A Linguagem do Blues: Chick

A Linguagem do Blues: Chick

No capítulo de hoje de A Linguagem do Blues, livro de Debra Devi que desvenda as gírias do universo desse gênero musical, nós vamos rastrear as origens africanas de algumas palavras inglesas. Partindo da expressão “chick” (garota) e passando por mais algumas expressões cujo uso se tornou corriqueiro no idioma bretão, Debra abrirá nossos olhos para a transculturação levada a cabo pela experiência escravista no Novo Mundo.

Poucas pessoas percebem que os escravos africanos trazidos para os Estados Unidos tiveram uma forte influência no inglês americano. A palavra Wolof “jigen”, por exemplo, descreve uma jovem atraente que era “hipi”, ou “hip”, significando que estava com seus olhos bem abertos e sabia o que rolava ao seu redor. Em 1920, “jigen” convergiu com a palavra inglesa “chicken” para se tornar “chick”, significando uma jovem atraente e na moda.

Por volta dos anos 1400, o povo Wolof tinha um rico império no oeste do Senegal. Em 1445, alguns Wolof próximos da desembocadura do rio Senegal haviam começado a estabelecer trocas com mercadores portugueses curiosos. Em 1493, o Papa doou a região entre os rios Senegal e Gâmbia a Portugal. Alguns anos depois, os portugueses então entraram no tráfico de escravos da região e começaram a exportar escravos para a sua nova colônia, o Brasil.

O frágil rei português, Sebastião I, foi morto aos 24 anos enquanto liderava uma mal aconselhada cruzada em nome de Cristo no Marrocos em 1578. Já que Sebastião não tinha nenhum herdeiro, e o Rei Felipe II da Espanha era filho de um príncipe português, Rei Felipe tomou o trono de Portugal – e a nobreza portuguesa fugiu do país. Um príncipe chegou à Inglaterra, onde ele vendeu suas concessões de comércio no rio Gâmbia a mercadores britânicos.

Mercadores ingleses navegaram para Gâmbia em 1587. Logo, mercadores ingleses, holandeses e franceses estavam aproveitando um frutífero negócio, trocando ferro, armas de fogo, tecidos e pólvora por peles, couros, marfim, cera de abelha, ouro, especiarias e escravos.

Muitos dos primeiros escravos trazidos para o Novo Mundo eram Wolof. Em 1673, o povo islâmico Fulani – que vivia a oeste do Império Wolof – decretaram uma jihad, invadindo territórios Wolof numa tentativa de converter o povo ao islamismo. Os Wolof também eram atacados pelos seu vizinho do norte, a Mauritânia. Durante essas batalhas, muitos Wolof foram capturados pelos Fulani e Mauritanianos e vendidos a traficantes escravistas britânicos.

Um grande influxo de Wolof chegou na Carolina do Sul entre 1670 e 1750. Alguns já sabiam um pouco de ingles que os traficantes lhes haviam ensinado para que servissem como intérpretes, e muitos chegaram com habilidades úteis, sabendo trabalhar com metais, com couro ou como açougueiros. Como resultado, os Wolof tendiam a ser usados como escravos domésticos. Linguistas modernos já rastrearam origens africanas em muitas palavras inglesas – incluindo algumas cuja origem era assumida por linguistas como sendo europeia. Algumas outras palavras Wolof foram transpostas para o inglês, como “yam”, “banana”, “bug” (advindo da palavra “bugal,” incomodar), “chigger” (advinda de “jiga,” inseto ou bicho-de-pé), e o uso de “guy” como referência pessoal (advindo de “gay”, significando “companheiros” ou “pessoas”).

Traduzido por Ismael Calvi Silveira

(Caso vocês queiram ler a matéria no original, podem fazê-lo no site da American Blues Scene. Caso queiram comprar o livro de Debra Devi, podem fazê-lo aqui)

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