Cobertura Psicodália 2013 – 4º Dia

banda xispa divina - cobertura rádio putzgrila
Confraria da Costa na hora da virada do ano no Psicodália

O dia 31/12/2012 no Psicodália começou da mesma forma que os anteriores, com o sol aparecendo lá pelas 10 da manhã pra tirar todo mundo das barracas e logo depois voltando a dar lugar a chuvas fracas e médias. A diferença é que dessa vez o momento mais aguardado do dia não era o show de alguma lenda viva da música nacional com décadas de história, e sim o próprio ano novo de 2013. Mas é claro que a virada prometia vir acompanhada de várias horas de música ao vivo tocada por algumas das melhores bandas de rock (e afins) que as cenas independentes desse lado do mundo tinham a oferecer.

Franco Lazzari, guitarrista da Xispa Divina, primeira banda do último dia do ano

A primeira delas foi a Xispa Divina, eles próprios organizadores de um outro importante festival de rock na região sul, o Pira Rural, realizado sempre no feriado da Páscoa no interior do Rio Grande do Sul, de onde a banda é originária. Franco Lazzari (guitarra e vocais principais), Marcelo Tuito (teclado e vocais secundários), Graziano Fhio (baixo e vocais secundários) e Tiago Samambaia (bateria e vocais secundários) definem seu som como “rock ruradélico”, uma harmoniosa combinação da tranquilidade e maior contato com a natureza da vida no campo com as viagens sonoras do rock psicodélico – mistura presente desde as letras e arranjos até o vestuário dos músicos. Com 2 discos lançados (“Xispa Divina” de 2007 e “Dutardi” de 2010) mas vindo pela primeira vez ao festival, a Xispa foi a escolha ideal pra começar o dia, e o público claramente se identificou com o som e as ideias, tanto nas canções mais rurais, como a bucólica mas animada “Vou Morar no Mato”, quanto nas mais eletrizantes e alucinadas como “Divinorum” e “Estamira”, na qual o tecladista encarna a misteriosa “mulher ruim mas sem perversidade” que dá nome à música. Contrariando que muitas bandas têm de jogar 2 ou 3 CDs para o público, eles demonstraram mais uma vez sua personalidade e raízes ao arremessar fumo de corda aos expectadores.

 

Logo depois veio o Plexo Solar, banda curitibana bastante jovem formada por Matheus Godoy (guitarra, violão e vocais), Alexandre Provensi (baixo e vocais), Marcelo Liberato (bateria e vocais) e Leonardo Montenegro (guitarra). Eles também eram estreantes no Dália e até o momento tinham apenas um EP – “Desaprendendo”, 2012 – lançado, mas já contavam com um amplo repertório de composições próprias ao mesmo tempo muito simples e sofisticadas. Uma grande quantidade de influências de primeira linha, mas geralmente pouco lembradas pelas bandas atuais, pode ser notada em cada uma das memoráveis canções da banda. A maioria tem uma base de blues, não muito rápida nem pesada, evocando o período urbano inicial do gênero, sobre a qual a letra é cantada com belas harmonias vocais que lembram tanto os gênios do pop rock de meados dos anos 60 como The Beach Boys e The Zombies quanto o rock de raiz do final da década de gente como Crosby, Stills & Nash e The Band, com uma guitarra circula pelo blues da base e pelo country-rock dos The Flying Burrito Brothers. Algumas vezes dá pra notar também um tempero do lado “preguiçoso” do jazz tradicional, do colorido do começo d’Os Mutantes. Foi um show riquíssimo e surpreendente, mas por não ser particularmente dançante ou viajante, a resposta do público foi mais discreta.

 

Pra fechar o Palco do Sol, vieram ainda os porto-alegrenses do Quarto Sensorial, um trio instrumental. Assim como a Xispa Divina, eles haviam sido descobertos por “olheiros” do Psicodália presentes na edição mais recente do Morrostock, no Rio Grande do Sul. A banda já conta com um EP auto-intitulado lançado em 2009 e um álbum completo (“A+B”, 2012). Eles fazem um som bastante metálico, com um pé no progressivo mas dispostos a se aventurar por vários campos, do metal ao samba e do jazz ao post-rock. A bateria de Martin Estevez dita os ritmos (sempre variantes) enquanto o baixo de Bruno Vargas a auxilia mas também atua frequentemente como instrumento melódico (inclusive com vários solos), e a guitarra de Carlos Ferreira abusa de efeitos, soando como um teclado, uma cuíca, um robô, um sax, um extraterrestre, e de vez em quando até como guitarra. O público se empolgou com o virtuosismo dos três.

