Cobertura Psicodália 2013 – 3º Dia

Os Mutantes – formação original do disco “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, reunida no palco do Psicodália

Ao acordar no dia 30/12/2012, minha primeira providência foi descobrir quando seria a coletiva de imprensa com a banda mais lendária do rock brasileiro e consequentemente a mais esperada do festival, Os Mutantes. Depois da passagem de som, lá pelo meio da tarde. Certo, agora eu já podia terminar de acordar, comer alguma e ir me encaminhando pro Palco do Sol (apesar de já estacar começando a chover de novo) pra pegar os primeiros shows do dia.

A primeira banda da tarde foi uma das que tinha vindo de mais longe, o Quarto Astral, de Recife, Pernambuco. Trata-se de um power trio formado por Thiago Brandão (guitarra e vocais principais), Bruno Brandão (baixo e vocais de apoio) e Emmanuel Bilisca (bateria), que se define como “rock & roll, psicodelia e progressivismo”, especialmente os dois primeiros, já que eles têm muito a ver com os primeiros power trios de meados dos anos 60, como Cream e The Jimi Hendrix Experience (chegando a tocar uma desses), um som altamente viajante e dado a improvisações, mas em geral bem pegado e consistente, com muita presença e força dos três instrumentos, ainda que com algum destaque da guitarra, quase inevitável nesse estilo. As raízes no blues estão lá, só um pouco menos escancaradas que em seus antecessores britânicos. As composições em português contam com belos vocais psicodélicos, riffs hard e bastante espaço pra passeios intergalácticos. As roupas coloridas e postura quase solene dos três músicos também contribuem para o espetáculo. Não é à toa que eles eram provavelmente a única banda jovem dessa edição a já ter não apenas um álbum, mas um DVD ao vivo lançado, “Árvore”, de 2012. O público vibrou intensamente logo cedo – ainda eram 3 da tarde.

Bruno Brandão, baixista do Quarto Astral, abrindo o terceiro dia de shows

 

Em seguida foi a vez dos curitibanos da Black Cherry. Allan Giller Branco no baixo, Ian Giller Branco na bateria, Ruan Castro na guitarra e Sarará numa segunda bateria formada por outros instrumentos percussivos fazem uma espécie de jazz-rock instrumental afiado e cheio de groove. As duas baterias, de sonoridade bem aberta, ditam a música, deixando o baixo e a guitarra soltos pra improvisarem por cima. Um show bem pulsante que pôs todo mundo pra dançar. Infelizmente não pude acompanhar esse até o fim pois já se aproximava a hora da coletiva.

 

Saindo da passagem de som a cortinas fechadas no Palco Principal, Sérgio Dias e sua antiga trupe do meio dos anos 70 – o baterista Rui Motta, o tecladista Túlio Mourão e o baixista Antônio Pedro de Medeiros – tiraram algumas fotos com o pessoal da organização do festival e (outros) fãs, assinaram LPs do clássico “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, e enfim começaram as breves entrevistas, das quais participaram representantes da Galeria do Rock, Coluna de Blues e Rock, Nóia Fanzine, do próprio festival, e eu pela Putz. Fui autorizado a gravar tudo e aqui está: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/coletiva-com-os-mutantes-no , diretamente do meu gravador de fita cassete, sem cortes e com a terceira atração da tarde, a banda do blueseiro curitibano Davi Henn tocando ao fundo.

 

Aliás, Davi Henn é outro músico clássico do Psicodália, que na edição anterior tinha feito um show no final da madrugada, completamente sozinho no palco; cantando e tocando kazoo com a boca, guitarra com as mãos e instrumentos de percussão com os pés, no maior estilo do blues rural recém-eletrificado, com fraseado magistralmente adaptado pra nossa língua nas composições em português. Naquela ocasião, o show tinha sido gravado e mais tarde transformado no álbum “Despacho”, que ele vinha agora lançar. Porém, dessa vez Henn veio acompanhado de Newmar Brostulin no teclado, Aurélio Baran no violão de 12 cordas, Felipe França na washboard e Guilherme Neves no baixo. Por eu estar o tempo todo uns 20 metros atrás do palco, esperando e depois participando da coletiva, não tive nenhum relance do show, mas só pelo que pude escutar dali, arrisco dizer que o show foi quente.

