A flauta mágica do rock – Jethro Tull’s Ian Anderson, Porto Alegre, 12/03/2013

Antes de mais nada, é bom esclarecer. Afinal de quem foi o show no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, nessa terça à noite, 12/03: Jethro Tull ou Ian Anderson? Na verdade foi uma espécie de meio-termo denominada “Jethro Tull’s Ian Anderson”, que consistia, além do lendário flautista, violonista, vocalista e compositor escocês, de John O’Hara, tecladista oficial do Tull desde 2007; do baixista David Goodier, também na banda desde 2007; do guitarrista alemão Florian Opahle, que têm substituído o veterano Martin Barre ocasionalmente nos últimos anos; do baterista jazzeiro Scott Hammond, que sempre que necessário substitui o oficial Doane Perry; e o vocalista de apoio, dançarino e ator Ryan O’Donnel, esse sendo o único que aparentemente nunca teve uma ligação direta com o Jethro Tull, enquanto Goodier foi o único a não participar da gravação do recente “Thick as a Brick 2”. Dúvida sanada. Agora vamos ao que interessa.

Por volta das 20:20 ainda haviam uns últimos ingressos à venda na bilheteria, mas o auditório enchia rapidamente, com presença equilibrada de jovens e gente mais próxima da idade dos músicos. O som de fundo prometia: ouvimos o blues contestador de J.B. Lenoir, a irreverência de Frank Zappa, a força de Jimi Hendrix, a tradição épica do folk britânico, a progressividade do King Crimson e até as flautas do Traffic – cada um evidenciando um ingrediente diferente do som do Tull. Mas a coisa desandou um pouco com o show de abertura. Era só um homem e seu violão, que se apresentou com muita formalidade e começou a cantar um tipo de MPB metido a muito sério e culto, de sua autoria, mas tendo de ler a maior parte das letras. Chegou a cantar em inglês e espanhol também, mas sempre soando da mesma forma. Muita gente foi educada e aplaudiu, enquanto outros não se contiveram e gritaram por algo mais apropriado. Para bem ou para mal, a abertura durou somente 15 minutos.

