A simplicidade de um mestre da música extrema

Apesar da pinta de malvado, Paul Speckmann (ao centro) demonstrou simpatia e humildade

Na sexta-feira, dia 18 de novembro, o banda norte-americana Master passou pela primeira vez por Porto Alegre para um show no Garagem Hermética. Antes da apresentação, batemos um bapo com o líder do grupo, o baixista e vocalista Paul Speckmann, apontado como um dos pioneiros do death metal. Atencioso, o músico falou, entre outros temas, sobre sua trajetória na música e alguns de seus projetos.

 

http://youtu.be/Oo-BFN0pu_0

 

Parado em frente a um hotel próximo a rodoviária de Porto Alegre, um homem de barba longa e grisalha conversa com uma moça. Diferentemente dos hóspedes “normais” – a maioria bem vestido para algum possível compromisso mais sério -, aquele tiozão chama a atenção. Pela roupa preta, a camiseta de banda, o estilo (tatuagens, correntes, piercings, cabelos desgrenhados) e seu idioma – o inglês – o cidadão dá indícios de ser algum roqueiro gringo.

De fato é. Pelo comprimento dos pelos abaixo do queixo, até poderia ser um integrante do trio texano ZZ Top. Porém, não trata-se de um rockstar renomado, mas de uma figura importantíssima dentro do circuito underground e da música extrema. O senhor em questão é Paul Speckmann, baixista, vocalista e mentor da banda norte-americana Master. O músico, hoje com 49 anos, é apontado como um dos precursores do death metal. Título, aliás, que ele mesmo contesta. Segundo Paul, quando resolveu agregar elementos do punk e do metal, não havia tantas ramificações no universo do som pesado. Era apenas metal e rock and roll. Simples assim.

Essa simplicidade, inclusive, Paul faz questão de trazer de sua arte para a vida. Arredio com seu país de origem (Estados Unidos) e sua política imperialista, ele foi morar na República Tcheca, onde assumiu compromissos profissionais no passado. Acabou ficando por lá, onde mora com a mulher e seus cães em uma área perto de florestas – nas quais garante fazer visitas regulares para caçar ou simplesmente desopilar.

A vida sem frescura também parece gerar reflexos em seu comportamento.  Atencioso e simpático, o veterano atende com paciência fãs ou curiosos que pedem para tirar fotos mesmo sem saber quem ele realmente é. Por estar há cerca de três décadas batalhando seu espaço no universo da música agressiva, ter lançado um número considerável de discos (com o Master e outros projetos que fez parte, como Death Strike e Krabathor) e ser influência para inúmeros artistas, ele até poderia demonstrar algum tipo de arrogância. Mas não. O líder do “Motörhead do death metal” (segundo Paul, definição que ouviu diretamente de Lemmy Kilmister) mantém a humildade com a maioria das pessoas que se aproximam dele. É o tipo do cara que troca o conforto de um quarto de hotel por uma cerveja na rodoviária.

Foi com essa disposição que Paul atendeu este escriba. Antes de sua estréia em Porto Alegre, no dia 18 de novembro – quando tocou ao lado da banda norte-americana de black metal Absu no Garagem Hermética -, o barbudo topou responder pessoalmente esta entrevista. Ele conversou sobre sua trajetória na música, o processo de criação de suas composições, visitas ao Brasil e um livro que já estaria escrito, aguardando apenas uma editora para lançá-lo. Confira o que esse ‘master’ tem a dizer!

 

Atual formação do Master: Zdenek Pardlovsky (bateria, a partir da esquerda), Paul Speckmann (baixo e voz) e Ales Nejezchleba (guitarra)

 

Você está envolvido com o cenário metal underground desde o começo dos anos 80. Como seu interesse por esse tipo de som começou?

