Cobertura Psicodália 2013 – 1° Dia

Flávio Guimarães, gaitista dos Blues Etílicos durante o show no primeiro dia do Psicodália 2013

Fui esperar o ônibus da excursão cansado e encharcado. Eu tinha chegado de outra viagem só a tempo de refazer as malas e a chuva anunciada pra semana toda do festival já tinha nos achado em Porto Alegre. Naturalmente a saída atrasou e ficou todo mundo se entreolhando e tentando não molhar muito as bagagens, especialmente o pessoal da banda estreante Sopro Cósmico com todos seus instrumentos. Enfim partimos e as pessoas começaram a se conhecer, passar bebidas, fumar, cantar, rir, até que as malditas telinhas azuis se ligaram e começou aquela besteira do Avatar, o que cortou bem o clima de sociabilidade e início de festas, e a maioria acabou dormindo a maior parte do resto do trajeto. Excepcionalmente, o ônibus não deu nenhum único probleminha e chegamos à Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, na serra no norte de Santa Catarina no começo da tarde do dia 28/12.

Como por mágica, o tempo tinha melhorado ao nos aproximarmos, mas foi só entrar, descarregar e montar as barracas que a chuva nos alcançou. Claro que muita gente não teve a mesma sincronia. Legiões de pessoas chegavam sem parar com suas mochilas, olhando em volta, procurando o lugar ideal pra acampar, conhecidos, a primeira cerveja ou tentando descobrir o horário do primeiro show. Ele ainda ia demorar, mas já tinham coisas acontecendo: no Saloon (maior bar fechado, espaço multimídia e localização do Palco dos Guerreiros) começou um documentário sobre o longínquo e pequeno Psicodália de 2004. Não muito depois um poeta apareceu pra ler na tenda de teatro. Ele se apresentou como Romulo Narducci, poeta “tavernista” de São Gonçalo, o vizinho esquecido do Rio de Janeiro. Com versos crus e etílicos, influenciados especialmente por Allen Ginsberg, Charles Bukowski e Baudelaire (todos que ele também leu), me senti na obrigação de estrear o gravador de fita cassete ali. Deu nisso: https://soundcloud.com/caiorocharadioputzgrila/romulo-narducci-a-vida-d-i

A essa altura já tinha escurecido. Comi o primeiro de muitos “xis burgueres”, peguei mais uma bebida e fui me juntar à multidão em frente ao Palco Principal pro tão aguardado primeiro show: Vlad V (lê-se Vlad Quinto), veteranos do hard rock/progressivo de Santa Catarina (mais especificamente, Blumenau), na estrada há mais de 25 anos e agora de volta à formação power trio. Aliás, o primeiro de muitos power trios nessa edição do festival, e mesmo nessa primeira noite, mas sempre cada um com um estilo bem distinto. O Vlad, por exemplo, aposta no hard rock mais afiado dos anos 70, pouco orgânico mas bem cativante especialmente nos solos, riffs e refrões do frontman, fundador, vocalista, guitarrista e flautista Jean Carlo, apesar da cozinha (mais recente, formada por Klauss Pfiffer Tofanetto no baixo e Flavio Theilacker na bateria) também ser bem sólida. As composições, vindas dos já 7 álbuns lançados da banda, são em português, mas foram os 2 covers no final do show que as principais influências deles: Spirit of Radio, do Rush (mais nos vocais de Carlo, que lembram bastante os de Geddy Lee), e Immigrant Song, do Led Zeppelin (particularmente na guitarra “pageana”). Sem falar nos momentos em que ele trocava a guitarra pela flauta, instrumento que no rock sempre traz à mente Ian Anderson, do Jethro Tull. Enfim, foi uma abertura energética, repleta de referencias a grandes clássicos em composições fortes, que empolgaram tanto fãs de longa data quanto quem nunca tinha ouvido falar desses ilustres senhores catarinenses.

E então veio o segundo power trio da noite, bem mais jovem mas já também com algum reconhecimento a nível nacional: a Rinoceronte. Eles tinham feito sua estréia no Dália na edição anterior, no carnaval de 2012 (após terem sido descobertos por “olheiros” do festival presentes no Morrostock de 2011), e já tinham sido muito bem recebidos. Dessa vez o trio gaúcho (de Santa Maria) tocou várias das canções do já aclamado primeiro álbum completo (“Nasceu”, lançado em 2010), como o sucesso “Furacão”, e ainda adiantou algumas novas que devem sair próximo no trabalho dos caras, a ser gravado esse ano. É tudo hard rock estilo setentista com boas letras em português e ótimos arranjos, com presença equilibrada (e de peso) da bateria de Luiz Henrique, o baixo de Vinicius Brum e a guitarra de Paulo Noronha, que juntos criam um “groovezão” irresistível com influências do boogie rock do Grand Funk, do início do heavy metal (Sabbath), da parte mais pesada do rock psicodélico, do (mais recente) stoner rock e de toda a energia da idéia original de power trio. Novamente, foram muito aclamados e parece certo que vão se estabelecer como uma das bandas regulares do festival.

