Cobertura Psicodália 2018 – 1º Dia

O Psicodália 2018 começou na sexta-feira, 09 de fevereiro. Do meio da manhã ensolarada até a noite cheia de neblina, milhares de pessoas chegavam de todo o país (e algumas dúzias do exterior) na Fazenda Evaristo, zona rural da pequena cidade de Rio Negrinho, no interior catarinense. Aos poucos, íamos todos montando acampamento em algum dos 5 campings em torno da região central com os palcos e demais estruturas principais.

O primeiro dia é sempre de transição dos hábitos urbanos para o clima contracultural único do Psicodália. No começo da tarde formou-se uma fila comprida de gente esperando para abastecer seus cartões com Dálias (a moeda do festival), mas o que poderia ter sido um momento chato foi habilmente transformado pelos números bem-humorados e interativos de malabarismo do artista de rua gaúcho Margarina Bailarina. Logo em seguida veio a primeira chuva, outra atração quase garantida (pra qual a infraestrutura está sempre preparada), que começa a formar lama e tem seu papel em lembrar as pessoas ali que mudamos de ambiente, nos convidando a mudarmos também as formas de (con)viver.

Essa vigésima primeira edição contou com mais de 120 oficinas (de slackline à astrofísica, passando por montação de drag e meditação infantil), meia centena de sessões de cinema, quase o mesmo número de apresentações teatrais, mais de 30 atividades de recreação para crianças e outras 16 para adultos, além de tirolesa (única paga à parte), lago com circuito de obstáculos e uma cachoeira um pouco mais além, tudo de primeira e ajudando a reinventar a sociedade provisória dentro da fazenda. Mas nenhum único fator tem um poder transformador tão grande no Psicodália quanto a música. Na primeira tarde, ela já estava por toda parte, seja por bandas menores psicodélicas e jams jazzísticas imprevisíveis nos pequenos palcos livres ou improvisados pelo público musicista por todos os campings, no saloon e entre os palcos maiores, seja na Rádio Kombi – praticamente não pega celular nem internet, mas a “rádio pirata oficial” do festival podia ser sintonizada das barracas e saía de caixas de som pelos banheiros e praças de alimentação.

Salma Jô, da Carne Doce, por Nicolas Pedrozo Salazar

Às 19h30, depois de chuvas e sóis, no meio do público tambores de maracatu, malabares e pernas de pau puxavam o aquecimento para o primeiro show oficial. E às 20h em ponto começou a Carne Doce, quinteto goiano proeminente na cena independente nacional nos últimos anos, que vinha pela primeira vez ao festival. Causaram um impacto imediato abrindo com a faixa-título do álbum mais recente (Princesa, 2016), com o ritmo hipnótico do baterista Ricardo Machado e do baixista Aderson Maia, combinado às guitarras líquidas de Macloys Aquino e João Victor Santana, e à frontwoman, vocalista e letrista Salma Jô pulsando de corpo inteiro e cantando sobre questões de poder em relações íntimas, sem nenhum medo de confrontar desigualdades enquanto incendiava o público com a força na voz. “Cetapensâno”, que abre o disco, veio em seguida, mantendo a energia e a temática, mas ainda potencializadas por um extra de confiança no sotaque. “Sombra” trouxe um clima mais aéreo, ventoso, com a letra contemplação a possibilidade de suicídio, mas dispersando até dele. Tocaram uma nova, provavelmente do terceiro álbum que deve sair no meio do ano, com pegada oitentista bem marcada e cantada com raiva sobre ser a sobra de alguém. O som aéreo voltou mais viajante em “Carne Lab”, que no disco termina descrita como “10 minutos de fritação”, mas dessa vez bastaram 6, desembocando numa transição de bateria para “Artemísia”, no auge da tensão instrumental e visceralidade vocal, em que uma divindade feminina clama autoridade absoluta sobre seu ser, incluindo o direito de não dar à luz a outro ser caso não queira – que, se já não era, ali ficou indiscutível. O show chegou e se manteve no clímax: Salma disse que a próxima seria dedicada à Juliana Strassacapa, vocalista da francisco, el hombre (que se apresentou 2 noites depois), e Ricardo começou a tocar como as batidas secas e aceleradas de um relógio, sobre as quais entrou um riff psicodélico a la Oriente Médio, anunciando provavelmente a música mais em evidência da banda atualmente: “Falo”. Os vocais e letra dessa são uma obra à parte, com combinações de ironia e indignação ao mesmo tempo sutil e incandescente, que se transforma numa explosão vulcânica de emoções desnudando e peitando vários níveis de machismos cotidianos. Fechando o ciclo de Princesa, a Carne Doce ainda mandou “Açaí”, uma reflexão irresistivelmente dançante sobre ansiedade e procrastinação. Se teve antes uma inédita, teve no fim uma mais antiga, “Passivo”, do álbum de estreia, (Carne Doce, 2014). Num dance tão picante quanto zombeteiro, com pitadas de funk, Salma joga com uma inversão de posições hierárquicas numa relação de sadomasoquismo, com resultados desconcertantes. Pra ser mantida a pontualidade nos shows posteriores, não sobrou tempo pro bis, mesmo com a insistência dos gritos do público. Mas já estavam abertos mais que abertos os trabalhos. A efervescência e riqueza de emoções da música nos discos da banda ficou ainda mais potente com a entrega do público (como Salma notou e depois nos comentou, muito mais livre de celulares e câmeras do que ela costuma ver) e com a presença de palco intensa, com a vocalista respondendo inteira aos instrumentistas, e eles vibrando sonora e de vez em quando corporalmente com o canto e letras, a serviço do que a frontwoman expressava em cada momento. Acima de tudo, expandiram os sentidos de carnal, fazendo brotar do corpo uma selva emocionante de questionamentos, fundindo o sensual ao político e recusando qualquer tipo de submissão enquanto mulher. Tudo num “rock muito particular”, como disse Cristiano Farias ao introduzir eles no palco, com elementos de indie, psicodelia e MPB, e até toques eventuais de rock mais pesado, new wave, funk, moda de viola, pop e ritmos orientais, mas sem remeter diretamente a nenhuma banda mais velha.

