Cobertura do #6 Mississippi Delta Blues Festival – 1° dia

O Mississippi Delta Blues Festival se consolidou nos últimos anos como o principal festival de blues do país, unindo muitos dos melhores músicos brasileiros do gênero a destaques do cenário sul americano e lendas vivas do blues original estadunidense, em três noites inteiras de shows em vários palcos na antiga (e muito apropriada) estação de trem de Caxias do Sul, na serra gaúcha. O evento acontece anualmente, organizado pela equipe do Mississippi Delta Blues Bar (localizado nas imediações da estação), e continuou apresentando sinais de crescimento em sua sexta edição, que aconteceu nos dias 21, 22 e 23 de novembro de 2013.
O festival teve início no final da tarde de quinta-feira (21/11), quando o palco principal recebeu o pianista japonês Sumito “Ariyo” Ariyoshi. Radicado em Chicago desde 1984, ele se tornou um dos mais requisitados pianistas da capital do blues elétrico, tendo acompanhado nomes como os guitarristas Jimmy Rogers e Otis Rush, e atualmente o gaitista Billy Branch. Ariyo veio acompanhado da Uranius Blues, excelente banda de São Leopoldo (RS) que conta com Urânio Laureano nosax tenor e voz, Tiago Dandrea noórgão e piano base, Rafael Salib na guitarra e backing vocals, Samuel Moraes Bolacel no baixo, e Paulo Barros Padilha na bateria (para mais sobre o trabalho da banda, confira nossa cobertura de um show próprio deles um mês antes no Morrostock nesse link). Ariyoshi foi simpático com o público e mostrou grande habilidade tanto no estilo de piano blues de Chicago, de mestres como Pinetop Perkins, Otis Spann e Sunnyland Slim, como também no estilo mais alegre de New Orleans (em “Iko Iko”) e até mais próximo do funk (na versão de “Rock Me Baby”). Apesar de ser a estrela do show, Ariyo foi também um bom bandleader, explorando bem interações com os ótimos músicos brasileiros e dando espaço para brilharem individualmente nos solos. Urânio assumiu os vocais principais nas clássicas “How Many More Years” de Howlin’ Wolf e “Caldonia” de Louis Jordan, mas a surpresa ficou para o final, quando o pianista cantou um belo blues de autoria própria sobre a cidade de Chicago – só que cantado em japonês.
Logo após o show de abertura, o público foi apresentado à dinâmica que regeria as três noites do festival: depois de cada show no palco principal (Railroad Stage), ele ficaria inativo por 40 minutos, durante os quais aconteceria um show em cada um dos 3 palcos secundários simultaneamente, para então eles pararam, começar outro no palco principal, e assim por diante. Nessa primeira rodada, chamou atenção o show da Sotom Blues, de Novo Hamburgo (RS), no Truck Stage. A banda faz um blue/blues-rock com diversas influências do sul da América do Norte: o Texas blues elétrico de guitarras fortes de Freddie King, o Southern Rock jazzístico dos Allman Brothers e o blues-rock latino de Santana. Destacam-se o percussionista Paulo Marcelino que dá o toque exótico e o vocalista e guitarrista principal Matheus Miguel de Moraes, que combina sentimento e virtuosismo de sobra nos extensos solos.