 

Era a hora do intervalo entre as atividades no Palco do Sol e as no Palco Principal, mas a música não podia parar. Na tenda perto da praça de alimentação já tinha se juntado mais de uma dúzia de músicos espontâneos de todas as origens para mais uma inspirada jam session, de3ssa vez tendendo pro funk setentista no melhor estilo Funkadelic, graças à presença de um baixo elétrico e uma mini bateria, além do mar de violões e diversos instrumentos de sopro e percussão. Encontrei lá o pessoal do Quarto Astral, curtindo e participando da festa sonora, e quando o baterista Emmanuel Bilisca passou adiante as baquetas, aproveitei pra gravar uma pequena entrevista exclusiva com eles – que ainda contou com a participação do baixista da Rinoceronte, Vinícius Brum, ao final. Ouça aqui, com a jam rolando ao fundo: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/entrevista-com-quarto-astral

 

Ainda era dia quando Leandro Lopes e a Gaita Mágica subiram no Palco Principal. A lama estava o mais grudenta possível, mas isso em nada atrapalhou o grande show das antigas do harmonicista curitibano e sua banda, formada por Hermann Ruthes na guitarra, Luiz Panteleone no baixo, Guilherme Franco nos teclados, André Nigro na bateria, Raul Alvez no trombone e Cleber Cardoso no trompete, praticamente uma “mini big band” que ia do traditional jazz ao blues urbano pré-Muddy Waters, passando por boogie-woogie e até bolero, resultando num ambiente vintage bem animado, a própria “good time music”, ligeiramente modernizada e sem dizer uma única palavra – chegou a subir ao palco uma vocalista convidada, Michele Mara, mas ela fez de sua voz mais um instrumento. Leandro e companhia já tinham participado da edição de carnaval 2012 e têm um álbum homônimo lançado.

Leandro Lopes e sua Gaita Mágica, reestreando o Palco Principal

 

Em seguida, veio a Banda Gentileza, também curitibana. Eles fazem um som bem original e ousado, que incorpora ao rock elementos dos mais variados estilos musicais, do funk carioca á valsa, com muito bom humor. Além dos instrumentos típicos do rock, eles contam com outros como violino e trompete. Confesso que acabei não dando a eles a devida atenção, sabendo o que nos aguardava a seguir…

 

E enfim chegou a hora. A maior multidão do festival aguardava tensa quando os panos se abriram e surgiu Sérgio Dias, em um longo manto branco e empunhando sua guitarra como um sacerdote espacial, cercado por Túlio Mourão nos teclados, Antônio Pedro de Medeiros no baixo e Rui Motta na bateria – a formação completa d’Os Mutantes reunida no palco pela primeiríssima vez em trinta e tantos anos pra reviver o lendário álbum “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, por eles gravado em 1974. Como não poderia deixar de ser, começaram do começo: “Deixe Entrar Um Pouco D’Água No Quintal”, que abre o disco. O público mal pode se conter. Seguiram então pra segunda faixa, a instrumental “Pitágoras”, que teve direito a improvisações espontâneas extras. Na próxima, “Desanuviar”, Sérgio tocou até uma exótica cítara elétrica. Quando chegou a hora da dançante “Eu Só Penso Em Te Ajudar”, parecia que cada uma das milhares de pessoas presentes cantava junto com a banda a plenos pulmões, mas pra minha surpresa a empolgação geral ainda aumentou com “Cidadão Da Terra”, que veio na sequência, música essa que a partir desse momento passou a ser um dos hinos dessa edição do festival. Se foram os nobres senhores no palco que provocaram tanta euforia na jovem multidão, eles também foram contaminados de volta com essa energia, como ficou claro no crescendo de “O Contrário Do Nada É Nada” e da blueseira faixa-título que encerra o álbum. Mas Sérgio e seus comparsas ainda tinham muita lenha pra queimar. Exploraram canções da segunda metade dos anos 70, como “Cavaleiros Negros”, gravada com muitos dos mesmos músicos. E então tentaram se despedir pela primeira vez, obviamente sem sucesso. Retornaram para o bis com belas interpretações de duas das composições mais introspectivas da fase progressiva da banda, “Balada Do Amigo” e “Anjos Do Sul”. E deixaram o palco novamente. Todas as demais bandas do festival tinham tido direito a voltar uma única vez, mas lógica não se aplica à maior banda de rock do país, e tampouco abalou o público que simplesmente ainda não se dera por satisfeito. No histórico segundo bis, a banda apostou na sequência final e mais intensa do álbum celebrado, “Cidadão Da Terra”, “O Contrário Do Nada É Nada” e “Tudo Foi Feito Pelo Sol”. Mas não se tratou de reprise dos melhores momentos. Sem terem combinado nada, Sérgio e seus cantores de apoio simplesmente não abriram a boca, deixando todas as letras por conta dos fãs, que não hesitaram por um segundo sequer, como pode ser sentido nesse pequeno trecho gravado no calor do momento: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/trecho-de-cidad-o-da-terra-no Depois disso muitos ainda tentaram chamá-los de volta uma terceira vez, mas era inegável que a missão estava cumprida.

