Jello Biafra me ajudou a entender melhor os fanáticos por futebol

Homero Pivotto Jr.

Eu nunca fui muito afeito a futebol. Gosto, claro, mas não sou do tipo que sabe quem são os atletas da equipe, o ano em que o clube ganhou tal título ou o nome dos jogadores que fizeram história no time. Por não ter essa afinidade com o esporte jogado entre as quatro linhas, sempre tive dificuldade de entender por que ele é tão fascinante para alguns. Qual a graça de ver um bando de marmanjo correndo atrás de um pedaço de couro redondo? O que tem de tão atrativo em assistir isso ao vivo, dentro de um estádio cheio de gente estranha, comportando-se como selvagens para incentivar o grupo?

Mas aí, a ficha caiu. Num daqueles rompantes em que o cérebro faz analogias que fogem à nossa razão, me dei conta que a paixão que milhares de pessoas têm pelo futebol é semelhante a que eu e um sem número de humanos têm pela música. E gostar de som e não comparecer a shows é como ser fanático pelo esporte que tem Pelé como ídolo e não prestigiar jogos nos estádios. Tanto as apresentações musicais quanto as partidas ao vivo servem como rituais tribais de libertação, uma espécie de catarse coletiva. Ali,todos são iguais. Apesar de muitos não se conhecerem, compartilham de gostos em comum. É uma alternativa para exorcizar os demônios do cotidiano, de extravasar as frustrações e de purificar a alma e a mente entregando-se ao momento, deixando que o barco siga seu rumo sem saber onde será o fim da jornada.

Já havia me dado conta disso há certo tempo. Porém, no dia 27 de março de 2012, durante o show de Jello Biafra and The Guantanamo School of Medicine, no Beco, em Porto Alegre, o raciocínio ficou mais claro.

Até o momento, ainda não encontrei resposta. E, provavelmente, nem vá. Só sei que não consegui ficar afastado daquele turbilhão insano de moshs e stage divings que sugava a rapaziada para dentro com mais intensidade que o mar revolto. O resultado? Cansaço, algumas escoriações e – o mais importante – uma sensação de leveza, de dever cumprido, de bateria recarregada.

Antes de a grande atração entrar em campo, os locais da Jay Adams fizeram um jogo-treino que aqueceu a plateia com o melhor do skate punk feito no Rio Grande do Sul. Seguindo a comparação com o futebol, pode-se dizer que o jogo principal já começou ganho.  Mesmo aos 53 anos e driblando um problema no joelho, o ex-Dead Kennedys fez a alegria da torcida com clássicos de sua antiga banda e músicas de seu novo projeto. Antes do capitão entrar em ação, o plantel composto por Ralph Spight (guitarra), Kimo Ball (guitarra), Andrew Weiss (baixo) e Paul Dellepelle (bateria) subiu ao palco. Em suas posições, deram início à partida com ruídos e efeitos que logo se transformaram na música ‘The Terror of Tinytown’, faixa que abre o primeiro full length da banda, The Audacity of Hype (2009). Então, Jello apareceu vestindo um jaleco branco sujo de vermelho (como se fosse sangue) por cima de uma camisa inspirada na bandeira norte-americana (vermelha e branca com estrelas).

O vocalista comandou a torcida durante quase duas horas. Com uma performance inquieta, ele mostrou sua veia teatral atuando de forma ensandecida, por vezes quase beirando a epilepsia. Das composições com o Guantanamo, o ícone do punk executou temas como ‘Three Strikes’, ‘New Feudalism’, ‘Clean As a Thistle’, ‘Eletronic Plantation’, ‘Strength Thru Shooping’, ‘Pets Eat Their Masters’. Apesar de garantir – em entrevista que deve ser publicada em breve – que não vive do passado, o tiozão que fez questão de pular na galera e mostrar disposição o tempo todo, incendiou mesmo o público com hits dos Kennedys.  Hinos como ‘California Über Alles’, ‘Nazi Punks Fuck Off’, ‘Too Drunk To Fuck’, ‘Bleed For Me’ e ‘Holiday in Cambodia’, transforam a pista do Beco numa verdadeira batalha campal.

No decorrer da apresentação, Jello não esqueceu dos discursos inflamados contra sistema capitalista, o fascismo, a administração de Barack Obama, a guerra por petróleo e outros temas que incomodam o ex-candidato a prefeitura de São Francisco (Califórnia) pelo Partido Verde.

Aos 48min da etapa complementar, Jello finalizou com a extensa I Won’t Give Up. Se ele insiste que não vai desistir, não nos resta opção se não seguirmos adiante, acreditando no poder transformador da música.

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One Thought to “Jello Biafra me ajudou a entender melhor os fanáticos por futebol”

  1. Grande show, e uma lenda viva do punk rock americano! Que disposição do cara! MAndou super bem!

    Parabéns pela bela resenha!

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