Mas mesmo assim a competição era desleal. Ao mesmo tempo apresentava-se no Truck Stage o lendário baixista e vocalista veterano de Chicago Bob Stroger. Ele já tocou muito com Otis Rush e muitos outros gigantes do blues daquela cidade desde os anos 60, já é considerado “convidado vitalício” do MDBF e dessa vez veio acompanhado dos The Headcutters, afiadíssimo quarteto de blues cinquentista originário de Itajaí, Santa Catarina (Joe Marhofer – gaita e voz, Ricardo Maca – guitarra e voz, Arthur “Catuto” Garcia – baixo, e Leandro “Cavera” Barbeta – bateria). A banda não poderia ser mais adequada para Stroger, pois era capaz de recriar como nenhuma outra o feeling das bandas de blues elétrico mais clássico da Chicago em que ele tem tocado desde a juventude. Bob, muito bem vestido com terno e chapéu, conquistou a maior parte do público do festival com seu premiado ritmo preciso no baixo e sua personalidade no palco e nos vocais, tanto em canções rápidas e quase ameaçadoras como a clássica “Don’t You Lie to Me”, de Tampa Red, quanto nas mais lentas e melancólicas como o standard “Key to the Highway”, de Big Bill Broonzy, com direito a descer do palco e receber beijos no rosto ao comando de um sinal com a mão enquanto cantava “one more kiss before I go”. Cada nota, cada palavra e cada gesto pareciam vir da alma do músico. Quando, entre músicas, ele declarou “I am the blues” (“eu sou o blues”), frase herdada do baixista pioneiro de Chicago, Willie Dixon, ninguém teve dúvidas que era verdade.
Então chegou a hora de todos voltarem para o segundo show no Palco Principal: Cristiano Crochemore & Blues Groovers. O experiente guitarrista e vocalista gaúcho radicado há décadas no Rio de Janeiro apresentou composições próprias em inglês no melhor estilo blues-rock do começo dos anos 70, incluindo várias do álbum novo que estava lançando, “Freeman Blues”. Os vocais fortes (que lembram Ian Anderson na fase inicial blueseira do Jethro Tull) e a guitarra afiada de Cristiano eram completados pela bateria incansável de Beto Werther, o baixo pegado de Ugo Perrotta (ambos da Big Allanbik), e a segunda guitarra incendiária de Otávio Rocha (Blues Etílicos); os Blues Groovers, que também o acompanharam na gravação do álbum.
Na segunda rodada de shows simultâneos, Bob Stroger e os Headcutters repetiram a dose no Street Stage, enquanto no Front Porch (varanda da velha Casinha de madeira num canto da estação) os Cotton Pickers interpretavam clássicos do blues mais próximo do rock, como “She Caught the Katy (and Left Me a Mule to Ride)” de Taj Mahal. A descontraída banda é de local e liderada pelo eficiente gaitista Toyo Bagoso, um dos donos do Mississippi Delta Blues Bar e idealizadores do festival. Contou também com a ilustre participação de Pedro Strasser (baterista do Blues Etílicos e presença marcante de edições anteriores do festival) no saxofone.
Ao mesmo tempo, no Truck Stage, Cokeyne Bluesman, ex-tecladista d’Os Cascavelletes, comandava com sua guitarra slide o quarteto instrumental que fez o show mais inovador da noite. As coisas começaram suaves, com um country blues elétrico lento que parecia uma cruza da tristeza profunda do delta blues de velhos mestres como Blind Willie Johnson com o clima de faroeste dos roqueiros também instrumentais britânicos The Shadows. Depois seguiram para um blues fluído mais ágil que lembrava tanto o embalo de Freddy King quanto a melancolia da slide de Ry Cooder. Foram ganhando momento aos poucos e inevitavelmente desembocaram no que o visual do frontman sugeria: terno, óculos escuros e grande barba grisalha = blues-rock agressivo, encorpado e galopante no melhor estilo ZZ Top. Só que um pouco mais selvagem ainda, beirando o punk-blues, sem nenhum vocal e com a guitarra slide sempre à frente – exceto quando o baterista, o também ex-Cascavelletes Alexandre “Lord” Barea, fez um solo quase hardcore de tão explosivo, o auge da progressão inesperada mas extremamente convincente e empolgante que foi o show. Por volta dessa hora, quase no fim da apresentação, Cokeyne Bluesman trocou de guitarra, e no processo, atirou a que não ia usar mais para o público, ficando de presente para um sortudo que mal podia acreditar.