O baixista da Rinoceronte, Vinicius Brum, no segundo show do dia

Saindo de cena a Rinoceronte, chegou a hora da atração mais esperada do dia, com direito a apresentação por um dos organizadores do evento, que a descreveu como “sem dúvida o melhor blues do sul do mundo”. Ele se referia naturalmente aos Blues Etílicos, donos do título de principal banda de blues-rock brasileira provavelmente desde sua fundação em meados dos anos 80, que já abriram o show com um releitura eletrificada de um clássico do lendário Robert Johnson, “Walking Blues”. A multidão foi ao delírio com o riff hipnótico e os vocais impecáveis com sotaque sulista norte-americano e tudo, cortesia do guitarrista rítmico e vocalista principal Greg Wilson, natural dos EUA. Em seguida eles avançaram um pouco na história do blues até a fase já originalmente elétrica com outro standard do gênero, “Just a Little Bit”. Mas os Blues Etílicos nunca se contentaram apenas com versões de seus ídolos, afinal a principal razão pra eles mesmos terem se tornado ídolos de tanta gente são suas próprias composições, muitas das quais fazem jus ao nome da banda. E foi em duas delas que eles apostaram na sequência desse show antológico: “Terceiro Whisky” e “Cerveja”. É claro que o público, além de amante de boa música, em sua maioria já razoavelmente alcoolizado, não poderia ter respondido melhor. Detalhe que Wilson já está no Brasil há tempo o suficiente pra assumir a maior parte dos vocais também em português sem qualquer estranhamento. Mas a próxima foi uma instrumental (cujo nome desconheço), com destaque para o guitarrista principal Otávio Rocha. Depois veio o maior clássico próprio em inglês da banda, “Misty Mountain”, uma espécie de southern rock blueseiro, um pouco mais lento que a maioria das outras deles e no mesmo nível das melhores canções de grupos estadunidenses desse estilo. Voltaram aos velhos clássicos do blues pra homenagear os 2 gigantes absolutos de Chicago: “Seems Like the Whole World was Crying”, gravada no CD deles entitulado “Viva Muddy Waters”, e “Who’s Been Talkin’”, de Howlin’ Wolf, essa última na voz do gaitista Flávio Guimarães, referência mundial em harmonica blues. Aproveitando a empolgação com as homenagens, fizeram também um dos primeiros grandes blues brasileiros, “Canceriano Sem Lar”, do Raulzito. Nesse ponto acabou a fita no meu gravador e eu estava absorvido demais com o show pra notar e trocar, portanto não sei a ordem nem todas as músicas tocadas na segunda metade do show, mas lembro de outra excelente instrumental, de um baita solo de bateria de Pedro Strasser (talvez a maior lenda vida da cena blues do país, tendo também acompanhado o falecido Celso Blues Boy), Cláudio Bedran tocando perfeitamente com a mão esquerda virada ao contrário, e de mais 3 clássicos da banda: “Dente de Ouro”, pioneira em misturar música afro-estadunidense com afro-brasileira; “O Sol Também Me Levanta”, a mais conhecida deles mas apenas uma das várias que o público, também de alto nível, cantou junto; e por fim o bis de “Pega Ma Beibe”, única com os raros vocais do guitarrista Otávio Rocha. Com mais de 10 álbuns lançados, a banda carioca deixou claro que nunca esteve em melhor forma.

Otávio Rocha, guitarrista principal dos Blues Etílicos, no terceiro show da noite

A noite ainda era uma criança quando a quarta banda e terceiro trio subiu ao Palco Principal. Travam-se dos Skrotes (sim, eu digitei certo), de Florianópolis, estreantes no festival que fizeram uma sonzeira (genericamente) psicodélica de dar gosto, sem precisar de vocais ou mesmo guitarra.Com a formação de Igor da Patta nos teclados, Guilherme Ledoux na bateria e Chico Abreu no baixo, eles passearam por influências de funk setentista, jazz, salsa e até uma versão de Black Sabbath, entre outras maluquices mais difíceis de descrever. Confesso que minha observação do show foi fragmentada, então vou ter que parar por aqui. E pra fechar a noite com mais uma dose de blues-rock de primeira teve ainda a Electric Trip no Palco dos Guerreiros. De Nova Prata, na serra gaucha, eles já têm história no festival, tendo inclusive gravado seu primeiro álbum ao vivo na edição de 2008, e vieram dessa vez mostrar o novo de estúdio (homônimo) , que traz mais algumas composições em português bem blueseiras e viajadas. Infelizmente dessa vez perdi o show deles por completo, mas pela minha experiência posso afirmar que eles nunca deixam a desejar, e fiquei sabendo também que o novo trabalho recebeu lá mesmo “atestado de qualidade” dos caras dos Blues Etílicos, uma das influências. Voltei pra minha barraca mais cedo (ainda no meio da madrugada), pra poupar energias pros 5 dias que ainda estavam por vir. A chuva já tinha parado, voltado e ficado forte várias vezes, mas não conseguiu causar nenhum dano na sequência incrível de shows nem no sentimento geral de pertencimento e liberdade que já tinha se instalado em todos os cantos da Fazenda Evaristo.
Texto: Caio Rocha

Fotos por Eder Capobianco (http://www.flickr.com/photos/antimidia & eder.capobianco@gmail.com)

E em breve a cobertura do segundo dia!

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2 Thoughts to “Cobertura Psicodália 2013 – 1° Dia”

  1. Agradeço imensamente pelo carinho, pela citação e gravação de meu poema. Excelente trabalho o de vocês. Evoé!

    1. Valeu! Teu trabalho contribuiu muito pro grande começo do festival.

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