Eluveitie: exercitando a criatividade

                                   

Octeto da suíça tocará pela primeira vez em Porto Alegre

Rótulos servem para designar pessoas ou coisas de acordo com suas características e classificá-las dentro de algum grupo. São expressões que demonstram como algo ou alguém é percebido pela sociedade. Porém, adjetivar o que nos cerca torna-se restritivo e segmentador ao não considerar as idiossincrasias. Seja com humanos, seja com o que for. Nada é somente isso ou aquilo. Tudo e todos possuem descrições plurais que vão além de uma simples denominação. Na música, por exemplo, isso é cada vez mais perceptivo. Difícil catalogar artistas com base em um único critério ou rótulo. Um bom exemplo é o grupo suíço Eluveitie, que tocará em Porto Alegre dia 25 de janeiro, às 20h, no Beco (Av. Independência, 936). O octeto – que usa em seu som instrumentos diferenciados, como flautas, violino e gaita de fole – mistura folk, heavy metal, death metal, hinos e canções típicas da Europa para criar uma musicalidade singular. Por conta disso, foram enquadrados como ‘new wave of folk metal’.

Criado há 10 anos por Chrigel Glanzmann – líder e idealizador do grupo –, o Eluveitie tem seis trabalhos lançados, sendo um acústico. A banda fará sua estreia na Capital com a seguinte formação: Glanzmann (vocal principal, mandola, flautas, gaita, violão acústico e bodhrán – espécie de tambor tribal), Meri Tadic (violinos e vocais secundários), Anna Murphy (hurdy gurdy – viola de roda e vocal), Ivo Henzi (guitarra), Kay Brem (baixo), Rafael Salzmann (guitarra), Päde Kistler (gaita de fole e Tin & low whistles – espécie de flauta irlandesa) e Merlin Sutter (bateria).

Antes de chegar ao Brasil, Glanzmann respondeu, por e-mail, perguntas sobre a história da banda, sua ousadia musical e os planos para o futuro. Confira!

A banda começou como um projeto de estúdio apenas, certo? Quando você percebeu que era hora virar uma banda de verdade?

Chrigel Glanzmann – Isso mesmo! Na verdade, eu sempre quis uma banda ‘de verdade’, não só um projeto de estúdio. Mas naquele tempo era muito difícil ou quase impossível conseguir músicos para um grupo como o nosso. Não havia uma cena folk metal nem nada do gênero. Essa combinação de estilos parecia estranha para a maioria das pessoas. Nenhum dos envolvidos tinha obrigações, eram só músicos convidados. Porém, quando nosso primeiro disco (Vên) saiu, tivemos ótima receptividade de público e da imprensa, e ele vendeu muito rápido. Esse era o momento, e foi quando entrei em contato com os integrantes novamente para convidando-os para fazer parte do Eluveitie como uma banda real.

O som do Eluveitie mistura death metal com elementos celtas, entre outras referências. Por que juntar esses tipos de música tão distintos?

Chrigel Glanzmann – Por quê? Porque eu gosto! Essa foi a razão pela qual formei o Eluveitie. Eu simplesmente queria combinar os dois estilos que mais amo: música tradicional celta folk e death metal melódico. E não, não gostamos disso, apenas fazemos para nos punir. Brincadeira! Óbvio que amamos a ideia dessa combinação! Por qual outro motivo faríamos isso?

Para o Eluveitie é fácil criar sons agressivos e ao mesmo tempo melódicos?

Chrigel Glanzmann – Para mim isso é bem simples, soa natural. O por quê eu não saberia dizer. Acho que esses estilos musicais que mesclamos são basicamente ‘meu elemento’.

A banda é classificada como folk metal. Esse rótulo agrada vocês?

Chrigel Glanzmann – A gente simplesmente não está nem aí. Não nos importamos sobre rotulações de estilos e como estão chamando nossa música. Só tocamos da maneira que gostamos e todo o resto não é da nossa conta.

O gênero musical que vocês praticam tem ganhado cada vez mais espaço. Alguma opinião sobre por que isso está acontecendo neste momento?

Chrigel Glanzmann – Com certeza está, embora eu não saiba o motivo. Eu tenho respondido em muitas entrevistas anteriores, muitas mesmo, mas realmente não sei o que dizer. No fim das contas, acho que é algo natural com novos estilos musicais: uns fiquem populares, outros não. Sempre foi assim e sempre será. Lembro que no fim dos anos 80 e começo dos 90 o death metal estava se desenvolvendo. Naquele tempo era apenas um som extremo e também era limitado a um cenário underground. Porém, com o passar dos anos, tornou-se realmente conhecido. Então, acho que é só um desenvolvimento natural.

