Cobertura: Devendra Banhart pela primeira vez em Porto Alegre

Na segunda-feira dia 18 de novembro, Porto Alegre recebeu um dos maiores ícones do rock no novo século. Estadunidense criado na Venezuela, Devendra Banhart, de 32 anos, é considerado a figura mais proeminente do movimento New Weird America (novos e estranhos EUA) ou Freak Folk em meados dos anos 2000, inicialmente com um som simplista, predominantemente acústico e com letras que fazem pouco sentido cantadas de forma exótica quase infantil – que no fim das contas lembra bastante os anos de sucesso do folk-rocker britânico Donovan, e o Tyranossaurus Rex, a banda hippie do Marc Bolan no final dos anos 60 antes de criar o glam rock e encurtar para T. Rex. Mas assim como Bolan, Devendra acabou adotando um som mais elétrico, com banda completa em seus álbuns mais recentes. Já é a terceira vez que Banhart vem em turnê para o Brasil, país pelo qual ele sempre demonstrou um interesse especial: ele diz ter resolvido se dedicar às artes após ter lido Oswald de Andrade, narrou um mini-documentário animado sobre a fase Racional do Tim Maia e é grande fã do tropicalismo, tendo regravado Caetano Veloso, aberto para Gilberto Gil em Nova Iorque e aparecido no documentário Lóki, sobre Arnaldo Baptista, explicando porque ele considera Os Mutantes mais criativos que os Beatles. Mas em Porto Alegre, esta foi sua primeira visita, dentro do projeto Segunda Maluca da casa de shows Opinião.


O local já estava lotado – principalmente de garotas, quando o show teve início, às 22:10, direto sem banda de abertura. Devendra entrou no palco acompanhado de seu velho escudeiro, o guitarrista Noah Georgeson, do baixista Todd Dahlhoff, do baterista Matthew Compton, do tecladista e guitarrista Josiah Steinbeck e do brasileiro Rodrigo Amarante na guitarra e piano. Com uma recepção tão calorosa que beirava a histeria por parte do público, ele começou com “Golden Girls”, primeira faixa de seu mais novo álbum, Mala, lançado no início do ano. Devendra então surpreendeu ao arranhar um português pseudo-sulista, dizendo que era um prazer estar lá, e em seguida corrigindo: “não, não é um prazer, é um triprazer”. Então a banda atacou com a música mais popular do Mala, “Für Hildegard von Bingen”, um pop rock etéreo. Infelizmente a mesa de som demorou algum tempo para achar a medida certa, e combinada com os gritos de boa parte do público que parecia mais interessado na imagem do músico do que em sua música, os vocais ficaram meio enterrados nas primeiras canções e mal era possível ouvir as letras. Mas a banda estava afiada e inicialmente passeou pelo repertório mais recente de Devendra, revelando influências que vão desde o indie rock dos Strokes (cujo baterista Fabrizio Moretti já colaborou com ele algumas vezes) até o lado mais intimista de George Harrison nos últimos anos dos Beatles, passando pela fase mais suave do Velvet Underground, Tropicália e música tradicional venezuelana. Um dos pontos altos foi a inspirada versão de 12 minutos da quase épica “Seahorse”, do disco Smokey Rolls Down Thunder Canyon (2007), que começa lembrando o folk ligeiramente psicodélico do início da carreira dele, segue por um passagem jazzística com destaque para o piano, e desemboca em riffs pesados de guitarra e vocais fortes e proféticos que chegam a lembrar The Doors. Banhart continuou falando em português o quanto podia com o público, parecendo aturar bem os berros das neo-Beatlemaníacas, e mais cantando do que tocando sua guitarra – por vezes ele preferia largar o instrumento gesticular de forma excêntrica com as mãos, ou arriscava passos de dança desajeitados. Mas quando a banda de apoio se retirou e ele se viu sozinho no palco para tocar algumas canções mais antigas, mostrou que ainda sabia se virar muito bem sem ajuda, especialmente na bela improvisação instrumental lembrando uma versão timidamente eletrificada do estilo Primitive American de inovadores do violão dos anos 60 como John Fahey e Robbie Basho, que serviu de introdução para a bela “Little Yellow Spider”, do álbum Niño Rojo, lançado em 2004. Depois dessa, alguém atirou uma calcinha no palco e acertou exatamente em cima do microfone, constrangendo um pouco o músico. Então a banda voltou para mais algumas músicas e o show chegou ao fim com Devendra tendo passeado por todas suas fases e esgotado seu português, explicando que na verdade está longe de dominar o idioma. Claro que um público tão grande e (em grande parte) fanático o convenceu a voltar para um bis, mas ainda assim o show terminou cedo: apenas uma hora e meia de duração – menos do que a maioria dos roqueiros com o dobro da idade dele têm feito. Da parte dos músicos, foi excelente enquanto durou, mas talvez pudesse ter ido um pouco mais adiante se o público em geral tivesse se mostrado mais interessado na arte do que no artista. E nos dias de hoje, nem mesmo um músico de sucesso como ele poderia abrir mão dos shows e se concentrar apenas no estúdio como os Beatles fizeram quando se deparam com o mesmo problema (ainda maior, é verdade) quase meio século atrás.

 

Texto: Caio Rocha
Fotos gentilmente cedidas por Felipe Gaieski

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