A cor do som é laranja: entrevista com Mike Palm (Agent Orange)

Por Homero Pivotto Jr.

Mike Palm, líder do trio californiano Agent Orange – que mistura punk rock e surf music -, desmente informação virtual de que não gosta de ser associado à cultura do skate e se diz feliz por fazer música há mais de 30 anos.

O Agent Orange é daqueles grupos frequentemente ligadas à cultura do skate, seja pela sonoridade empolgante ou pelo fato de ter nascido no berço do esporte, a Califórnia. E, ao contrário de informações que circulam pelo mundo online, não renega essa relação. Segundo Mike Palm (vocalista, guitarrista e único membro da formação original), o rumor de que ele e seus companheiros não gostam de skate – a afirmação está no verbete em português sobre a banda no Wikipedia  – é uma falácia. Conforme o simpático músico, mesmo antes de iniciar o Agent Orange, no fim da década de 70, ele já era um adepto do esporte que tem como base o hoje famoso “carrinho”.  Foi, inclusive, em um período de má sorte com a prancha de madeira e seus equipamentos que a música apareceu como alternativa para canalizar a disposição do então jovem rapaz. Passados mais de 30 anos, tocar virou profissão e o skate um hobby, assim como o surf. Pode-se dizer que são atividades complementares, pois uma acaba, seguidamente, influenciando a outra.

A mais recente passagem do Agent Orange por Porto Alegre, dia 30 de abril, foi justamente para uma atividade que juntou a música com a rapaziada que curte se equilibrar no shape. Os californianos de Orange County vieram à Capital animar a festa de encerramento do Sweel Old Is Cool – tradicional competição de skate. Ao vivo, a explosão sonora resultante da combinação entre punk rock e surf music – marca registrada da banda norte-americana – parece ainda mais vigorosa que nos discos. Que, aliás, não são muitos. Mesmo com mais de três décadas de história, o trio – atualmente formado por Perry Giordano (baixo) e Dave Klein (bateria), além de Mike – não tem uma produção muito prolífica. Fora EPs, regravações e compilações, o Agent Orange conta com basicamente três álbuns de estúdio: Living In Darkness (1981), This Is The Voice (1986) e Virtually Indestructible (1996). O que já é suficiente para garantir clássicos como ‘Everything Turns Grey’, ‘Say It Isn’t True’, ‘Fire in the Rain’, ‘Voices in the Night’, ‘No Such Thing’ e ‘Bloodstains’. Sorridente e solícito, Mike concedeu uma descontraída entrevista. Acompanhado dos dois colegas – que participaram mais como expectadores do que como protagonista do bate-papo -, ele falou, entre outros assuntos, sobre a cena musical californiana no passado, o gosto por continuar na ativa e os rumos do punk rock.

Não é primeira vez que o Agent Orange toca em Porto Alegre. Quais lembranças vocês têm de Porto Alegre?

Mike Palm – Hum… muitas garotas, bons cafés…

Você gosta de café?

Mike Palm – Claro!

Muito ou pouco?

Mike Palm – Pouco. Ele gosta muito (aponta para Perry Giordano)

Perry Giordano – Sim, eu gosto bastante.

E você, Dave?

Dave Klein – Eu gosto de chá.

Mike Palm – Você está demitido, Dave! (risos).

Vocês gostam de tocar em lugares pequenos (o Dhomba, local do show em Porto Alegre, tem capacidade para cerca de 250 pessoas no espaço onde ocorrem os shows).

Mike Palm – Sim! Nós gostamos de tocar em todos os lugares e isso é algo muito bacana. Não sinto que muitas outras bandas façam isso. Gostamos de tocar em lugares nos quais curtiríamos assistir a um show. Tocamos em um grande festival nos Estados Unidos e, no outro dia, nos apresentamos no menor clube de Orange County. Todos os nossos amigos próximos vão… Sinto-me sortudo de poder fazer isso. Há clubes divertidos, nos quais as pessoas adoram ir e celebrar, mesmo não sendo os maiores e mais legais. São locais com boas vibrações, nos quais o pessoal adora ir festejar. Esses são definitivamente lugares onde curtimos tocar. Claro que também continuamos gostando de shows grandes. Tentamos fazer isso tanto quanto conseguimos. Talvez isso surpreenda os fãs, o que é sempre bom.

E em cidades de menor porte?

Mike Palm – Muitas vezes, é legal tocar em locais fora do circuito ao invés de grandes cidades, sabe?  Até onde sei, fomos uma das primeiras bandas a tocar em Yuma, no Arizona. E quem sabe a última (risos)! Foi um ótimo show! Outro bom exemplo é Juneau, no Alaska. Você só pode chegar lá de avião ou barco. Esse é outro pequeno lugar obscuro por onde passamos. E foi realmente bom!

