Cobertura Psicodália 2013 – 2º Dia

Cozinha comunitária do Psicodália

Um dos melhores momentos do Psicodália é sempre a manhã do segundo dia. Manhã, porque por mais acabado que você esteja da primeira noite, o sol transforma todas as barracas em fornos pouco depois das 10 horas, você acorda e não tem como continuar lá dentro, então você sai e todo o sono, calor, cansaço e mal humor desaparecem instantaneamente porque você se dá conta que o mundo é um lugar bonito povoado por pessoas gentis e regido por boa música. Bom, pelo menos a Fazendo Evaristo naqueles dias, mas naquele momento, isso é tudo que importa. O dia 29/12/2012 começou mais uma vez exatamente assim pra mim, e fui logo dar meu mergulho medicinal no lago da fazenda, me alimentei e sai pra ver o que estava acontecendo antes dos shows da tarde. Saindo da praça de alimentação avistei uma tenda grande (já recomeçara a chover) com umas duas dúzias de pessoas em círculo. Não era a oficina de yoga, e sim uma enorme jam session espontânea, da qual participavam principalmente gente que não tinha sido contratada pra tocar no festival, improvisando em temas tão diversos quanto “The Dark Side of the Moon”, “Asa Branca” e “Tim Maia Racional”. Em certo momento eu contei 6 violões, 1 cello, 1 cítara, 2 clarinetes, 1 didgeridoo, 1 bateria quase completa e diversos instrumentos de percussão, além de umas 10 pessoas batendo palma no ritmo e ajudando a cantar. Acabei ficando um bom tempo ali enquanto dúzias de músicos anônimos iam e vinham, com a mesma inspiração.

Até que chegou a hora do primeiro show oficial no Palco do Sol, que apesar do nome era prudentemente provido um gramado inclinado (pra não acumular água) e uma cobertura grande o bastante pra várias centenas de pessoas ficarem confortavelmente de sentadas, deitadas ou em pé. E quem abriu foi a banda de rock instrumental curitibana Cabeçote. Existentes há pouco mais de um ano, eles já tinham um repertório e tanto de composições próprias viajantes, muitas vezes com uma inclinação progressiva, sobretudo bem orgânicas, nas quais dominam o teclado de Loren Dabaghi, a guitarra de Giuliano Bompeixe e a flauta (e às vezes violão) de Lucas Lero, sempre apoiados pela cozinha leve mas firme de Guilherme Neves no baixo e Lucas Deniuei na bateria. Enquanto escrevo, eles ainda não têm um disco, mas tive a sorte de conseguir fazer uma gravação boa (pra gravador de cassete no meio da galera…) de uma das músicas tocadas no show, que dá uma ideia melhor do baita som pouco usual dos caras. Se me obrigarem a comparar com algo mais conhecido, lembra um pouco um Terreno Baldio instrumental não tão sinfônico. Ouça aqui: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/cabe-ote-culin-ria

Giuliano Bompeixe, guitarrista do Cabeçote, no show que abriu o Palco do Sol

Na sequência, veio outra banda de Curitiba, ainda mais nova e com alguns integrantes em comum. Deniuei na bateria e vocais e Lero na flauta e vocais, acrescidos de Roger Bortoli no baixo, Newmar Brostulim nos teclados e vocais, Aurelio Baran na guitarra e violão de 12 cordas e Bruna Richter nos vocais principais formam o Velho Bandido. Mas em termos de som, lembrava pouco a anterior. Havia uma ou outra canção mais progressiva que teria feito sentido no show do Cabeçote, tirando os vocais, mas na maioria eram composições não tão pensantes e bem mais dançantes, um pouco parecido com um Big Brother & The Holding Company na combinação de psicodelia ensolarada e soul agitado, com a instrumentação pegada e viajante se contrapondo à voz poderosa de Bruna. Levou ainda mais gente pra frente do palco e fez muitos levantarem e dançarem, sem ligarem pra chuva que apertava.