 

No final da tarde, tivemos o tradicional intervalo entre os shows do Palco do Sol e os do Principal, e eu estava sentado num banco bem entre os dois quando passou na minha frente um bloco de rua espontâneo animadíssimo, composto por umas vinte pessoas exibindo garrafas de vidro transparente e entoando gritos de guerra (ou de paz?) etílicos. Eles se autodenominavam “Cachaçadália”, e eu aproveitei a oportunidade pra capturar alguns segundos do acontecimento em fita. Ouça aqui: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/cacha-ad-lia

 

Não muito depois chegou a hora das atividades no Palco Principal, em frente à grande extensão de lama que tantas chuvas e pés tinham produzido. João Lopes chamou todo mundo assim mesmo, e aos poucos foi amplamente atendido. Ele canta, toca violão e gaita de boca, e veio acompanhado de uma senhora banda de apoio formada por Charlie Thompson e Jordi Moro nas guitarras, Gerson Marçal no baixo, Claudio Thompson na bateria, sua companheira Carmen Carolina Lupion Lopes nos backing vocals, e o filho dela, Cyro Lupion, no violão e backing vocals. Com uma sonoridade tranquila e orgânica que lembra igualmente o folk-rock norte-americano, o lado country dos Rolling Stones e o rock rural brasileiro, João emocionou a todos com suas canções sinceras sobre as dificuldades que interioranos enfrentam ao se mudarem para cidades grandes, a estrada, a natureza e o orgulho de ter cabelo comprido. Apesar de algumas de suas composições já serem verdadeiros clássicos (ao menos em seu estado), como “Bicho do Paraná” e “Pé Vermelho”, ele fez também algumas releituras muito bem escolhidas e executadas: a filosófica e promíscua “Medo da Chuva” do Raulzito, o eterno hino pacifista “Blowin’ in the Wind” de Bob Dylan (durante a qual Lopes dispensou a banda), e os clássicos stoneanos “You Can’t Always Get What You Want” (com um arranjo novo mais rural e Carmen tomando a frente) e “Dead Flowers” – que se encaixou perfeitamente sem muitas mudanças. No final do show já havia milhares de pessoas assistindo, e assim que acabou eu dei uma corrida até os camarins e consegui gravar uma breve entrevista com o simpático músico paranaense. Ouça aqui: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/entrevista-jo-o-lopes

 

Voltei ao pé do palco bem a tempo de ver o trio instrumental porto-alegrense Sopro Cósmico ser erroneamente apresentado como um quarteto. Mas tudo bem, logo em seguida eles começaram o show e ninguém mais tinha como se lembrar daquele detalhe. Abriram com uma reinterpretação matadora do tema do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. A multidão enlouqueceu logo de cara. Em seguida, partiram para suas músicas próprias, que levam nomes como “Nuvem Vegetal” e “Crazy Factory” e várias vezes passam da marca de 10 minutos sem deixar o expectador piscar. Marcio Erdmann toca uma bateria jazzística e extremamente energética, algo entre Gene Krupa e Keith Moon, sempre mantendo contato visual com o tecladista Max Sudbrack, o que garante uma intermusicalidade inacreditável entre os dois. Max toca todas as linhas de baixo com uma mão só no teclado (a exemplo de Ray Manzarek, dos Doors), ao mesmo tempo em que conduz as melodias com a outra mão nos outros dois teclados. E sempre que apropriado, o próprio “soprador cósmico”, Maurício Oliveira, entra com seu sax ou flauta transversal incendiários. O produto final tem momentos de puro jazz de primeira categoria, fusion nervoso, rock progressivo do mais bem acabado, psicodelia total do espaço sideral e toques de música erudita. A virtuosidade de cada um dos três só era superada pela imensa expressividade de cada movimento nos instrumentos. Pouquíssimas pessoas ali já conheciam a banda, visto que eles eram estreantes, não tinham qualquer material lançado e, na ocasião em que havia sido descoberta pela equipe do Psicodália, no Morrostock de 2012, o show tinha sido às 6 da manhã e grande maioria já tinha ido dormir. Ainda assim, a empolgação da galera foi generalizada e crescente conforme o show progredia, deixam poucas dúvidas de que o Sopro Cósmico foi a grande revelação dessa edição do festival. Ironicamente, foi justamente a única banda privada de tocar o bis, apesar da insistência dos gritos e aplausos, pois já era quase meia-noite.