Pouco depois, a segunda atração do Palco Lunar foi a última das bandas clássicas do rock brasileiro homenageadas nos nomes dos campings do festival da qual ninguém tinha tocado ali ainda: Tutti Frutti. Na entrevista mais cedo, tinham lembrado do convite recebido para a edição de 2014, mas na época estavam abalados demais pelo recente falecimento do baixista Ruffino Lomba Neto (também ex Patrulha do Espaço e Made in Brazil). O influente guitarrista paulista Luis Carlini, antigo roadie dos Mutantes e escudeiro setentista de Rita Lee (e, desde então, tantos outros), disse que tinha participado do último Rock in Rio, mas que muito mais rock era o ambiente do Psicodália. Ele começou o show estrelando uma introdução instrumental que deu em “Com a Boca no Mundo”, parceria dele com Rita e o baixista original Lee Marcucci, de 1976 – e revisitada à risca na voz da atual vocalista, Sol Ribeiro. Em seguida o público logo reconheceu “Fruto Proibido” pelo ritmo glam-blues-rock puxado por Geraldo Vieira (baixo, ex Terreno Baldio) e Franklin Paolillo (mesmo baterista do disco de ’75 que leva o nome da música, clássico absoluto da banda e foco do show). Mais blues-rock ainda foram os solos de guitarra de Luis e Roy Carlini – filho e ex Velhas Virgens – em “Disco Voador” (’78). Em outra do Fruto Proibido, “Cartão Postal”, quem tomou a frente solando e improvisando foi o tecladista Mário Testoni (Casa das Máquinas). Nem só Rita Lee & Tutti Frutti o atual Tutti Frutti tocou; teve também “Balada do Louco” (Mutantes) e “Me & Bobby McGee”, imortalizada por Janis Joplin e trazendo um lado um pouco diferente dos vocais de Sol – que morou muitos anos nos EUA. Mas na maior parte, achei um show preciso e nostálgico.

Mundo Livre S/A e seu público, por Nicolas Pedrozo Salazar

 

