
12 – Tales Of Brave Ulysses
13 – Swlabr
14 – White Room
15 – Politician
16 – Badge
17 – Toad (a versão ao vivo do disco 2 do Wheels Of Fire com um solo de bateria matador)

Do disco do Blind Faith, de 1969:
18 – Had To Cry Today
19 – Can’t Find My Way Home
20 – Presense of the Lord
21 – Sea Of Joy

Com o Fela Kuty:
22 – Black Man’s cry
23 – Ye Ye De Smell

Ginger Baker Air Force:
24 – What a day
25 – Let me ride
26 – We Free Kings

Public Image Ltd
27 – Rise

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