Confraria da Costa fazendo a trilha sonora dos primeiros momentos de 2013

As honras de coordenar a contagem regressiva couberam à Confraria da Costa. Enfim deu a hora, uma garrafa de champanhe estourou no palco e algumas dúzias na multidão, enquanto modestos mas admiráveis fogos de artifício surgiram no céu e todos se abraçaram, naquela que deve ter sido a virada mais rock’n’roll e alto astral do Brasil. E então começou o primeiríssimo show do ano. A Confraria é a banda mais clássica do Psicodália, tendo participado de todas as edições – até 2009 sob o nome de Gato Preto. De Curitiba, conta com Ivan Halfon (vocais, flauta transversal e violão), Marcello Stancati (guitarra e bandolim), Jan Kossobudzki (violino), Luiz Pantaleoni (baixo) e Abdul Osiecki (bateria), que juntos fazem “o autêntico rock & roll do século XVI”, uma mistura de música cigana das Bálcãs com o experimentalismo gutural de Tom Waits e um pouco do progressivo baseado em flauta e guitarra do Jethro Tull, munidos de trajes e maioria das letras com temas piratas inteligentes e bem humorados. Os 2 álbuns de estúdio da banda, “Confraira da Costa” (2009) e “Canções de Assassinato” (2012) trazem músicas como “Certamente a Mente Mente”, “Canção dos Piratas” e “Preparar… Apontar… Fogo!”, que foram cantadas junto por metade dos expectadores e dançadas intensamente aos pulos por quase todos. O bando de piratas roqueiros vem se consolidando como a maior aposta do festival, dentre as bandas independentes “novas”, e não sem razão. Além de estarem juntos desde o início, eles têm um lado lúdico importante, músicas bem feitas e bem dançantes, e um estilo de som original que resiste a classificações pré-existentes, apesar de ter elementos em comum com a Bandinha Di Dá Dó e a Terra Celta, (também inovadoras e crescentes dentro e fora do festival), e com os estreantes Transtornados do Ritmo Antigo. Não houve quem não aprovasse essa introdução ébria e navegante de 2013.

David Barros, guitarrista do Cadillac Dinossauros fundindo funk e rock na madrugada psicodálica

Fechando o Palco Principal, teve ainda a Cadillac Dinossauros, um power trio de Ponta Grossa, que já tinha tocado como parte da banda de apoio de Klaus Eira duas noites antes e agora retornava com seu próprio material. Billy Joe na bateria, Hugo Alex no baixo e David Barros na guitarra e vocais fazem um funk setentista de primeiríssima, com longos grooves recheados do hard rock cru da mesma época. Pra completar, David canta ótimas letras satíricas e desbocadas, à la Frank Zappa. Mais um show extremamente pulsante do trio paranaense, que já se apresentara 4 vezes como trio no festival (e também acompanhara Klaus Eira na edição anterior), e que tem 2 álbuns de estúdio: “Cadillac Dinossauros” de 2006 e “Ser Absurdo” de 2008.

 

Pra encerrar de vez essa grande noite, o Palco dos Guerreiros recebeu La Montaña Gris, uma exótica banda colombiana (a única estrangeira dessa edição) de música celta “e fantástica”, com mais de 10 anos de estrada. Eles prometiam muito, mas infelizmente o cansaço me venceu logo no início do show e acabei voltando pra minha barraca com eles mandando o clássico tradicional irlandês “Whiskey in the Jar” de fundo.

 

 

Texto: Caio Rocha
Edição por Patrícia Trombini
Fotos por Eder Capobianco (http://www.flickr.com/photos/antimidia & eder.capobianco@gmail.com)

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One Thought to “Cobertura Psicodália 2013 – 4º Dia”

  1. João Lopes

    Valeeeu Caio, adorei sua matéria, ficou bem bacana, parabéns! No próximo Psico – Festival estaremos juntos novamente.
    Obrigado irmão, um abraço !

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