Enquanto o som de uma jam vinha do camping Terreno Baldio, fui me aproximando alguns minutos atrasado do show do Mundo Livre S/A, banda pernambucana existente desde os anos 80 e fundadora oficial da cena manguebeat ao lado de Chico Science & Nação Zumbi nos 90. Conta com o baixista P3dro Diniz, o tecladista Léo D., o baterista Xef Tony e o percussionista Pedro Santana, atualmente acrescida do suingue do trompetista Nilsinho Amarante e do trombonista Fabinho Costa, além, claro, do compositor e vocalista Fred 04, às vezes na guitarra ou violão, mas em geral no cavaquinho. Nos ritmos de samba balançado e boa parte do jeito malandro ambíguo de cantar, fica clara a influência de Jorge Ben (atração do mesmo palco 2 noites depois), que ele nunca tentou esconder. Mas esse é só o ponto de partida dessa banda de rock, que também passa por toques de hip hop e batidas tradicionalmente pernambucanas, e frequentemente chega no hardcore – tudo na mesma música. Parte do show foi revisitando sons do Carnaval na Obra, terceiro disco do Mundo Livre, lançado há 20 anos: “O Negócio do Brasil”, “Alice Williams”, “Bolo de Ameixa”, “Édipo, o Homem que Virou Veículo”. E se o tipo de azaração tematizado em “Musa da Ilha Grande” e “Meu Esquema”, já está meio ultrapassado, não podiam ser mais atuais as discussões ambíguas sobre informática e globalização de “O Velho James Browse Já Dizia”, espécie de ciberfrevo, e “Computadores Fazem Arte”, clássico de Fred 04 gravada primeiro na estreia da Nação Zumbi. Também especialmente apropriada foi “Pastilhas Coloridas”, simpática a certas drogas num contexto de exclusão social e “homens da lei nem sempre gentis”. Excepcionalmente nesse ano, a Polícia Militar de Santa Catarina fez blitz cerrada próxima a entrada do festival, parando por horas em torno da metade de quem chegava, com revistas exaustivas e por vezes abusivas, pra no fim fichar uma pessoa ou outra por quantidades ínfimas de substâncias não viciantes. Até o início dessa primeira noite ainda se via um grupinho de policiais fortemente armados e membros uniformizados do Conselho Tutelar dentro da fazenda, tentando intimidar o público. Mesmo que em nenhuma das 9 edições do Psicodália no local tenha ocorrido sequer uma briga, overdose ou mesmo coma alcoólica. Mais uma vez, muitas crianças de todas as idades podiam ser vistas brincando seguras perto de/com responsáveis, sem dúvida num dos ambientes mais amistosos, criativos e educativos que já conheceram. Não chega a ser surpreendente que os abusos conservadores em tantas esferas do poder ultimamente tenham reverberado também nessa tentativa de repressão infundada. Talvez o momento mais intenso do show do Mundo Livre tenha sido uma música antiga que ganha nova urgência com a crescente perda de direitos no trabalho e desemprego, “Bola do Jogo”. Do primeiro álbum, essa sintetiza muito da identidade da banda: vocal inicialmente malemolente estilo Jorge Ben, guitarra reflexiva de rock alternativo praieiro, percussão onipresente, crescendo e oscilando entre fúria hardcore e dramaticidade sincera, encharcados de consciência de classe: “a alma do trabalhador é como um carro velho… só dá trabalho”. A versão estendida e especialmente intensa emocionou e sacudiu o público em vários níveis, antecipando os inevitáveis gritos de “Fora Temer!”, prontamente respondidos por Fred 04 com “foda-se a reforma da previdência! Foda-se a reforma trabalhista!”.  Temática e explosão de energia na mesma linha vieram no bis: “Livre Iniciativa”, em que são comparados empreendedores e trabalhadores, dessa vez com o cavaquinho ditando o rock’n’roll. Aliás, nunca antes um cavaquinho inspirou tanta roda punk no Psicodália.

Público com o Jesus do Bloco da Laje, por José Tramontin

Já estava tudo pronto para seguir no outro grande palco, o dos Guerreiros, conforme chegava a madruga. A drag queen curitibana Juana Profunda fez sua grande entrada e introduziu apropriadamente a “festa dionisíaca” porto-alegrense: Bloco da Laje. Mais de 20 pessoas em trajes e pinturas de cores fortes reluzentes, entre tambores e outras percussões, deque de metais, múltiplos vocais, baixo, guitarra, dança e teatro. Simultaneamente em clima de farra e resistência, tradições religiosas afro-brasileiras e bom humor lúdico, o Bloco levou um ar de rua para o palco. Quase tudo era baseado em refrãos curtos muito ritmados repetidos muitas vezes, mas dizendo e empolgando muito, de músicas mais estridentes como a composição própria “Deixa Brincar”, até as mais sérias como “Cosme e Damião”, da cultura popular e “Cavaleiro de Aruanda”, originalmente gravada num dos momentos psicodélicos de Ronnie Von e depois incorporada ao cancioneiro da umbanda. Em meio à forte influência iorubá, falas entre músicas lembraram a prisão de Rafael Braga e homenagearam “todos os pretos e pretas desse país”. Outra própria das mais emblemáticas foi “Cordão da Idade Média”, com parte da melodia empresta do famoso jingle dum político cristão, e denunciando hipocrisias em bancadas religiosas e reacionarismos da classe média brasileira, comparadas com humor e seriedade em igual medida aos valores medievais europeus, com o jogo de classe/idade média e versos sarcásticos como “não pode dar o cu, não pode fumar um, não pode escolher se vai ter o nenê”. A parte teatral chegou ao auge quando apareceu no palco um Jesus de pijama esbanjando simpatia e encorajando (com muito sucesso) as pessoas a se olharem no olho de quem nunca tinham visto, mas se desculpando por ele não poder brincar com o Bloco da Laje por estar pregado na cruz. Foi o mote para “Jesus Pregadão”, na qual o povo em festa liberta o homem, que vai gradualmente tirando o pijama e revelando um terno, depois tirando o terno, ficando só de tanguinha vermelha e pulando sobre o público em êxtase. Tiveram ainda momentos mais simples, como a batida muito marcada e o refrão curtíssimo de “O Sol é o Rei”, dançados freneticamente no palco e fora dele. Se algum elemento se sobressaiu entre os tantos do espetáculo, foram os enormes sorrisos encharcados de suor se sacudindo por todo o público.

