A Linguagem do Blues: Bottleneck

Buenas! É chegada a hora de viajarmos para o sul dos Estados Unidos novamente e viver mais um capítulo de The Language of The Blues, essa série de verbetes que nos ensina sobre as gírias usadas no mundo dos bluesmen . O verbete de hoje nos explica do que trata o termo bottleneck, popularizado por guitarristas como Kokomo Arnold, Big Joe Williams, Elmore James e Duane Allman, por exemplo.

Apesar de os primeiros slides a serem usados fossem facas e ossos polidos, à época da Depressão os guitarristas de blues estavam quebrando o gargalo das garrafas e polindo as pontas em fogueiras para criar os slides conhecidos como “bottleneck” (garfalo da garrafa).

O primeiro blues a ser documentado em papel, apesar disso, foi tocado por um guitarrista usando uma faca, como descrito por William Christopher (W.C.) Handy. Handy havia adormecido enquanto esperava por um trem em Tutwiler, Mississippi em 1895, até que fora acordado por uma melodia fantasmagórica. “Um negro magro e desleixado tinha começado a tirar um som estridente da guitarra ao meu lado enquanto eu dormia,” escreveu Handy. “Suas roupas estavam em farrapos; seus pés saíam de seus sapatos. Sua face tinha estampada parte de uma tristeza de longas eras. Conforme tocava, ele pressionava a faca nas cordas da guitarra no modo popularizado pelos guitarristas havaianos que usavam barras de aço. A sua canção, também, me pegou instantaneamente. ‘Goin’ where the Southern cross the dog.’ (algo como ‘Indo onde o Sulista cruza o cachorro’) O cantor repetia a linha três vezes, acompanhando a si mesmo na guitarra com a música mais estranha que eu já ouvi.”

W.C. Handy

Naquela época, quando era um menestrel viajante, Handy ficou tão inspirado pelo som que dedicou o resto de sua vida à expor o blues para o mundo inteiro. Além de compor “St. Louis Blues” e outras canções relacionados ao blues, Handy também trabalhou incessantemente para transcrever autênticas canções de blues, que ele publicou em Blues: An Anthology (1926).

Já que os escravos africanos trouxeram a técnica de slide com eles para as colônias americanas, é provável que ela tenha se originado na África. Mas também guitarristas modernos do norte da Índia, como Debashis Battacharya, também usam o slide. Assim como os guitarristas havianos que W.C. Handy mencionou.

A sofisticação do estilo de slide de Battacharya ficou evidente em sua apresentação no Museu Americano de História Natural em Manhattan, em 1995. Com a sua guitarra de corpo largo deitada no seu colo, usando seu tornozelo de seu pé descalço como apoio, Battacharya fez alguns floreios rápidos usando um slide de metal sólido na sua mão esquerda, puxando melodias microtonais ancoradas num firme ritmo de baixo que ele tocava usando uma palheta no seu dedão direito. Battacharya deu um bis com uma simples canção popular do norte da Índia que era tão inegavelmente abluesada que teria muito bem soado como um blues instrumental americano caso o outro artista da noite, John Hammond, a tivesse tocado em seu dobro.

A guitarra moderna é descendente do oud, um alaúde árabe introduzido na Europa durante o longo período das invasões muçulmanas na Espanha. Tanto o estilo de canto que faz uso dos quartos de tom indiano e árabe quanto o sofisticado estilo de slide encontrado no norte da Índia indicam que existe uma forte conexão entre o mundo islâmico e o blues.

A técnica que Handy testemunhou – pressionar uma faca nas cordas – pode ser rastreado até as partes central e ocidental da África, onde as pessoas tocam cítaras de uma corda desta maneira. Handy assumiu que a técnica fosse emprestada do estilo havaiano, mas é possível que o guitarrista itinerante que Handy ouviu estivesse manifestando suas raízes africanas. Em uma entrevista para The Language of the Blues: From Alcorub to Zuzu, o guitarista da banda de Howlin’ Wolf, Hubert Sumlin, que nasceu próximo a Greenwood, Mississippi, em 1931, concordou com a hipótese, dizendo “A forma como a guitarra era tocada com o slide vinha das pessoas africanas.”

Hubert Sumlin

Os guitarristas da época da Depressão usando os gargalos das garrafas (bottleneck) no dedo anelar ou no mindinho da mão esquerda (ou na direita, caso o cidadão fosse canhoto). Os guitarristas de slide também usavam pequenos frascos de remédio ou de pó de tabaco, que não precisavam ser cortados nem polidos no fogo. Os músicos de country rural usavam uma variedade de slides, indo desde facas ao osso de vaca polido, preferido por Joe Holmes, ou King Solomon Hill, nas suas gravações pela Paramount em 1932, e entre isso, encontramos também pedaços de canos de cobre e garrafas.

Guitarras de slide que tocavam rock, como Duane Allman e Ron Wood, citaram músicos de blues como Elmore James e Bukka White como suas influências primárias. Nos anos 60, os guitarristas de slide tanto de rock quanto de blues usavam frequentemente frascos de remédio para tocar.
Slides diferentes produzem tons diferentes. Duane Allman usava frascos de medicamente para tosse (Coricidin), já Bonnie Raitt e Ry Cooder preferem a sustentação suave provida pelo gargalo de uma garrafa. Keith Richard prefere o tom agressivo de um slide metálico. Embalagens de batom também funcionam, assim como navalhas retas, facas de bolso, rolos de papel higiênico, canetas, isqueiros, pequenas latas de suco, garrafas de cerveja… qualquer coisa como uma superfície suave e lisa que possa ser segurada na mão que produz os acordes. O jeito mais comum de tocar slide é usá-lo ao redor do dedo anelar ou do mindinho. Uma faca ou uma caneta, diferentemente, é tipicamente segurada entre o anelar e o mindinho.

Duane Allman, também conhecido como “Skydog”

Não importa o que o guitarrista resolver deslizar nas cordas de sua guitarra, a principal ideia por trás de qualquer slide é bem simples: ao invés de puxar as cordas para produzir um som, o guitarrista as toca com um slide. O ouvido se torna muito mais importante do que os olhos na hora de tocar com slide, já que a entonação depende de tocar a corda exatamente no lugar certo. O guitarrista deve tocar mais como um violinista, profundamente consciente do tom.

Para fazer um slide com o gargalo de uma garrafa, comece medindo o comprimento do dedo em que usará o slide. A maioria dos músicos o usa no mindinho para poder ter os outros três dedos livres para formarem acordes, mas alguns preferem o maior controle obtido ao usar o slide no dedo anelar.

Depois, escolha uma garrafa que seja bem lisa e reta no topo para evitar acabar com um slide torto que não fique plano nas cordas. Pegue um cortador de vidro e desenhe uma linha ao redor do gargalo da garrafa, de maneira que a distância entre o topo e o risco seja igual ao tamanho do seu dedo.

Deixe reservada uma tigela com água gelada. Aqueça a garrafa em água fervente e depois a mergulhe na água gelada. Tire-a de lá depois de mais ou menos quinze segundos e então você conseguirá quebrar o gargalo. Lixe as pontas com uma lixa para que fiquem lisas. E, por favor, antes de se meter nessa encrenca toda, certifique-se de que o seu dedo caiba na garrafa.

Os afamados bottlenecks.

Você pode encontrar o livro The Language of the Blues: From Alcorub to Zuzu à venda no site Bluescentric. E também pode encontrar este artigo no seu idioma original no site American Blues Scene.

 

Traduzido por Ismael Calvi Silveira.

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