Paul Speckmann – Para ser honesto, eu estava ouvindo bandas punks, como MDC (Millions of Dead Cops), GBH, The Exploited e Discharge. E Motörhead também, claro! Mas a banda que realmente me colocou nessas de música agressiva foi o Venon. No começo dos anos 80, eu tocava em uma banda chamada War Cry, que era uma espécie de doom metal inspirada em Black Sabbath. Em 1982, o guitarrista Marty Fitzgerald chegou para mim e disse: “Paul, comprei este 7” e acho que você vai pirar! Você curte Motörhead, melhor conferir isso!” Era o compacto In League with Satan/Live Like an Angel, do Venon. Foi realmente uma experiência que mudou minha vida! Comecei a ouvir esse registro o tempo todo e pensei: cara, temos de ficar mais pesados! Então, sai da banda na qual eu estava e comecei a fazer uns ensaios com o baterista Bill Schmidt. Tentamos achar um guitarrista durante quase um ano e não conseguimos. O projeto, que se tornaria o Master, nunca engrenou e acabamos nos separando por não conseguir alguém para tocar guitarra. Em seguida, um cara que há um ano havia feito uma audição para o Master veio tentar novamente tocar comigo em minha outra banda, o Death Strike. Pouco depois o batera (Bill Schmidt) veio pedir sua vaga de volta e viramos o Master novamente.

Você é considerado um dos pioneiros do death metal. Esse rótulo agrada você?

Paul Speckmann –Está ok. Honestamente, death metal, thrash metal, heavy metal… nunca me importei muito com o termo. Para mim, é apenas metal! Metal e rock and roll! Essa definição “death metal” apareceu depois. Não é isso que fazemos, nós apenas tocamos metal! Havia o Possessed, o Master, o Death, o Death Strike… Era só metal para nós! As pessoas colocaram o rótulo depois, assim como fazem com tudo.

Há muitos ‘metais’ hoje em dia…

Paul Speckmann – Sim, são muitas classificações. É só rock and roll, que eu considero o melhor termo genérico para tudo isso.

Você construiu um legado para a música underground. Olhando para trás, está satisfeito com sua obra? Muitas pessoas respeitam seus trabalhos como arte de verdade. Isso é importante para você?

Paul Speckmann – Sim, porque isso nunca teve a ver com dinheiro. Eu não sou rico, até gostaria de ser, mas acho que cometi erros durante a minha carreira. Sou rico de experiências, e isso é mais importante do que todo o dinheiro do mundo. Eu viajo, vejo o mundo, e outras pessoas pagam por isso (risos)… Isso é rock and roll! É experiência, sabe? Todo o conhecimento que se adquire por onde passa, toda as novas culturas, novas pessoas, novos amigos… Isso é mais importante que qualquer valor nesse mundo. Há muitas pessoas que tem dinheiro sobrando, mas são miseráveis. Elas estão matando a si mesmas. Eu não entendo isso!

Você costuma dizer que suas músicas são feitas com coração e alma. Essa sinceridade é importante em uma verdadeira obra de arte. Para você, o que é compor com paixão, acreditar naquilo que está sendo criado?

Paul Speckmann – Eu acredito no que estou criando, realmente! Eu uso uma guitarra acústica durante um ou dois anos para fazer centenas de riffs. Então, quando chega a hora de gravar algo, eu os toco e talvez encontre algumas composições interessantes. São materiais registrados em um gravador de fitas k7. É dali que eu espero tirar algo bacana.

E a inspiração, vem de onde?

Paul Speckmann – Da vida, do que está acontecendo com o mundo hoje em dia. Eu olho os noticiários, leio livros, artigos e jornais… A sociedade, em geral, influencia minha forma de escrever. Estamos vivendo em um mundo louco atualmente, e eu gosto de trazer isso para a minha música. Estou tentando lutar por mudanças. Eu espero que o mundo melhore, mas ele parece estar cada vez pior. Só o que eu posso fazer é escrever músicas e ter esperança de que os mais jovens escutem e comecem uma revolução. Abaixo com o governo, com a sociedade organizada! No passado era “poder para as pessoas”, mas agora é “poder sobre as pessoas”. Os governos têm muita força, eu não gosto disso.

 

Paul, apontado como um dos precursores do death metal, em ação

 

Trocando de assunto… Quantas vezes você já veio para o Brasil? Quais são as suas recordações?

Paul Speckmann – Essa é nossa segunda vez por aqui. Lembro da comida ótima, das mulheres bonitas, de nadar e da cachaça. Da primeira vez foi bem difícil, porque perdemos dois caras logo no começo da tour (ambos eram membros da banda After Death e morreram afogados em Aracajú). Isso é como uma cicatriz que aterroriza minha alma e nunca vai parar. Porém, estou feliz de voltar e acredito que agora será melhor.

