Gigante do soul nacional Tony Tornado volta aos palcos

Um dos maiores nomes do soul e funk brasileiro nos anos 70, Tony (ou Toni) Tornado, voltou a realizar shows depois de várias décadas de ausência da música, exceto por raras participações especiais com outros músicos. Ontem tive a sorte de presenciar um desses primeiros shows de retorno de Tornado, já com 82 anos, que ocorreu gratuitamente no SESC de Presidente Prudente – apenas 70km de sua terra natal, o distrito de Itororó, próximo ao já minúsculo município de Mirante do Paranapanema, no interior paulista.

Trajetória musical
Bem antes de ganhar o pseudônimo, Antônio Viana Gomes fugiu de casa aos 11 anos e foi parar no Rio de Janeiro, onde viveu por algum tempo nas ruas engraxando sapatos. Mais tarde frequentou uma escola agrícola e serviu o exército – ao lado de um jovem Sílvio Santos. Foi só por volta dos 30 anos de idade, no começo dos anos 60, que iniciou sua carreira musical, imitando roqueiros estadunidenses como Little Richard e Chubby Checker.

Mas na segunda metade da década, largou tudo e passou 5 anos ilegalmente em Nova York. Enquanto ganhava a vida como pequeno traficante e cafetão, iniciou uma duradoura amizade com outro imigrante irregular brasileiro: Tim Maia. Também nos Estados Unidos, ele chegou a encontrar aquele que seria uma influência musical determinante tanto sua quanto de Tim, James Brown, além de ter contato com os movimentos de resistência negra norte-americanos – Malcolm X e Martin Luther King Jr. foram assassinados enquanto ele vivia nos EUA.

De volta ao Brasil, Antônio cristalizou todas essas experiências e passou a ser o cantor Tony Tornado – nome inspirado em seu jeito de dançar no palco. Em 1970, venceu a fase brasileira do V Festival Internacional da Canção com a música soul “BR-3” – título que se refere tanto à rodovia que liga o Rio de Janeiro e Belo Horizonte quanto à veia do braço onde se injeta heroína. No ano seguinte foi lançado seu primeiro álbum, homônimo, contando com o grande sucesso e vários outros dos primeiras grandes canções soul e funk brasileiras, muito dançantes e ao mesmo tempo chamando atenção para temas de igualdade racial.

No mesmo ano, participou do festival que pretendia ser o “Woodstock brasileiro” – o Festival de Verão de Guarapari, no litoral capixaba. Apesar da presença de vários outros grandes nomes da cena nacional como The Bubbles (futura A Bolha), Novos Baianos, Milton Nascimento e Som Imaginário, nada ocorreu como planejado. A infra-estrutura era muito precária e as autoridades militares barraram a entrada de hippies, assim reduzindo o público a um décimo do esperado. Mas a maior lástima aconteceu no show de Tornado, quando ele se jogou no público repentinamente e acabou ferindo gravemente uma jovem. O acidente teve péssima repercussão para o músico.

Ainda em 1971, Tony participou novamente do Festival Internacional da Canção, dessa vez defendendo “Black is Beautiful”, ao lado de Elis Regina. No meio da música, ele levantou o braço com o punho cerrado, como vira os Black Panthers fazer nos EUA, e acabou sendo detido pelos militares. 1972 ainda viu o lançamento de um segundo álbum homônimo com o mesmo nível de qualidade do primeiro, mas a imprensa, a ditadura e um pouco de má sorte já tinham decretado o fim de sua carreira musical. Desde então ele ficou mais conhecido como ator, interpretando papeis secundários em inúmeras telenovelas, mini-séries, comédias e filmes nacionais. Até que timidamente voltou a fazer shows no final de 2011, com 80 anos de idade.

 

O show
O local era coberto mas aberto, com acústica ruim e equipamento de som deixando a desejar. Fazia mais calor do que os ventiladores de teto davam conta, e havia apenas umas 300 cadeiras para abrigar o público. Mas o que importava era que um dos maiores nomes da black music nacional esteve prestes a mostrar sua voz de novo depois de tanto tempo – e de graça!

