Cobertura Morrostock 2013: 3º dia de shows

Galera ao lado do palco no fim da tarde do domingo 06/10 no Morrostock

No começo da tarde do domingo (06/10), o sol estava bem forte no Sítio Picada Verão, na serra de Sapiranga/RS. Quase não se via mais lama, e muitos aproveitaram pra curtir alguma das duas belas cachoeiras a minutos de trilha dali. Quem ficou teve a oportunidade de participar de oficinas de temas como compostagem, e presenciar a animada inauguração do banheiro seco (já havia químicos e comuns) – uma verdadeira obra-prima da engenharia ecológica. Além é claro de ver as bandas do dia chegando.

Inauguração do primeiro banheiro seco do Morrostock

Lá pelas 16:00 a passagem de som começou a atrair a maioria dos presentes para a frente do palco, e pouco depois teve início o primeiro show. Apesar de inicialmente divulgado na internet e panfletos como Renato Velho & Fluxo Piroclástico, tratava-se de outra banda da qual Velho participa, o Bando Celta. Neste projeto, ele toca banjo e bandola e faz harmonias vocais, Jonatã Edinger violino, Tales Melati tin whistle (pequena flauta), gaita de fole e harmonias, Leonardo Bueno violão e vocais ocasionais, e Caio Haag bodhran (tambor largo e chato tocado horizontalmente) e vocais principais. Como o nome e os instrumentos sugerem, o grupo se dedica a interpretar velhas canções tradicionais dos diferentes povos celtas, muitas vezes incluindo breves explicações didáticas sobre cada povo e estilo musical específico, entre outras curiosidades. Eles são de Porto Alegre e já contam com um CD ao vivo recém lançado, intitulado Demo Celta, com 13 músicas, a maioria das quais foi tocada no show. Com roupas típicas (3 deles estavam até de kilt, a saia escocesa para homens), o Bando cativou facilmente os fãs de rock com suas diversas canções altamente dançantes, e mesmo algumas mais lentas, tanto as que conjuram uma aura quase mística quanto as mais mundanamente belas. Segundo eles foram nos explicando, algumas vinham da Irlanda, algumas da Escócia, algumas da Galícia, algumas dos mares… mas em várias era possível notar fortes semelhanças com a as gravações mais antigas de música folk e country norte-americanas, do início do século XX, que mais tarde tanto influenciariam o surgimento e desenvolvimento do rock. Estávamos vendo em primeira mão os avós do rock ressuscitados, em ação agora em outras montanhas verdes. Em aspectos mais técnicos, na maioria das músicas se destacaram o violino de Edinger e o tin whistle Melati, enquanto os demais instrumentos davam a base rítmica. Nas duas em que Melati tocou gaita de foles, seu som peculiar não pode deixar de roubar a cena. Os vocais característicos também foram bem feitos, e provavelmente são o elemento mais estranho desse tipo de música para os ouvidos do século XXI, mas nada que não dê pra se acostumar.

Bando Celta fazendo o primeiro show do domingo

 

Em seguida foi a vez da Uranius Blues, de São Leopoldo e Novo Hamburgo, animar o final da tarde no festival. Com um EP homônimo (2012) e um DVD “Ao Vivo” (2013) na bagagem, a banda é formada por Urânio Laureano nos vocais principais e saxofone, Tiago D’Andrea no piano e vocais secundários, Rafael Salib na guitarra e vocais secundários, Samuel Moraes no baixo, e Paulo Barros na bateria. Eles vêm desde 2007 tocando principalmente composições próprias em português que remetem a vertentes do blues que floresceram nos anos 40 e 50 nos EUA, como o jump blues, o Chicago blues e o rhythm & blues. Eles abriram o show com uma animada introdução instrumental, e partiram para essas composições com ótimas letras em português, que falam principalmente de temas típicos no blues como a bebida (Cerveja Gelada, Beba com Moderação, Ninguém me Avisou) e relacionamentos problemáticos (Amor Infeliz, Folhas Secas, Girl Boogie – a única em inglês), mantendo a simplicidade e o jeito de rimar característicos, mas habilmente trazendo esses temas para a realidade atual brasileira vivida por eles. Musicalmente, vão na contra-mão da maioria dos grupos de blues contemporâneos por darem destaque ao piano de D’Andrea, seguido do sax de Uranius – por opção de estilo, não falta de habilidade de Salib na guitarra: ele tem menos oportunidades de virar o centro das atenções, mas sabe usá-las bem, fazendo solos em sintonia com o resto da música, sem cair em lugares comum nem excessos. Mas como não poderia deixar de ser numa banda elétrica, o que os situa no blues antes de mais nada são a bateria firme de Barros e o baixo forte de Moraes – que também teve seu momento de solar. Entusiasmados com a proposta do Morrostock pela originalidade, eles tocaram apenas uma versão: o clássico do jump blues Caldonia, gravado pela primeira vez por Louis Jordan em ’45. E encerraram com uma das melhores canções da banda, Blecaute, que faz uma observação quase antropológica dos efeitos da falta repentina de eletricidade nas pessoas, baseada em fatos reais. Houve quem dançasse durante quase todo o show.