Eram 3h15 da madrugada quando chegou a vez da Machete Bomb, de Curitiba. Apresentaram-se com áudios ironizando a banda e sua proposta sonora de “heavy samba”, subversão do já subversivo samba, com distorção roqueira no cavaquinho e hip hop. Quando começou mesmo, me lembrou Rage Against the Machine, e, em menor medida, Planet Hemp, com o cavaco tão envenenado que soava mais como uma guitarra de thrash metal, samples debochados, baixo, bateria e percussão pesadas, e um rap endurecido à frente. Mas esse foi o comecinho. O cansaço me obrigou a repousar um pouco na barraca.

Por pouco tempo. Às 4h30 me arrestei de volta através da névoa que cobria os acampamentos. Com um pouco de atraso acumulado dos shows e trocas, a última banda da noite finalmente subia no Palco dos Guerreiros. Kiai é um trio jazzístico instrumental de Rio Grande (RS) que vinha sendo destaque em festival após festival menor em seu estado, incluindo o Pira Rural, o Festival Porto-Alegrense de Bandas Instrumentais e o International Jazz Day Pelotas. Na meia hora que restou a eles, fizeram 3 das longas composições que fazem parte do álbum duplo Além, que estavam lançando bem naquele dia. Cheguei tarde para a primeira, “A Sala”, mas peguei “Maloca”, dominada pelo piano tão lírico quanto espacial de Marcelo Vaz, sobre as meditações rítmicas do baterista Lucas Fê, e passando por um solo de baixo com um pouco de canto scat, os dois por Dionísio Souza. O público já estava um pouco mais espaçado por conta do horário avançado, mas as centenas de pessoas que restavam estavam vidradas. Apresentados os integrantes, seguiram para “Há Tempos”, bem sincopada, especialmente na bateria claramente de jazz mas muito brasileira de Lucas. Ao contrário do que geralmente impressiona nesse instrumento, ele se destaca pela leveza, com uma inventividade e ritmos sem fim que atingem quem ouve em cheio mesmo poucas vezes fazendo um barulho enorme. Nessa terceira música Marcelo se desdobrou entre o piano e a escaleta, até que a serenidade dançante do início deu lugar a uma tensão latente entre as teclas, cordas e baquetas, culminando na encenação de um bate-boca entre os instrumentos, junto com as vozes dos três discutindo sem palavras. Mas rapidamente os elementos musicais fizeram teatralmente as pazes e seguiram em conexão até desembocarem num solo de bateria. Para a saideira, entrou de repente a vocalista convidada Paola Kirst, da mesma cidade e para quem o grupo também toca regularmente como banda de apoio. Sobre um instrumental dispersivo e sério, ela recitou um poema pesadíssimo em primeira pessoa em que uma mulher que sofreu violência psicológica e física do companheiro reúne forças, levanta a voz e o abandona. Com mais carga emocional ainda, Paola reinventou o mesmo poema como letra, enquanto os instrumentos seguiam a fúria dolorida dos vocais em embalos rápidos e cada vez mais caóticos, até culminar no final apocalíptico com um grito visceral de libertação. O público de olhos esbugalhados tentou o bis o quanto pode, mas tinha dado o horário. As primeiras seis bandas oficiais, todas inéditas no festival, já tinham feito sua parte para que ninguém acordasse no segundo dia de Psicodália sendo a mesma pessoa que tinha chegado.

 

Texto por Caio Rocha – Rádio Putzgrila

 

Agradecimentos: Fernando Johnny, Karen Garbo, Katherini Coelho, Laís Escher, Leonardo Irazoqui, Matheus Godoy, Óli Caetano e todo mundo que fez parte do festival.

 

Fotos do acervo oficial do Psicodália 2018, por Gabriela Moreno, José Tramontin e Nicolas Pedrozo Salazar.

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