Então mais uma pequena espera e o espetáculo principal se iniciou, já com os roadies preparando o palco performaticamente em trajes de trabalhador britânico de início do século passado, muito aplaudidos. Em seguida foi projetado no fundo um breve vídeo legendado com Ian Anderson interpretando um psicanalista que aparentemente começa a interrogar Gerald Bostock – o menino de 8 anos (fictício) que teria escrito o complexo poema épico no qual todo o álbum “Thick as a Brick” (1972) se baseia. E para o delírio geral, a banda entrou. Ian com seu característico cavanhaque e bandana preta das últimas décadas, e o velho colete e botas de camponês inglês. O vocalista de apoio O’Donnel, vestido como os roadies, é extremamente parecido com Anderson quando jovem, porém com cabelo mais curto e sem barba. Chamavam atenção também o chapéu rural antigo do guitarrista Opahle e o longo paletó de pontas duplas atrás do tecladista O’Hara. Sem mais delongas, Ian iniciou a primeira parte do lendário álbum conceitual, começando sozinho na voz e violão. O público estremeceu e grande parte cantou junto as primeiras linhas da melodia folk. Entra então um sutil piano acompanhado, e pouco depois repentinas rajadas de guitarra, baixo e bateria, que anunciam a mudança para a próxima fase mais pesada da obra. Logo no início dessa fase cada instrumentista tem uma rápida passagem de destaque e já se notou que todos estavam aptos à tarefa. Chegou então a hora de Anderson dar os primeiros sopros em sua flauta transversal, o que ele fez com a mesma maestria que o tornou reconhecido como indiscutivelmente o maior flautista do rock. E ele continua com a mesma performance de palco irreverente: olhares esbugalhados, movimentos bruscos para um lado ou para o outro, e o mais clássico de todos, a levantada de uma perna enquanto se concentra na flauta. Nada mal para um senhor de 65 anos. E ao seu lado, portando um bastão do mesmo tamanho de uma flauta, o jovem Ryan fazia movimentos parecidos, ainda mais ágeis e alegóricos, chegando quase a parecer um fauno. Em qualquer outra banda, um garoto fazendo os gestos típicos melhor que o velho roqueiro no palco ficaria ridículo, uma caricatura. Mas na atmosfera mística, antiga e bem humorada que o Jethro Tull sempre conjurou, a idéia se encaixa bem. Não que Ryan fizesse só isso, logo depois começou a dividir versos dos vocais com Anderson – até porque o disco é essencialmente um trabalho de estúdio e há momentos em que ele precisaria tocar flauta e cantar ao mesmo tempo. O rapaz tem uma voz parecidíssima com a de Ian, ligeiramente mais cristalina. Mais uma passagem instrumental cheia de órgão chegava num crescendo, quando de repente tudo parou com o altíssimo celular de Anderson tocando. Ele atendeu e avisou “sua violinista preferida” Anna Phoebe que não era uma boa hora, por ele estar no meio de um show, e pediu a ela que entrasse no Skype com seu violino em 5 minutos. A banda então retomou a música de onde tinha parado como se nada tivesse acontecido, e logo foi projetada Phoebe de pijamas em casa, dando tchauzinhos e embalando o filho pequeno nos intervalos de suas passagens de violino, um dos vários momentos na obra que combinam hard rock e o folk ancestral britânico. Pouco depois terminam as partes dela e a violinista é substituída na projeção por fotos e cartazes britânicos antigos, além de alguns quadros de pintores como Bosch, William Blake e Van Gogh. As várias fases da música progridem com a instrumentação impecável que mescla folk, música clássica e rock’n’roll pesado, enquanto Ian e Ryan avançam com os versos aparentemente muito profundos e complexos mas que na realidade são uma paródia genial das ideias pretensiosas de outras bandas progressivas mais sérias do início dos anos 70. Com uma última nota de flauta, a primeira parte de “Thick as a Brick” (o lado A do LP) chegou ao fim, totalizando 23 minutos, praticamente o mesmo tempo que no disco – como não poderia deixar de ser já que o trabalho é tão ricamente arranjado, sem qualquer nota sobrando ou espaços vazios para muita improvisação.

Rapidamente, Anderson dedicou a segunda (e última) parte do álbum àqueles que gostamos e não estão mais conosco. Fotos de 5 ou 6 grandes músicos falecidos passaram voando pela projeção, consegui identificar três bem variados: o guitarrista punk Johnny Ramone, o flautista de jazz Herbie Mann e o inconfundível Frank Zappa. E imediatamente começou a parte 2, com barulhos de vento, uma leve flauta, novamente as rajadas elétricas de guitarra, baixo e bateria e logo uma passagem de hard rock acelerado, culminando na hora de Scott Hammond brilhar com seu excelente solo de bateria, durante o qual Ian, Ryan, David e Florian esperaram eretos um do lado do outro, com ar levemente entediado. Mas só até a hora dos demais instrumentistas atacarem novamente, na fase mais jazzística da obra. Ela termina com 2 ou 3 segundos de silêncio, que servem de transição para mais uma fase mais folk e introspectiva, em que predominam a flauta, o violão e o órgão, acompanhando aquele que pode-se chamar de o refrão da longa música. Muitos no público cantaram junto a linha que se repete desse pedaço “Do you believe in the day?”. Seguiu-se então outro crescendo instrumental liderado pela justaposição mais pesada de flauta e órgão. Um verso com referências à Superman e Batman e Robin desembocou numa sequência bem clássica (com uma orquestra invisível acompanhando por alguns instantes), que por fim deu no melancólico verso final da obra toda, cantado com emoção por Ian, exceto pelo último “…brick” , que apareceu escrito bem grande no fundo e todos completaram. A parte 2 totalizou 22 minutos, só 1 a mais que no álbum, como era de se esperar.