O Eluveitie e outras bandas como o Korpiklaani são uma espécie de representantes desse novo tipo de música. Você sente responsabilidade de mostrar ao mundo o quão interessante ele é?

Chrigel Glanzmann – Para ser honesto, realmente não nos importamos. Não nos preocupamos muito se há todo um gênero ou não, apenas fazemos nossa parte. Tocamos nossa música porque a amamos. Então não, não nos sentimos responsáveis.

Com alguns instrumentos fora do comum na sua música – como bodhrán e hurdy gurdy – como a banda trabalha as composições? Como nasce uma nova canção e como ela vai tomando forma?

Chrigel Glanzmann Basicamente sou eu mesmo que escrevo as músicas. Desde os nossos últimos dois discos, comecei a escrever bastante junto com o nosso guitarrista Ivo. Então, nossos temas são compostos por uma ou duas pessoas, em princípio. Assim que a música está pronta, eu passo para o resto da banda e ela é redefinida por todos. Nossas faixas usualmente tomam forma dentro da minha cabeça. Não preciso de computador ou algo assim para compor, apenas de serenidade. Eu simplesmente ‘penso’ ou ‘sonho’ nossas músicas e elas, tipo, ‘crescem’.

O Eluveitie tem um álbum acústico chamado Evocation I: The Arcane Dominion (2009). Vocês acreditam que o formato combina com a sonoridade da banda?

Chrigel Glanzmann – Fizemos um trabalho acústico porque queríamos e adoramos ele! Gostávamos da ideia e pensávamos nisso há um bom tempo. Haverá uma segunda parte de Evocation.

Nesse disco acústico há mais vocais femininos do que guturais. Algum motivo especial para isso?

Chrigel Glanzmann – Porque eu acho que soaria terrivelmente estranho ter um acústico suave com vocais gritados. Mas isso não foi uma decisão concreta e consciente. Foi algo que se desenvolveu mais intuitivamente, como a maioria das coisas em nossa música.

O disco que veio na sequência foi Everything Remains (As It Never Was), de 2010, que é pesado e cru. Foi proposital após um registro acústico?

Chrigel Glanzmann – Fizemos dessa maneira simplesmente porque queríamos assim.

http://youtu.be/kb8WGig0MLUO CD mais recente – Helvetios (2012)– combina elementos dos discos anteriores: a obscuridade dos primeiros discos, alguns ótimos hinos e a parte mais brutal. Havia um objetivo quando esse disco começou a ser escrito? Vocês já sabiam como queriam que ele soasse antes de gravar?

Chrigel Glanzmann – Sim e não. Não, porque não penso num disco dessa maneira. Quando começo a escrever músicas não imagino algo como “ok, vamos combinar alguns elementos que usamos no passado” ou algo assim. Sim, porque eu tenho um objetivo quando crio canções. Antes de compor músicas para um disco eu consigo imaginar as músicas e a atmosfera que do disco na minha cabeça. Helvetios foi um pouco especial, no entanto. Isso porque o disco conta a história de guerras gaulesas. Eu não queria apenas narrar esses fatos nas letras, mas também expressá-los musicalmente. O disco é mais como a trilha sonora de uma obscura história gaulesa.

O Eluveitie criou um canal na Internet recentemente. Como o EluTV funciona?

Chrigel Glanzmann – Bem, ele é basicamente uma newsletter ou um blog, só que em formato de pequenos vídeos. O material traz diversos momentos por trás das câmeras e documentos de nossas atividades. É sempre importante estarmos perto de nossos fãs, pois pensamos que toda a banda não deve esquecer que são seus admiradores que lhes dão a oportunidade de fazer o que eles fazem. Por isso aparecemos com essa ideia do EluTV. Pensamos que seria legal fazer algo dessa forma ao invés de uma simples e chata newsletter. É mais pessoal como estamos fazendo.

Quais os planos da banda para 2013

Chrigel Glanzmann – Bom, por um lado ainda estamos bem ocupados com a turnê do Helvetios. Esse giro começou em janeiro de 2012 e continua até o verão em 2013. Então, seguimos na estrada por um bom tempo. Além disso, planejamos produzir um extenso DVD este ano. Mas, é cedo para falar mais sobre isso. As coisas ainda estão sendo planejadas.

Texto por Homero Pivotto Jr. – Abstratti Produtora

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