A banda começou no fim os anos 70. Desde então, vocês sempre misturaram a urgência do punk rock com a energia da surf music. Por que decidiram juntar esses dois estilos em suas músicas?

Mike Palm – Tem muito a ver com o lugar de onde viemos, no sul da Califórnia. Meu irmão trabalhava em uma fábrica de guitarras da Fender nos anos 60, e meu primo tocava baixo em uma conhecida banda de surf music da época, chamada The Original Surfaris. Então, isso foi parte da nossa realidade. Era como nossa própria música popular, algo muito próximo da gente. Parecia algo natural essa mistura. Por exemplo, as bandas originais de surf music instrumental não eram formadas por ótimos músicos. Os caras estavam nessa pelo som, por um determinado tipo de som. Só que eles não tinham muito conhecimento ou habilidade para fazerem esse som. Mas entraram nessa mesmo assim, tentando obter o tom certo de guitarra, a batida ideal de bateria. Se Chicago é a terra do blues e New Orleans do jazz, o sul da Califórnia é o lugar da surf music. E essa sonoridade é única e especial. A energia do punk rock e da surf music são similares. Isso está impregnado em nós.

Como é olhar para trás e perceber que vocês foram um dos primeiros a misturar dois estilos distintos?  Hoje em dia, fundir tipos de música diferentes é comum. Mas, naquele tempo não.

Mike Palm – Misturas são comuns agora. Mas acho que se você pensar, muitos músicos fazem isso. Eles colocam duas de suas influências, ou mais, juntas. Acredito que todos absorvem e escolhem elementos de diferentes gêneros musicais que funcionam para eles. A surf music dos anos 60 era deixada de lado e o punk rock estava realmente pegando o ritmo, as pessoas estavam interessadas. Então, foi um tempo perfeito para essa fusão. São coisas que simplesmente acontecem, você não pode planejar.

E quais foram os artistas que inspiraram o Agent Orange?

Mike Palm – Tudo do Neal Hefti (autor da clássica trilha sonora do Batman), as primeiras bandas de surf music – o The Lively Ones foi uma grande influência -, e conjuntos de surf de Orange County. Punk rock, obviamente, também foi uma referência. As bandas antigas de Los Angeles, como The Weirdos, The Controllers, The Skulls, The Dickies, The Germs, The Alley Cats, The Avengers – uma ótima banda de San Francisco com a qual tocaremos em breve no festival Punk Rock Bowling, em Las Vegas. Nunca os vi tocar e eles foram grande influência para mim. Tem também o The Mechanics, de Fullerton (CA). Eles nunca fizeram sucesso, mas definitivamente nos influenciaram. Todas as bandas de punk rock de Orange County , como Social Distortion e Adolescents também.

Membros de outras bandas legais de punk rock de Orange County já passaram pelo Agent Orange. Gente que também tocou com Social Distortion, Adolescents… Qual a relação de vocês com esses grupos? São amigos? Tocam juntos? Fazem festa juntos?

Mike Palm – Algumas vezes. O que estou dizendo que é que algumas bandas, em função de seus empresários ou de outras pessoas, são aconselhadas a não tocarem juntas.

Como assim?

Mike Palm – Não sei. Pergunte ao Mike Ness – vocalista e guitarrista do Social Distortion (risos)! Mas há outras bandas, como o D.I, por exemplo, com quem fazemos vários shows juntos. Há ainda o Adolescents, que são bem próximos da gente. Fizemos algumas apresentações com o Bad Religion. Eles são nossos amigos, mas não tocamos com frequência juntos. Trabalhar com amigos é sempre muito bom. Isso não acontece o tempo todo, mas, quando rola, é especial.

Quais são suas lembranças da cena punk rock californiana do começo dos anos 80, quando havia boas bandas criando sua própria identidade dentro do estilo? Vocês acreditam que, hoje em dia, as bandas se preocupam em soar diferentes e originais umas das outras?

Mike Palm – Acho que lá no começo todos tinham mais liberdade de fazer como achassem melhor. Não era algo triste, do tipo “se você está em uma banda punk tem de ser assim, se vestir de tal jeito e tocar determinado tipo de guitarra”. Não havia regras. A única regra era ter a mente completamente aberta para qualquer coisa. Tentar ser o mais diferente e chocante possível. Isso era bom e saudável para a cena. Logo na sequência, todos tinham a mesma jaqueta preta de couro, tocavam os mesmo três acordes. Foi legal, de uma certa maneira, pois deu uma identidade ao estilo. Mas, talvez, fosse mais interessante no começo. Havia mais variedade e tipos diferentes de música. Era um tempo de mais experimentações.

