Dica 4oldtimes: Curtis Salgado e Michael “Iron Man” Burks.

Sou um aficionado por música há bastante tempo já, mesmo antes de ingressar no plantel putzgrílico (Aliás, meu amor e devoção pela música que me trouxeram para cá). E, como bom aficionado, passo uma boa parte do meu tempo vasculhando a internet atrás de novidades e sons desconhecidos. Às vezes isso me leva a decepções, mas a maioria das tentativas se mostra bem frutífera. Meu mais novo empenho se mostrou bem mais tranquilo do que alguns antigos: resolvi dar uma ouvida nos discos que receberam prêmios no último Blues Awards, realizado neste ano, na Cook Convention Center, em Memphis, Tennessee (Claro que isso foi quase uma trapaça nesse lance de buscar material desconhecido, já que normalmente é difícil encontrar maçãs podres na cesta de frutos vencedores). Vejamos, então, do que se trata a Dica 4oldtimes de hoje:

Os grandes álbuns e canções vencedoras deste ano foram: “Not Alone”, de Ann Rabson e Bob Margolin (álbum acústico); “Show Of Strenght”, de Michael Burks (álbum do ano); “They Call Me Big Llou”, de Big LLou Johnson (estreia do ano); novamente “Show Of Strenght”, de Burks (melhor álbum de blues contemporâneo); “Everybody’s Talkin'”, da Tedeschi Trucks Band (melhor álbum de blues rock); “I Won’t Cry”, de Janiva Magness e Dave Darling (melhor canção); “Soul Shot”, de Curtis Salgado (melhor disco de soul blues); e “Double Dynamite”, de The Mannish Boys (melhor álbum de blues tradicional).

Desses todos, vou falar pra vocês de apenas dois. Foram dois álbuns que eu só ouvi depois de ver essa lista e que, também, me surpreenderam muito, mesmo depois de ver que foram vencedores no Blues Awards. Trata-se de “Soul Shot”, do Curtis Salgado, e “Show Of Strenght, do Michael Burks.

Michael Burks (esquerda) e Curtis Salgado (direita)

Eu já conhecia o trabalho de Salgado há um tempo: “Wiggle Outta This”, disco que lançou em 2004, é um baita álbum, e nele o cara explora muito bem a sua voz e a harmônica. Aliás, diga-se de passagem: que harmônica! Curtis já nos deu provas suficientes de que ele é um baita gaitista. De qualquer forma, apesar de gostar muito do “Wiggle…”, não acompanhei mais a carreira do cantor e acabei ficando por fora desse novo trabalho, “Soul Shot”… Mas felizmente isso foi corrigido: hoje estou aqui, abismado com esse novo trabalho.

Da faixa de abertura (“What You Gonna Do?”) à de encerramento (“A Woman Or The Blues”), temos uma aula de rhythm & blues. Apoiado na mistura entre uma sessão de metais poderosa e uma cozinha sólida, Curtis Salgado construiu “Soul Shot” de uma forma magistral. Ao longo do disco, algumas possíveis influências me pareceram claras: Otis Redding, Wilson Pickett e Bobby “Blue” Bland; apesar disso, o próprio cantor já declarou ter também outras referências, como: Little Walter, Muddy Waters e The Soul Stirrers. O que podemos deduzir disso? A carreira de Salgado parece ter sido feita em cima dessa tensão entre o blues e o soul, um jogo de forças que Curtis equilibrou muito bem nesse novo tento. Passei o tempo todo dançando sentado aqui enquanto ouvia ao álbum, deliciando-me com a transição orgânica dos grooves a um blues suave. Como principais destaques, eu aponto “Love Comfort Zone“, “Love Man” e “Strung Out“.

Já Michael Burks me era uma incógnita até ontem, quando peguei para ouvir o seu “Show of Strenght”. É triste dizer, todavia, que o guitarrista, também conhecido como “Iron Man” (por suas enérgicas e duradouras performances ao vivo), tenha falecido antes mesmo de o disco ser lançado. Em maio do ano passado, Burks sofreu um ataque cardíaco quando voltava de uma turnê europeia, aos 54 anos. De qualquer forma, graças à tecnologia e a fãs leais, seu legado e sua memória estão protegidos e serão devidamente divulgados.

Mas vamos falar, então, do disco: Se o trabalho de Curtis Salgado é calcado tanto no soul quanto no blues, o de Michael Burks se mostra bem menos variado, indo diretamente ao blues, ainda que conte com linhas de baixo com grooves sugestivos em várias faixas. Também ao contrário de “Soul Shot”, que é um álbum com talento bem distribuído, sem ninguém se sobressaindo a ninguém, este “Show of Strenght” foi feito para dar destaque a um Burks que tem muito pra mostrar com uma guitarra na mão. E tão logo o CD começa a rolar, já dá pra ver de onde ele tirou seu estilo: os reis Albert e Freddie estão ali, sendo cultuados a cada nota.

Abrindo com bonita “Count On You” e encerrando com a linda “Feel Like Going Home“, o álbum é recheado com vários slow blues de alto quilate. “Take A Chance On Me, Baby” é uma arma que pode cortar corações como faca quente na manteiga. Mas nem só de ótimas baladas se faz um bom disco: há momentos de energia pura, guiadas por uma guitarra afiada e a voz grave de Michael. As transições entre as músicas mais slow e as mais up tempo é bem feita, de forma a deixar tudo dentro do seu devido lugar. Outros destaques ficam por conta de “Can You Read Between The Lines?” e “Since I’ve Been Loving You“.

Ao terminar a primeira audição, eu já estava muito empolgado. Fazia algum tempo que um artista contemporâneo (que até então me era desconhecido) produzia um efeito assim em mim. É realmente uma pena que Burks tenha nos deixado tão cedo. Mas enfim, por hoje era isso aí! Conforme novos (ou velhos) materiais forem surgindo, volto a contar pra vocês dessas pérolas que se escondem pelo mundo afora. Um abraço!

Por Ismael Calvi Silveira

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