Cobertura do show do Arnaldo Baptista no Morrostock 2013

Arnaldo Baptista levou sua música e suas pinturas para o Morrostock

Passado o primeiro final de semana (04 à 06/10), a próxima grande atração musical do Morrostock 2013 seria a maior de todas nessa edição do festival: ninguém menos que a maior lenda viva da história do rock brasileiro, Arnaldo Baptista, no Centro de Cultura Lúcio Fleck dentro da cidade de Sapiranga/RS, às 20h da outra sexta (11/10). Na véspera, eu e Simone Ishizuka, colaboradora do Fora do Eixo, tivemos a grande oportunidade de entrevistar o eterno Mutante. Ele foi extremamente receptivo e espontâneo, e nos contou sobre seus novos projetos, outros músicos que admira, sua paixão pelo palco e por amplificadores valvulados, sua percepção da tropicália, primeiras influências roqueiras, seu interesse por energias renováveis, expectativas pro Morrostock, e até sua curiosa relação com o disco voador. Ouça a entrevista na íntegra aqui: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/entrevista-com-arnaldo

Arnaldo sendo entrevistado na véspera do show

E enfim chegou a grande noite. Auto-falantes na frente do Centro de Cultura vibravam ao som do bom e velho rock & roll de Elvis Presley, ajudando os fãs que vinham de longe a se localizarem. Depois de alguns minutos de tolerância para que a maioria dos viajantes conseguisse chegar a tempo, todos entraram no teatro e o idealizar do festival, Paulo Zé Barcellos, fez os devidos agradecimentos e apresentou o mestre muito merecidamente como “um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos”. Em seguida, para o delírio dos presentes, Arnaldo entrou todo sorridente vestindo uma camisa prateada reluzente, e sentou-se ao piano de calda. Seu atual espetáculo, o “Sarau O Benedito?”, consiste de um show totalmente solo, com ele cantando e tocando piano, enquanto pinturas e desenhos psicodélicos de sua autoria são projetados no fundo do palco. Dessa vez, ele resolveu abrir justamente com o seu maior clássico em carreira solo, “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?”, um rock com influências de bossa nova que integra o lendário álbum “Lóki?” de 1974. A ausência de outros instrumentos além do piano deixou a música ainda mais intimista, e rendeu um mar de aplausos. E as coisas só melhoraram. Seguindo no tema da loucura, Arnaldo mandou uma das canções mais icônicas d’Os Mutantes, a “Balada do Louco”, que ele compôs em parceria com Rita Lee para o disco “Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets”, de ’72 (o último da formação clássica da banda). Com o passar do tempo, “Balada do Louco” não só se tornou um hino pra todos que vão na contra-mão de convenções da sociedade, mas também acabou definindo perfeitamente a própria história de vida de seu autor – por isso é impossível não sentir um arrepio vendo pessoalmente Arnaldo colocar toda sua alma nessa música. Já estava garantido que ninguém ali iria esquecer aquela noite, mas o show estava só começando. A próxima veio pra levantar e descontrair um pouco: “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha O Rock and Roll”, outro grande clássico de sua co-autoria que saiu no mesmo disco d’Os Mutantes. Depois foi a vez de uma um pouco menos conhecida do “Lóki?”, “Te Amo Podes Crer”, uma das mais tocantes desse álbum tão pessoal. Então veio uma inédita, que deve estar no próximo disco, o “Esphera”. A divertida composição centra num gato de estimação, e empolgou o público a acompanhar com palmas no inusitado refrão de miados que Arnaldo fez. Em seguida veio “Jesus Volte Até A Terra”, música originalmente gravada em inglês pro seu “Singin’ Alone” de ’82, que revela sua peculiar visão woodstockiana do messias cristão, a quem ele pede que retorne trazendo sorrisos, a paz e… “o rock’n’roll, e get off of my blue suede shoes, oh Lord!” . A voz do homem (já com 65 anos) não mostrou o menor sinal de envelhecimento nos últimos mais de 25 anos, e sua habilidade no piano é bem versátil, fato que ele evidenciou na sequência tocando uma pequena passagem instrumental de música erudita. Então foi a vez de um medley de spirituals norte-americanos de mais de um século atrás, começando por Nobody Knows (The Trouble I’ve Seen), que ele regravou em seu mais recente álbum (“Let It Bed”, de 2004), e terminando em “Down by the Riverside”, que foi reaproveitada como hino pacifista durante a Guerra do Vietnã. Sempre mantendo o equilíbrio entre momentos mais introspectivos e outros mais animados, Arnaldo seguiu com a canção mais otimista do “Lóki?”, “Não Estou Nem Aí”. Depois ele mandou o primeiro single já lançado do próximo álbum, “I Don’t Care”, um apelo por energia solar gratuita para todos, que acabou desembocando numa versão de “Skyline Pigeon” de um de seus maiores ídolos, Elton John. Depois de mais uma pequena passagem instrumental erudita, ele tocou “Tacape”, do “Let It Bed”, composição bem pessoal que faz referência a várias de suas músicas mais antigas. Em seguida Arnaldo interpretou Bob Dylan na versão com mais feeling do clássico de protesto “Blowin’ in the Wind” que eu já tinha ouvido, superando até Stevie Wonder. Depois ele revisitou o disco “O A e o Z”, seu último de estúdio n’Os Mutantes, fazendo “Uma Pessoa Só”, com trechos de “Rolling Stones” (ambas do disco), mais um passagem instrumental clássica emendada, e fechando o medley, outra do Elton John: “Rocket Man”, que já está no seu repertório há tempos. Então vieram duas de suas melhores composições do tempo com a Patrulha do Espaço em ’77 (do disco “Elo Perdido”, arquivado até ’88), o rock quase rural de “Cortar Jaca” (que ele apresentou numa versão aprimorada com os Rs puxados pra um efeito mais caipira, condizente com a letra), e o seu mais autêntico blues: o descontraído “Trem”. Depois ele atacou com muita emoção o standard do soul “Bring It On Home To Me”, de Sam Cooke. Uma improvisação jazzística sobre o tema do filme Pantera Cor de Rosa serviu de introdução pro clássico pop-folk de Peter, Paul & Mary “Puff, The Magic Dragon”, com direito a rosnados de dragão e tudo.