No release que consta no Myspace do Agent Orange (myspace.com/agentorange) está escrito: “Never bought in, never sould out. Blazed a musical trail so wide that imitators had no trouble driving right up the middle of it in an armored truck full of major label cash” (em tradução livre: Nunca foi comprada, nunca se vendeu. Abriu um caminho tão amplo que os imitadores não tiverem problemas de andar bem no meio dele com um caminhão blindado cheio de dinheiro de grandes gravadoras). O que esse trecho realmente significa?

Mike Palm – É duro abrir um caminho, porque você é o único que realmente faz o trabalho pesado, limpa a estrada e faz as coisas darem certo. Então, outras bandas que apareceram depois, imitando seu estilo, passam com um grande caminhão cheio de dinheiro bem no meio dessa estrada que você fez. Até mesmo os Ramones… Eles eram ligados. Eles não tinham o mesmo sucesso de muitas das bandas mais novas que vieram depois, como o Green Day. Os Ramones trabalharam duro para ser, não necessariamente mainstream, mas ao menos aceitos ao ponto de eles poderem ter uma carreira de sucesso. E eu acho que eles sentiram que foram pouco valorizados, e no final eu creio que eles superaram isso, sabe? Eu acho que é difícil ser abrir um caminho. Você faz isso e, então, só assiste todos os outros meio que assumindo o controle a partir de onde você parou. Eu não disse que tudo que eu queria fazer era dinheiro. Quero dizer, ainda estamos aqui, no Brasil, fazendo essa entrevista. Significa muito para mim continuar tocando, ter fãs tão leais. Eu não me importaria com o caminhão de dinheiro, já que as outras coisas que ganhamos por ter uma banda por tanto tempo me mantém interessado e na estrada. Outra coisa é que, desde que estamos na ativa, eu sempre vi isso como algo que não deve ser jogado fora. Eu meio que me importo. Talvez por isso que algumas bandas não duram muito. Para mim, a recompensa é quando alguém fala comigo e diz “eu vi vocês a primeira vez que vieram para o Brasil”. É tão legal ver que as pessoas estavam lá, que lembram. E isso não acontece se você desistir.

A indústria da música é diferente agora também. Mesmo há vinte anos, ou há cinco anos… Quer dizer… Está evoluindo muito rápido! Alguns selos apenas agarram os artistas, cospem na sua boca e passam para a próxima coisa. Não é uma questão de longevidade com as bandas, com as gravadoras ou nada do tipo. Então, é muito ‘faça você mesmo’ agora também, sabe? Têm tantas bandas que muitas pessoas amam e, então, dois anos depois, eles não conseguem nem lembrar daquela banda, por que os integrantes desistiram. Não tenho certeza, mas acredito que sejamos uma das bandas punks mais antigas que existem por aí em atividade.

O Agent Orange é frequentemente associado à cultura do skate. Porém, existem boatos de que vocês não gostam dessa relação. É verdade?

Mike Palm- Isso é desinformação! É o lado ruim da Internet: nem tudo é verdade! É coisa da Wikipédia, onde qualquer pessoa pode colocar o que quiser. Algum idiota postou isso lá e algumas pessoas acreditaram. A verdade é que eu andava de skate anos antes de começar a banda. Era fazendo isso que eu gastava a maior parte do meu tempo. Meu foco era realmente o skate quando montei a banda. Foi algo que aconteceu quando todos os meus skates quebraram, que minhas rodas estragaram, meus rolamentos estouraram… Ao mesmo tempo, eu consegui uma guitarra decente e um bom amplificador. Foi uma espécie de transição. O skate é algo que sempre esteve muito próximo a mim. A energia do skate, ou mesmo do surf e outros esportes de ação, e do punk rock se encaixam.

Seu último trabalho de estúdio é o single This House is Haunted/Whistling Past the Graveyard (2010). Por que tanto tempo para lançar material novo – o registro anterior foi Virtually Indestructible (1996)? Há planos para um novo registro ou vocês estão bem ocupados com turnês?

Mike Palm – Estamos bem ocupados com turnês, mas acharemos tempo para fazer um disco novo. É bom surpreender as pessoas. Se esperarmos tempo suficiente todos ficarão surpresos quando algo novo do Agent Orange acerta-lhes bem no meio cara. Será quando você menos esperar! (Mike brinca fazendo referência ao EP When You Least Expect It, de 1984). Não estamos aqui para fazer alguma gravadora feliz. Quando colocarmos algo novo na praça será porque temos algumas boas músicas novas que queremos que as pessoas escutem. Tudo gira em torno da música… turnês, gravações. Essa é prioridade número um. Deixamos a música escolher.

Vocês gostam de estar na estrada?

Mike Palm – Bem, viajar é difícil. Não me entenda mal, mas não é férias, sabe? Eu gosto de estar em casa, no conforto do meu lar, com meu cachorro e minha prancha de surf. Fazer turnês é um trabalho duro. Mesmo assim adoramos estar na estrada!

http://www.youtube.com/watch?v=Dw-7rXKXyDQ

 

 

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