Às 23:00 o público já tinha crescido consideravelmente e foram todos ver uma das atrações mais esperadas, J.J. Jackson, um ultra-carismático e irreverente senhor estadunidense residente do Brasil há bastante tempo que dança e pula como poucos e reinterpreta clássicos do soul, r&b e blues com enorme facilidade e uma voz única. Ele chegou saltitando, alto e magro em seu macacão verde cheio de bandeiras bordadas, e abriu os trabalhos com uma versão surpreendente cheia de soul do standard do blues “Baby What You Want Me to Do”, do Jimmy Reed. Jackson tem uma presença de palco magnética, muita criatividade nas releituras e uma voz poderosa, mas parte considerável do mérito do grande show foi da banda de apoio, uma verdadeira all-stars do blues, blues-rock e soul do sul do país: o guitarrista Décio Caetano (solo, de Curitiba, PR), o tecladista Graziano Anzolin (Electric Blues Explosion, Caxias do Sul, RS), o baixista Sergio Selbach e o baterista Clark Carballo (ambos da Ale Ravanello Blues Combo, de Porto Alegre, RS), que juntos funcionavam com a precisão, a fluidez e o groove de uma verdadeira Booker T. & The M.G.’s do século XXI atrás do vocalista. Eles atacaram também “Louie Louie”, com o ritmo tão marcado quanto na versão garageira mais clássica dos Kingsmen, mas com muito mais soul no fraseado. “I Just Called to Say I Love You”, de Stevie Wonder foi uma das menos alteradas, à exceção da instrumentação que sabiamente reduziu os excessos oitentistas da original. JJ mostrou que já está sendo influenciado pelos brasileiros também, ao cantar um trecho de “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia. O clássico dos Temptations “My Girl” também foi executado com maestria, com a rica voz do norte americano compensando perfeitamente a ausência de mais vozes. Apesar do sotaque forte, ele se comunica perfeitamente em português e brincava entre as músicas com a multidão dançante, que ele mantinha na palma da mão. Releituras potentes do animado standard do r&b “Kansas City” e do clássico vibrante do soul “Mustang Sally” só aumentaram a empolgação. Parecia que o grupo tocava junto há anos, tamanha a interação dos instrumentistas entre si e com o vocalista. A saideira, mais lenta e emocionante, ficou por conta de “Stand by Me”, de Ben E. King.
A terceira rodada nos palcos secundários foi quase unânime: foi todo mundo para o Street Stage conferir a Fernando Noronha & Black Soul. Fundada em Porto Alegre em meados dos anos 90, o quarteto formado pelo guitarrista e vocalista líder, o pianista Luciano Leães, o baixista Edu Meirelles e o baterista Ronie Martinez se tornou uma das mais bem-sucedidas bandas de blues-rock que o Brasil já teve, com vários álbuns e turnês internacionais na bagagem. Com toques tanto de rock & roll Stoneano quanto de soul, as composições em inglês da banda são bem cativantes e dão destaque para a habilidade instrumental de Noronha e Leães. O guitarrista disse que ultimamente vinha sendo muito influenciado por Johnny “Guitar” Watson, e aproveitou para atacar “I Get a Feeling”, do mestre do blues grooveado. Luciano, por sua vez, lembrou que era aniversário do ídolo Dr. John, mas preferiu tocar “Will It Go Round in Circles”, do soul man Billy Preston, na qual também assumiu os vocais. Entre as próprias, aproveitaram para apresentar uma que deve estar no próximo disco: “Invitation to Ron Wood”, baseada numa tentativa frustrada de encontrar o guitarrista dos Stones durante uma breve passagem dele pela América do Sul, com a intenção de convidá-lo para fazer uma participação no álbum. Uma falta de sorte que foi bem aproveitada.


O último show da primeira noite no palco principal foi do experiente roqueiro baiano Marcelo Nova, antigo líder do Camisa de Vênus e parceiro de Raul Seixas no fim da vida deste. Seu “conjunto” (segundo ele, “qualquer cabeludo tem banda”) dava o ritmo acelerado, sobre o qual ele cantava de forma declamatória e alucinada suas letras debochadas e espertas. Nas canções da carreira solo, não faltavam citações, de Bob Dylan a Nelson Gonçalves a Mose Allison. Nem solos de guitarra. Mas, como esperado, as que mais levantaram o público no extenso show foram as antigas: “Eu Não Matei Joana D’Arc” e “Simca Chambord” do Camisa de Vênus, e “Carpinteiro do Universo”, “Quando Eu Morri” e “Pastor João e a Igreja Invisível”, da parceria com Raulzito.
Na sequência, às 2:30 da madrugada, o único palco externo ainda ativo era o Front Porch, onde Renato Velho (voz e violão), que, acompanhado de baixo acústico e washboard, interpretava alguns velhos blues rurais como “Truckin’ my Blues Away” do Blind Boy Fuller e “West Coast Blues” do Blind Blake, entre outros mestres cegos.
Quando ele também parou, só restou aos resistentes se espremerem dentro do Mississippi Delta Blues Bar, onde o som ainda corria solto, em jams em homenagem a Ricardo Werther, eterno vocalista da Big Allanbik que recentemente perdeu a batalha contra o câncer. Os músicos mais presentes foram os três Blues Groovers e o guitarrista e vocalista carioca Alamo Leal, um dos maiores veteranos do blues(-rock) vindo do Brasil, que voltou há poucos anos depois de décadas vivendo e tocando pela Europa. Como as últimas duas dúzias de expectadores não se cansavam e tampouco contingente de grandes músicos que se revezava no palco do bar, as jams duraram várias horas. Também participaram desse glorioso encerramento da noite Gustavo Telles (ex-baterista da Pata de Elefante, atual líder d’Os Escolhidos), Joe Marhofer e Catuto (gaitista/vocalista e baixista dos Headcutters), o guitarrista Cristiano Crochemore, Pedro Strasser (baterista dos Blues Etílicos e saxofonista) e Ronie Martinez (Black Soul), entre vários outros. Foram tocadas ótimas versões espontâneas de músicas como o rock “Two Trains” do Little Feat e clássicos do blues como “Messin’ with the Kid” do Junior Wells, “Baby, Please Don’t Go” do Big Joe Williams, “Last Night” do Little Walter e “Howlin’ for my Darling” do Howlin’ Wolf, entre muitas outras pedradas inspiradas, até às 5:00 da manhã. E era só a primeira de 3 noites…

 

Texto: Caio Rocha

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