Bruna Richter, vocalista principal do Velho Bandido, no segundo show da tarde

Fechando a tarde no Palco do Sol vieram os porto-alegrenses da Dingo Bells, que já haviam estreado na edição de Carnaval de 2012 e vinham agora enriquecidos pelo guitarrista convidado Ricardo Fischmann, em traje completo de Sgt. Pepper. O trio oficial consiste de Felipe Kautz no baixo, Diogo Brochmann na guitarra e Rodrigo Fischmann na bateria (e todos também nos vocais), mas isso em teoria, já que nenhum deles aguenta ficar o show inteiro no mesmo instrumento, vivem trocando. Com um álbum (homônimo) lançado em 2010 e tocando pela segunda vez seguida no festival, eles já eram conhecidos de bastante gente, e não fizeram feio com seu rock artístico (mas nunca pretensioso demais), misturando arranjos entre a psicodelia tropicalista e nuances de glam rock setentista, com letras irônicas, backing vocals pop sessentistas e soul (principalmente quando Rodrigo soltava seu vozeirão). Além das canções do disco e algumas inéditas, tocaram o poema “Triste Bahia” de Gregório Mattos, originalmente musicado por Caetano Veloso, em homenagem à mãe dele, Dona Carnô, que falecera poucos dias antes aos 105 anos.

Dingo Bells, terceira banda do dia

Depois do pequeno intervalo pra janta, o som recomeçou no Palco Principal ao cair da tarde com Os Transtornados do Ritmo Antigo, mais uma estreante de Curitiba (a cento e poucos quilômetros dali e lar dos organizadores), que apresenta a peculiar formação de André Ribeiro na bandola portuguesa e banjo, Fred Paegle no violino, Toshiro no violoncelo e baixo acústico, Rafael Silveira no trompete e Mateus Azevedo na bateria. A maioria deles também canta, mas os vocais principais são de Silveira. Suas influências mais aparentes incluem jazz cigano, a ritmo saltitante das Bálcãs, música de câmara e punk rock, tudo bem misturado e servido com letras malucas e instrumentais de nomes engraçados como “Proibido Usar Chapéu”. Só mesmo no Psicodália uma combinação tão esdrúxula poderia soar familiar. O resultado final lembra bastante o estilo inusitado e pulsante (como um todo, ainda sem nome) de 3 bandas já tradicionais do Dália: Confraria da Costa, Bandinha Di Dá Dó e Terra Celta, a todos os quais ainda chegaremos. Porém é necessário ressaltar que esse novo estilo baseado em “ritmos antigos”, apesar de reconhecível é bem amplo e permite aos Transtornados uma identidade própria, particularmente sendo mais jazzísticos que os 3 grupos mais velhos e recusando um tema pra banda.

Em seguida veio o veterano Klaus Eira, um dos tais organizadores, que já passou (na história do festival) pelo RoberSouTheValsa, Castanhedas e O Conto, e desde a edição anterior se apresenta em carreira solo. O que não quer dizer que ele tenha ficado sozinho no palco, muito pelo contrário, o acompanhava uma banda inteira, o trio Cadillac Dinossauros (Hugo Alex no baixo, Billy Joy na bateria e Davi Barros na guitarra) que ainda tocariam só os três duas noites depois, e mais o tecladista do Velho Bandido Newmar Brostulim. Aliás, o teclado dele teve algum problema logo antes de começar e tivemos que esperar alguns minutos até que a Loren do Cabeçote nos socorreu a todos emprestando o dela. Mas Klaus e seus comparsas mais que compensaram o tempo perdido, mandando um rock & roll incendiário, equilibrado entre a guitarra potente, os vocais bem colocados e o ocasional trompete ou flauta de Eira e o groove mantido pela banda de apoio. Pra se ter uma ideia, ele batizou o show de “A Insanidade”. Foi um senhor aquecimento para o que estava por vir…

O baixista Hugo Alex e o tecladista Newmar Brostulim, parte da banda de apoio de Klaus Eira