Uranius Blues em ação no final da tarde

 

O blues prosseguiu no começo da noite sob uma lua fina e reluzente e muitas estrelas, com os porto-alegrenses Oly Jr. & Os Tocaios. O guitarrista, vocalista e compositor Oly Jr. e seu característico chapéu preto já têm bastante experiência: 7 álbuns lançados desde 2003, entre o folk-rock Dylanesco inicial, uma parceria blueseira acústica com o gaitista Gaspo “Harmônica”, e a sua original ponte entre o blues e a milonga nos 2 trabalhos mais recentes. Oly é um dos mestres brasileiros do slide, e dessa vez veio eletrificado, acompanhado de seus fiéis Tocaios Jacques Jardim no baixo e Jaques Trajano na bateria. O show começou com releituras eletrizantes de alguns blues convencionais mais antigos de sua autoria, como Onde Está o Meu Dinheiro e Beber Eu Sei, ganhando o público no ato. Na sequência, Oly mostrou que tinha sido inspirado pelo espírito do festival ao convidar para o palco um jovem gaitista que ele acabara de conhecer (Eric Alles), o que deu ainda mais energia para as 2 músicas em que o desconhecido participou. Enfim chegou a hora do rio Mississippi cruzar os pampas: milonga blues! Também foi a partir daí que a Oly passou adotar sua inteligente tática de transmutar com muita naturalidade uma música em outra que a maioria das pessoas nunca teria associado à primeira até então. A sua Milonga Blues acabou desembocando no standard All Your Love, de Otis Rush, enquanto a autoral Delta do Jacuí foi virando I Can’t Hold Out, de Elmore James. Um cover do finado guitarrista gaúcho Bebeco Garcia deu em I Just Want to Make Love to You, de Willie Dixon, e tudo terminou com “um dos primeiros blues que ele conheceu”, O Sol Também Me Levante, dos Blues Etílicos, numa versão que foi ganhando momento e incorporando versos da música gauchesca Os Homens de Preto, como se fosse um mantra hipnótico em blues.

Oly Jr. & Os Tocaios no começo da noite

Algumas nuvens surgiram no céu e a lua tinha desaparecido quando a última banda da noite subiu no palco. Depois de música celta e blues, veio um auto-declarada “prévia do que vai rolar na semana”, ou seja: rock & roll! Mais especificamente hard rock no estilo setentista, cortesia da Ecosofia, provavelmente a banda de rock mais clássica da cidade (Sapiranga, fora da qual acontece o festival), tanto pela sonoridade quanto pelos mais de 25 anos desde que começaram as atividades. A formação atual, que gravou o primeiro álbum da carreira em 2007, tem Clayton Thomé nos vocais, Tommy Thomé na bateria, Marcio Eloy no baixo, e Vinicius Boaz na guitarra, com os 3 também fazendo backing vocals. Dentro dessa sonoridade que lembra bandas nacionais uma década mais velhas como Bixo da Seda, Patrulha do Espaço e Tutti Frutti, eles tocaram seu repertório próprio, recheado de letras simples e diretas que traduzem uma filosofia rock’n’roll libertária, de títulos como Imaginação Alienada e Eternamente Jovens. A empolgação do público com eles foi a maior do dia, tanto com os refrões fáceis cantados sem frescuras por Clayton, quanto pelos solos de guitarra infames mas incendiários de Boaz. E reservaram a preferida dos fãs para o final: Deixe de Careta, que fez até quem não conhecia se mexer e cantar o refrão junto. Dessa vez mais pessoas arriscaram pedir bis, mas como nenhuma das 3 bandas anteriores tinha tido, eles não foram exceção.

Assim terminaram os shows no palco Picada Verão até a noite da próxima sexta-fera (11/10), logo após o tão esperado show que o Arnaldo Baptista dará no Centro Cultural Lúcio Fleck, na cidade, às 20:00. Mas ainda era o domingo anterior, e lá pelas 21:00, as bandas do dia e boa parte do público já tinha ido embora… mal sabiam eles que quem ficou pode continuar curtindo o Morrostock numa intensa roda de fogueira com direito a declamação de poemas, boas conversas e muita música (próprias e impróprias) a noite toda.

 

Texto: Caio Rocha
Fotos: Rede Brasil de Festivais (mais em http://www.flickr.com/photos/redebrasil/)

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One Thought to “Cobertura Morrostock 2013: 3º dia de shows”

  1. […] o trabalho da banda, confira nossa cobertura de um show próprio deles um mês antes no Morrostock nesse link). Ariyoshi foi simpático com o público e mostrou grande habilidade tanto no estilo de piano blues […]

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