Anderson anunciou então 15 minutos de intervalo, prometendo que voltariam com “Thick as a Brick 2”, a tão aguardada continuação lançada no ano passado. Ela pondera sobre o que teria acontecido ao pequeno poeta (imaginário) Gerald Bostock depois desses 40 anos, já na meia-idade, citando várias possibilidades e algumas certezas. Mas, passada a pausa, foi com a projeção de mais um vídeo que tudo recomeçou. Aparentemente num canal do YouTube, um senhor de sotaque britânico carregado (vivido por Anderson) nos guia em uma visita por sua grande propriedade rural, contando e mostrando com uma naturalidade cômica os detalhes mais pitorescos, no melhor estilo Monty Python de comédia britânica. O vídeo termina com o nosso amistoso guia anunciando a banda, e então a execução do novo álbum começou, com um som de água em movimento e as mesmas velhas rajadas elétricas. Os vocais entraram inicialmente apenas com o violão, e os demais instrumentos foram se somando aos poucos. E assim foi. Dessa vez Ian assumiu a grande maioria dos vocais principais, com Ryan focando mais nos backing vocals e performances, agora vestido mais formalmente, e em certo momento, como padre. Ao contrário do primeiro, esse disco é dividido em 17 canções que somam quase 1 hora, dando muito mais oportunidades para o público manifestar seu agrado. Vários motivos antigos se repetem aqui e ali, mas o som é em geral menos pesado, apesar da guitarra de Florian Opahle ter mais destaque. A letra é mais direta, narrando 5 possibilidades de vida para o personagem: banqueiro corrupto arrasado, homossexual renegado pela família, soldado paralítico e traumatizado, padre evangelista obsessivo e lojista pacato. Mas a complexidade sonora, riqueza e precisão de arranjos e mística combinação de rock progressivo com folk inglês e algo de música clássica são quase tão impressionantes quanto no primeiro. Como tinha de ser, a flauta de Anderson é o instrumento principal da obra. Assim, ele teve absoluto sucesso em interessar o público no trabalho novo, algo raríssimo de acontecer com roqueiros veteranos. A conclusão se dá com o mesmo verso que no primeiro, e na hora da última palavra, foi projetado um vídeo com o próprio Ian, sem fantasia, dizendo “… brick …2!”, e então apresentando dali cada um dos músicos e até a equipe técnica, enquanto a banda se despedia e saía. O auditório inteiro ficou de pé e aplaudiu calorosamente.


E é claro que logo eles voltaram. Para o bis, uma pequena multidão se amontoou na frente do palco, para se sacudir, tirar fotos e finalmente ver de bem perto a banda tocar uma eletrizante versão de 10 minutos do clássico “Locomotive Breath”, do “Aqualung”, imediatamente anterior ao “Thick as a Brick” e o álbum mais popular do Jethro Tull. O’Hara nos teclados e Opahle na guitarra tiveram grandes momentos, mas Anderson mais uma vez roubou a cena. Enfim terminou de vez e puseram “What a Wonderful World” com Louis Amstrong de fundo para sinalizar que não haveria outro bis. A música de fato define bem o estado de espírito de todos ali naquele momento, milhares de caras de bobo, completamente fascinadas com o grande espetáculo que tinham acabado de presenciar.

Fotos por Camilo Bassols
Texto por Caio Rocha

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3 Thoughts to “A flauta mágica do rock – Jethro Tull’s Ian Anderson, Porto Alegre, 12/03/2013”

  1. Edu

    Só o fato de ver TAAB tocado na íntegra já valeria o ingresso do show. É de se destacar, apesar de não ser surpreendente visto que IA parece ter o dom de se cercar por músicos da melhor qualidade, a fidelidade dos arranjos; um primor! O humor britânico, sarcástico e seco, fica evidenciado na postura de palco e nos jogos cênicos. TAAB #2 mostra nuances e sutilezas que conectam todas as canções do disco (ou seria uma só canção?). Enfim, um show fantástico para quem gosta.

  2. babu

    Gostei do texto, menos que do show :)
    Ian mostrou uma surpreendente vitalidade (há relatos que, nos últimos shows em SP, seu desempenho fosse mais comportado) e há de se elogiar, incansavelmente, os técnicos de som.

  3. Jonathan

    Foi um excelente show, sem dúvida alguma, com um final arrebatador. ‘Thick as a brick’ é meu álbum preferido do Jethro Tull, e foi muito bom vê-lo sendo tocado ao vivo, na íntegra.

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