Então subiu ao palco a última grande atração a ser confirmada, nada menos que Alceu Valença. No alto dos seus 66 anos, como previamente anunciado ele viera revisitar sua obra-prima gravada ao vivo em 1976, o disco “VIVO!”, no qual ele foi pioneiro em combinar hard rock, psicodelia e ritmos mais tradicionais do seu nordeste como o baião. Dito e feito, ele e sua banda (na qual se destacavam a guitarra e bateria quase heavy metal e a flauta enlouquecida) chegaram até a aumentar a intensidade de alguns dos clássicos do álbum, como “Casamento da Raposa com o Rouxinol”, “Edipiana nº1” e “Papagaio do Futuro”, essa última com direito à introdução falada original. Alceu conquistou até quem inicialmente tinha ficado com o pé atrás, com medo que ele não fosse “roqueiro o bastante”. Mais do que isso, depois de terminadas as faixas do disco (e algumas do seguinte, “Espelho Cristalino”, de ’77) ele fechou com versões particularmente elétricas de alguns de seus maiores sucessos como “Anunciação” e “Tropicana”, e nem os seguranças, até então rigidamente postados entre o palco e o público, puderam deixar de dançar e cantar junto. Com a missão cumprida, ele deixou o palco (e a fazenda!) com a banda sozinha encerrando a última música.

Ainda no Palco Principal teve a já citada Terra Celta, de Londrina, vindo pela terceira vez (consecutiva) e segundo CD lançado. Suas canções soam quase todas como hinos bem humorados e falam sobre a infalível trindade de sexo, álcool e bizarrice, não necessariamente nessa ordem, em um ritmo animadíssimo entre a música celta e um rock simples, mas ornamentado por uma infinidade (26 nesse show) de instrumentos, a maioria tão estranhos quanto a “gaita de foles da Catalunha”, divididos entre os 6 integrantes no decorrer do show. A multidão pulou freneticamente sobre a lama lisa e grudenta que a essa altura tinha substituído o gramado em todo o espaço em frente ao palco.

Pra dar um merecido período de descanso pro lamaçal, o próximo show foi dentro do Saloon, no Palco dos Guerreiros. Eram os curitibanos do Goya, banda de rock instrumental com longa história no Psicodália (7 apresentações anteriores, tendo gravado o primeiro álbum ao vivo na de 2008). O ambiente era mais reservado por ser fechado e muita gente já ter voltado pras barracas ou partido para outras aventuras (já eram umas 4 da madrugada), mas quem ficou manteve a mesma empolgação que do lado de fora. E não era pra menos, a banda voltou a impressionar com suas composições progressivas/psicodélicas com toques de jazz e rock pesado, algumas bem longas mas nada cansativas. A presente formação conta com Lucas Deniuei na bateria, Newmar Brostulim no teclado (ambos no terceiro show do dia), André Luis Kniggia no baixo, Rodrigo Nickel no sax e flauta, e Alexandre Pagliosa na guitarra (outro dos organizadores do evento). No meio de uma das músicas eles citaram riffs de algumas das principais influências, como King Crimson (“21st Century Schizoid Man”) e Iron Butterfly (“In-A-Gadda-Da-Vida”), mas também é notável no som dos caras algo do experimentalismo europeu setentista da Canterbury Scene e o do Krautrock. Terminado o empolgante show, rolou um jam inspirada com vários dos integrantes somando forças com gente como o guitarrista blueseiro Davi Henn (do qual falaremos depois), a tecladista do Cabeçote Loren Dabaghi e um baita trombonista que não identifiquei.

Já era quase de manhã quando a última banda da noite subiu ao Palco dos Guerreiros. A Rocartê, de Porto Alegre, era estreante no festival, tendo sido descoberta pela organização durante o Morrostock de 2012, no qual o Goya e Klaus Eira também tocaram. Eles fazem um belo pop rock psicodélico com influência de grandes bandas brasileiras dos anos 60 e 70 como O Terço e Secos & Molhados. Admito que acabei não vendo eles dessa vez. Tinha que estar em boa forma no dia seguinte pra entrevistar e apreciar a atração mais aguardada dessa edição: Os Mutantes.

Texto: Caio Rocha
Edição por Patrícia Trombini. Fotos por Eder Capobianco (http://www.flickr.com/photos/antimidia & eder.capobianco@gmail.com).

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