 

Poucos minutos depois foi a vez da Bandinha Di Dá Dó, formada por Zé Docinho na bateria, Teimoso Teimosia no baixo, Palhaço Invisível na guitarra e Palhaço Cotoco nos vocais principais, acordeom e mini Korg – todos palhaços. De Porto Alegre a banda já tradicional no festival veio defendendo o primeiro álbum completo, “It’s A Clown Music!”, lançado em 2012. Eles fazem um som irresistivelmente dançante, enraizado no ritmo saltitante originário das Bálcãs (leste europeu), acrescido da energia mais moderna do hardcore, com toques de valsa, psicodelia e música circense, tudo isso com letras irreverentes e muito cantáveis repletas de humor, rebeldia e nonsense. Mas nesse caso a música em si é apenas uma parte do espetáculo, ao lado das performances dos quatro integrantes e da profunda interatividade com o público. Por exemplo, no meio de uma passagem instrumental mais lenta e triste, o baterista Zé Docinho desatou a chorar e terminou a música aos berros. Mais tarde, capricharam em uma improvisação tipicamente progressiva apenas para pararem depois de 5 minutos e anunciarem que “progressivo tem todo dia”, portanto era hora de “clown music”, era hora de “Tudo Foi Feito Pelo Clown”. Em outro momento começaram “Portugal De Navio”, até que se lembraram que já tinha sido a vez d’Os Mutantes, e prosseguiram com a própria “Refamiliarada”, que tem uma levada parecida e durante a qual o Palhaço Cotoco tradicionalmente se joga sobre a multidão – só que havia um espaço de uns 3 metros entre o fim do palco e a gradinha que continha o público. O problema foi facilmente resolvido pelo aparecimento de uma escada de madeira gigantesca, sobra a qual o vocalista se equilibrou pra chegar até as pessoas para seu longo mergulho. Em outra situação, Teimoso Teimosia, muito empolgado com seu solo, “teimou” em destruir seu baixo, precisando ser agarrado pelos outros três. Tudo isso intercalado com longas danças eufóricas tanto instintivas quanto com coreografias criativas coordenadas pelo maestro Cotoco – antes do show aqueles que já conheciam a banda tinha tido o cuidado de tirar as latinhas amassadas da lama, assim evitando muitos ferimentos. No fim, se despediram com uma composição especial pra ocasião chamada “Gostaríamos De Lhe Agradecer”, uma sincera retribuição ao caloroso público do Psicodália. Mas é claro que ainda teve o bis, com as também performáticas apresentações dos músicos, mais coreografias, e pra fechar a música-tema do grupo.

Palhaço Cotoco no acordeom e Teimoso Teimosia no baixo – metade da Bandinha Di Dá Dó em ação

 

Chegada a hora de passar as atividades musicais para o Palco dos Guerreiros, dentro do mais acolhedor Saloon, a festa continuou com os Pallets, provenientes de São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Eles mandam um rock’n’roll sujo e sincero, sempre pegado, seja ilustrando a violência na cidade deles ou adaptando para o português “I’m Going Home”, que o Ten Years After tocou no Woodstock. O som dos caras não deixava nada a desejar, mas por alguma razão tive o impulso de deixar o recinto e dar uma olhada no que mais se passava na parte central da fazenda.

 

Pela primeira vez, uma gloriosa lua cheia dava as caras entre as nuvens. Segui mais um pouco entre estranhos conversando animadamente com outros estranhos pelas ruas e entrei na praça de alimentação. Pra minha surpresa, ela estava bem cheia àquela hora da madrugada, mas quase ninguém comia ou bebia. Pessoas ocupavam muitas mesas e batucavam nelas em uníssono, com uma intensidade e um ritmo quase ritual. Impressionado e me dando por satisfeito com esse achado, dei meia volta em direção ao show, apenas pra notar que na rua tinha se formado um grande círculo de gente que pedia “senta! senta!”. Cheguei mais perto e vi uma cadeira vazia no meio. Num dado momento alguém do círculo entrou e sentou-se, sendo imediatamente aplaudido de pé por todos os demais. A pessoa se levantou e voltou a pedir “senta! senta!” no círculo com o resto, até que outra tomasse a iniciativa, e assim ia. Pode parecer incrível, mas a brincadeira fazia perfeito sentido para todos os presentes e era muito divertida. Foi nesse ambiente que entrou a última banda da noite no Saloon, uma bandinha tradicional alemã Max Jakusch, completa com metais, tambor e todos os músicos em traje tirolês. A princípio soa deslocada uma banda dessas num festival de rock, mas com todo o clima especial que se formara naquela noite, e já próximo do nascer do sol, eles pareciam mais um elemento surreal, vindo para completar a noite mais louca dessa edição do Psicodália.

 

Texto: Caio Rocha
Fotos por Eder Capobianco (http://www.flickr.com/photos/antimidia e eder.capobianco@gmail.com)

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