Ás 16:15 a banda de apoio, batizada de Funkessência, começou sem ele. Eram nada menos que 13 músicos: Márcio Salomão e Rogerinhos nas guitarras, Renatinho Santos no baixo, Tiago Mineiro no teclado, Thiago Sonho na bateria, Júlio Cesar na percussão, Tony Sax e Jorginho nos sax’s, Marcos Stoppa e Daniel nos trompetes, Allan Abbadia no trombone, e Luana Jones e Lincoln Tornado (filho de Tony) nos vocais de apoio e danças. Em suma, uma completíssima banda de soul, que executou dois temas instrumentais cheios de swing para aquecer ainda mais a tarde.

E então entrou o gigante. Seria impossível que o público adivinhasse seus 82 anos caso ele mesmo não tivesse anunciado. Além da impressionante condição física, ele mostrou logo que o vozeirão também continua o mesmo, abrindo com a composição em inglês “Tornado”, uma das mais dançantes do disco de 1972. Passou em seguida para a mais reflexiva “Uma Vida”, de 71. Cheio de simpatia e confortável com o espetáculo intimista, ele não escondeu a satisfação por estar de volta à música e enfatizou a importância de fazer isso passando exatamente por aquele local, no interior de São Paulo, bem perto de sua terra natal. Emocionado, disse que precisou percorrer o mundo e crescer muito para poder retornar de cabeça erguida à região de onde saíra mais de 70 anos antes – região essa onde o preconceito racial é bem presente ainda hoje. Cantou então a simbolicamente escolhida “Sou Negro/I’m Black”, uma das mais diretas canções anti-racismo que o Brasil já conheceu.

Tony apresentou então o filho, o também cantor, dançarino e ator Lincoln Tornado, que assumiu os vocais principais por 3 canções. As duas primeiras foram o ponto baixo do show, muito mais pop que o material do pai, pobres em swing e mais ainda em significado. Mas na terceira, a também sua “Deusa do Amor”, Lincoln mostrou que também sabe cantar soul muito bem quando quer, ainda que as letras não sejam o seu forte. Tony retornou pra mostrar como se faz, com duas canções menos conhecidas, e em seguida aproveitou para chamar a atenção para Luana Jones, que ele agregou a banda após reconhecer como uma das melhores vocalistas de soul do país, tendo procurado em “quase todo o território nacional”. Luana justificou os comentários do mestre mandando uma excelente versão do clássico “I Got You (I Feel Good)”, de James Brown.

O gigante voltou à frente mais uma vez para falar sobre seu velho amigo e outra lenda da black music brasileira Tim Maia. Tony disse que estava presente no show em 1998 em que Tim passou mal no palco, e o acompanhou de ambulância até o hospital onde Maia veio a falecer uma semana depois. Desde aquele momento, Tornado prometeu que cantaria algo do amigo em homenagem sempre que subisse num palco. E cantou não apenas 1, mas 3 sucessos do finado colega: “Azul da Cor do Mar”, “Primavera” e “O Descobridor dos Sete Mares”, alternando-se com o filho e Jones.

Depois voltou para seu próprio catálogo com a mais animada “Podes Crer Amizade”, com intensa participação do público nos backing vocals. A música se estendeu muito além dos dois minutos e meio da versão de estúdio, para incluir solos de cada um dos músicos, tendo se destacado mais o percussionista, os dois guitarristas e o deque de metais.

Os expectadores pediram bis com vontade assim que a banda fez menção de deixar o palco, e logo veio a última e mais esperada canção: “BR-3”. Transcorrida mais de uma hora de show, a voz de Tony já mostrava um pouco de cansaço, mas mesmo assim ele segurou uma versão duas vezes mais longa que a de estúdio, compensando o peso da idade na emoção. Terminado o glorioso espetáculo, Tony e seus cantores de apoio ergueram os pulsos fechados – finalmente sem terem de temer repressão, em meio ao mar de aplausos do público de todas as idades.

 

Texto e fotos por Caio Rocha

Related posts

Leave a Comment

cinco × 5 =

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.