Sabe algo sobre bandas brasileiras de metal ou sobre a música do país em geral?

Paul Speckmann – Não sei muita coisa. Havia muitas bandas legais da última vez que estivemos aqui, como o Predator. Eles são caras legais, agitamos bastante juntos. Obviamente, conheço o Sarcófago, gosto do Sepultura antigo.

Você escreve suas letras com temas sociais e críticas, diferentemente de outras bandas do gênero, que falam sobre monstros, ocultismo e coisas assim. Pode-se dizer que isso é uma herança do punk?

Paul Speckmann – É, suponho que sim. Eu penso que o mundo real é mais importante que a ficção. Mas é apenas a minha opinião. Outros grupos falam sobre Satã e vendem mais discos que o Master. E as pessoas gostam! Mas eu acredito que a verdade vale mais que a ficção. Eu gosto de fantasia em livros. Porém, nos meus discos, eu espero que leiam minhas mensagens e façam algo: ajam!

Você já gravou versões de Black Sabbath (‘Childrem of the Grave’) e Johnny Cash (‘Ring of Fire’). Gosta de artistas clássicos do rock?

Paul Speckmann –Sim, eu amo Johnny Cash, Willie Nelson, Saxon, Iron Maiden, Accept, Bachman-Turner Overdrive, UFO, Deep Purple, Rainbow… Eu escuto uma grande variedade de artistas nesse segmento do rock and roll mais antigo.

O álbum mais recente do Master, chamado The New Elite, segue a tradição da banda: é raivoso e pesado. Como foi o processo de criação?

Paul Speckmann – É o mesmo que falei anteriormente! Eu registro algumas coisas em um gravador cassete, levo para os ensaios e trabalhamos nisso. As letras se escrevam por si, elas saem da minha mente. É um processo bem fácil. Uma vez que as faixas estão prontas, eu as escuto, pratico um pouco, e as letras começam a aparecer na minha cabeça. Eu organizo isso no computador e já era.

Assim como Human Machine (2010), The New Elite é um ótimo disco na discografia do Master. Porém, você acredita que algum deles consegue superar a magia dos dois primeiros – Master (1990) e On the Seventh Day God Created … Master (1991)?

Paul Speckmann – Duvido que aconteça! As pessoas sempre querem ouvir os primeiros. Eu acredito que os três últimos são os melhores, mas o público continua preferindo os dois primeiros porque são clássicos. Por outro lado, o Slayer fez três ótimos discos, que são os primeiros. E é isso! Vi as turnês e eles eram nervosos! O mesmo com o Iron Maiden: nunca me interessei por nada deles além dos três primeiros. Então, posso me colocar no lugar das pessoas nesse sentido e entender por qual motivo elas preferem os álbuns do início da carreira.

E sobre suas outras bandas Death Strike e Krabathor, elas ainda estão na ativa?

Paul Speckmann – Não! Fiz um show especial de duas horas na Alemanha, dia 8 de setembro deste ano, no qual toquei o primeiro do Master e primeiro disco do Death Strike na íntegra. Mas foi apenas isso.

Além do Master, você tem algum outro projeto artístico? É verdade que você escreveu um livro?

Paul Speckmann – Escrevi um livro e sigo na procura de uma editora para lançá-lo. São relatos sobre uns 12 ou 13 anos da minha vida na música. Um dia eu vou lançá-lo! Há relatos sobre diferentes experiências, diferentes bandas. Há muita “sujeira” nele, por isso ninguém quer colocá-lo no mercado. Os editores têm medo de serem processados. Há histórias sobre gente como Slayer, Metallica, Motörhead, Black Sabbath… São situações de quando eles eram mais novos. Há uma sobre o Ozzy em 1981, quando eu tinha 21 anos. São causos que envolvem esses caras famosos. Algumas boas, algumas ruins e outras feias. É a vida, e a verdade machuca. Posso dizer que algumas dessas pessoas são completos idiotas. Eu não direi quais, leia o livro quando for publicado! (risos)

Entrevista e texto por Homero Pivotto Jr.

 

http://youtu.be/q_Rh5OJ6nqw

 

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