Arnaldo Baptista e um piano – não precisou de mais nada

A autobiográfica “Everybody Thinks I’m Crazy” desembocou na engraçadíssima “Fivela”, as duas do “Let It Bed”. Depois Arnaldo fez um medley de músicas que ele provavelmente conheceu na infância: a velha canção tradicional escocesa “My Bonnie Lies Over The Sea”, o primeiro sucesso caipira de Inesita Barroso “Lampião de Gás”, o tema do seriado Bat Masterson, e por fim a antiga balada norte-americana “Old Folks at Home”. Mantendo o cuidado de balancear bem o show, ele seguiu esse medley nostálgico quase solene com a mais bem humorada canção do “Let It Bed”, “Gurum Gudum”. Então ele fez um ragtime (música sincopada geralmente de piano que foi uma das origens do blues e do jazz), que acabou dando em um último trecho erudito. Na sequência veio outra dos tempos da Patrulha, “Raio de Sol”, e depois uma nova pro “Esphera” chamada “Walking in the Sky”, que é uma adaptação surrealista do R&B de Fats Domino, “I’m Walkin’”. A mesma lógica se aplica à “Ai Garupa”, do “Let It Bed”, cuja melodia lembra “Nosso Estranho Amor” de Caetano Veloso, mas a letra é bem mais psicodélica. Então ele fez uma releitura do clássico do pop-rock sessentista de Sonny & Cher “I Got You Babe”, e depois partiu pra um medley poliglota que começou em “Santa Lucia”, música religiosa italiana típica de cantores de ópera, passou por uma chanson francesa e terminou na mexicana “Malagueña Salerosa”. A escolhida pra saideira foi “Take It To The Limit”, dos Eagles, numa versão carregada de sentimento.
Mas é claro que o público não se deu por satisfeito e exigiu por gritos e aplausos que ele voltasse. E com grande prazer ele obedeceu, surpreendendo com uma empolgante versão de “Ando Meio Desligado”, grande clássico que ele co-escreveu pro terceiro disco d’Os Mutantes (“A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”, de ’70), mas que originalmente tinha os vocais principais de Rita Lee. Foi sensacional, mas ainda não bastou. Chamados ainda mais calorosos conseguiram um segundo e derradeiro bis: “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?” outra vez, fechando o ciclo. O gênio das roupas brilhantes se despediu de nós, felicíssimo, e nós saímos de lá mais ainda: só sorrisos pra qualquer lugar que se olhasse.

Arnaldo Dias Baptista

Não foi um show convencional. Um único instrumento, muitas músicas abreviadas e escolhas inusitadas de covers não são exatamente o que a maioria espera de um concerto de rock. Mas Arnaldo Baptista nunca foi um artista convencional. Assim como suas pinturas e desenhos que vimos às suas costas, bem coloridos e à primeira vista muito simples, mas repletos de pequenos simbolismos num olhar mais atento, sua música sempre foi uma colorida apropriação das mais variadas influências, transformadas em algo extremamente novo e pessoal, só dele, que ao mesmo tempo consegue ser simples e profundo, engraçado e tocante, empolgante e surpreendente, triste e animador. Foi tudo isso que fez dele o primeiro grande gênio do rock brasileiro, e o mais respeitado entre outros músicos dentro e fora do país. Com o passar do tempo, sua música passou a espelhar suas experiências de vida como a de poucos em todo o rock mundial. Se saímos todos tão inevitavelmente felizes e um pouco mais iluminados daquele show, foi porque tanto a música quanto o músico já estavam assim.
Alguns minutos depois, Arnaldo apareceu cheio de simpatia no salão nobre do Centro de Cultura pra tirar fotos com fãs e ser abraçado, e só saiu depois de satisfazer todos os interessados. Aí já era hora de voltarmos pro Sítio Picada Verão, fora da cidade, onde 10 grandes bandas independentes de diversas vertentes do rock (e além) tocariam, só naquela noite…

Arnaldo recebendo os fãs após o show

 

 

Texto: Caio Rocha
Outra entrevistadora: Simone Ishizuka (Fora do Eixo)
Foto da entrevista: Caiane da Costa (Fora do Eixo)
Fotos do show: Rede Brasil de Festivais Independentes (mais em http://www.flickr.com/photos/redebrasil/)

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